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FarmPoint

Vale a pena ler de novo! Enriquecimento ambiental: uma eficiente ferramenta na produção de ovinos e caprinos

Publicado em 03 fevereiro 2014

Por Fernanda V. R. Vieira

A interação entre humanos, caprinos e ovinos começou a ser fortalecida com a domesticação destes pequenos ruminantes por volta do século VIII a.C. (Folha de São Paulo, 2009). Naquela época não se dominava os conceitos básicos para a produção zootécnica, principalmente, no ponto de vista do bem-estar animal. No Brasil, este conceito começou a ser vinculado em 1934, mas sua real importância está sendo aprendida e, ainda hoje, é possível dizer que muitos produtores e técnicos desconhecem as relações que este conceito envolve e, consequentemente, sua importância no cenário mundial na produção de alimentos de origem animal.

Esta preocupação começou a ter maior ênfase a partir de consumidores exigentes por boas práticas no tratamento com animais. Na Europa e nos Estados Unidos a cadeia produtiva de aves, suínos e bovinos constituiu regras públicas para criação de animais. No Brasil, a Instrução Normativa Nº 03/2000, regulamenta técnicas sobre abate humanitário e recomendações sobre alimentação, manejo e instalações adequadas.

Hoje, mais do que nunca, há a necessidade de se manter em cativeiro indivíduos das mais variadas espécies animais, entre estes está a criação de animais de produção. Qualquer animal confinado em qualquer tipo de cativeiro pode apresentar diversos problemas de origem fisiológica e psicológica, uma vez que seu ambiente é restrito e sem dinâmica, o que pode impedir que o animal tenha controle sobre suas próprias ações e não desempenhe 100% o seu potencial. Por exemplo, um cordeiro confinado com todas as necessidades nutricionais atendidas, porém em um espaço muito restrito.

Por este motivo, é essencial a inclusão de programas que preencham os requisitos básicos de bem-estar aos animais mantidos em cativeiro. Estes cuidados no manejo, devem ser associados a um ambiente que promova saúde física e que satisfaça as necessidades psicológicas abordando o fornecimento de estímulos adequados para a espécie que abriga. O enriquecimento ambiental pode ser incluído nestes programas. Porém para descrever o enriquecimento ambiental e seus benéficos em animais de produção, é necessário que o leitor saiba o significado de bem-estar.

Segundo Broom e Johnson (1993) o bem-estar é o estado de um organismo durante suas tentativas de se ajustar com o seu ambiente. De acordo com este conceito o bem-estar envolveria, em termos de qualidade de vida, todas as situações, desde aquelas que colocam a vida do animal em risco até outras em que ele estaria em plena harmonia com seu ambiente, não sendo, portanto, sinônimo de estar-bem.

O primeiro passo é conhecer e aplicar os conceitos básicos para que os animais consigam manter o próprio bem-estar na propriedade. São essas as "5 liberdades" (Farm Animal Welfare Council):

- condições livre de fome, sede e desnutrição;

- conforto e abrigo;

- prevenção, ou diagnóstico rápido e tratamento,de injúrias e doenças;

- livre de medo;

- liberdade para expressar comportamento normal.

Estas são as necessidades básicas para promover o bem-estar animal, permitindo que estes animais tenham acesso a boas fontes de comida e água, espaço suficiente para se movimentarem livremente, ambiente social estável, proteção contra predadores, doenças, condições climáticas extremas e situações que levem a algum tipo de dor, levando sempre em consideração a nutrição, saúde, conforto e o comportamento apropriado do animal.

Os ovinos e caprinos são como qualquer outro animal que sente frio, fome, sede, requer cuidados para uma vida saudável, possui comportamentos típicos da espécie, que devem ser levados em consideração para manutenção da sanidade tanto do rebanho quanto do Homem, que se beneficia do seu produto, carne e/ou leite.

A falta de bem-estar em ovinos e caprinos prejudica o desempenho animal e traz prejuízos ao produtor. Segundo Paranhos da Costa, umas delas são esteriotipias (balançar o corpo para frente, para trás, para os lados, enrolar a língua), comportamentos auto-destrutivos (auto-mutilação, lamber e comer o seu próprio pelo ou lã), apetite depravado (podendo ingerir madeira, cama, terra, fezes, além da própria dieta - hiperfagia), polidipsia (ingestão excessiva de água), agressividade exagerada, falhas em funções comportamentais (cio silencioso, impotência sexual nos machos, rejeição de filhotes), reatividade anormal (apatia, inatividade prolongada, hiperatividade, reações de pânico).

Assim, o enriquecimento ambiental mostra-se, cada vez mais, uma ótima ferramenta para a preservação do bem-estar animal. Este método consiste na introdução de variedades criativas nos recintos (baias e pastos) a fim de contribuir com o bem-estar dos animais que estão alojados em algum sistema de produção. Porém, é de grande importância ressaltar que o tipo de enriquecimento utilizado deve ser apropriado as espécies em questão, para garantir a segurança das mesmas. Cada propriedade tem suas peculiaridades, cabe ao técnico e ao produtor averiguar quais são as possibilidades de encaixar no programa de bem-estar animal algum tipo de enriquecimento ambiental.

Segundo um documento da Universidade da Califórnia, Davis, as diferentes técnicas de enriquecimento ambiental utilizadas para ovinos e caprinos podem ser divididas dessa maneira: socialização, cama/abrigo, alimentação e brinquedos/dispositivos.

Socialização

Caprinos e ovinos são animais sociáveis que devem ser mantidos em grupos. Isto não sendo possível, por exemplo, no caso de machos que devem estar separados do rebanho, os animais devem ser capazes de, pelo menos, ver e ouvir os outros indivíduos.

Uma interação positiva, ou seja um tratador não agressivo, deve sempre ser prioridade no cuidado com os animais. Ovinos e caprinos podem se acostumar rapidamente como os tratadores e quando a interação positiva é estabelecida, a quantidade de estresse é diminuída.

Cama/abrigo

Quando alojados do lado de fora, ovinos e caprinos devem dispor de abrigos contra condições climáticas adversas. Nas pastagens, não se faz necessário o fornecimento de camas adicionais. Em celeiros, grandes tapetes de borracha podem ser fornecidos para que os animais tenham uma superfície além do concreto para descansarem. Aparas de madeira também podem ser utilizadas.

Alimentação

No estado selvagem, ovinos e caprinos são herbívoros, pastam (ovinos) ou pastam e consomem folhagens (caprinos). Em um sistema de produção são alimentados basicamente com grãos, os quais fornecem as necessidades nutricionais. Um método para enriquecer ambientalmente este sistema, seria fornecendo uma quantidade de feno de capim nas alimentações pela manhã e tarde. Este fornecimento estimularia a mastigação e o comportamento natural de forrageamento. Como caprinos são consumidores de folhas, este fornecimento poderá ser feito com certa altura, para estimular o comportamento natural.

a) Deve-se ter muita atenção no lugar em que o feno será pendurado. Os caprinos devem ser capazes de alcançarem o feno esticando o pescoço e, principalmente, não devem estar sujeitos a nenhum tipo de perigo, como ficarem presos em alguma parte da estrutura do galpão, cercas, redes etc.

b) Para os meses de muito calor, poderão ser fornecidos blocos de gelos. Ainda é possível a colocação de algum tipo de "recompensa" dentro destes blocos, assim quando os blocos forem derretidos esta "recompensa" será liberada.

Brinquedos/dispositivos

Ovinos e caprinos podem beneficiar-se com grandes bolas e brinquedos similares. Embora muitos destes animais deem pouca ou nenhuma atenção para os brinquedos. O melhor "brinquedo"para ovinos e caprinos é a companhia de um outro ovino e caprino.

Caprinos são capazes de escalar, assim, se possível, fornecer algum tipo de estrutura vertical, com o cuidado para esta estrutura não permitir a fuga e acidentes com os animais. A quantidade de estruturas verticais poderá ser modificada dependendo do tamanho do lote, para impedir a sua monopolização pelos indivíduos dominantes. Não se deve utilizar este tipo de estrutura em lugares abertos, para evitar a fuga dos animais. Para ovinos a estrutura não é recomendada, pois estes não se beneficiariam. Ainda, para caprinos, é possível introduzir pneus para distração individual ou em grupo.

Para ruminantes existe a possibilidade de fornecimento de blocos nutricionais. Além de oferecerem uma dieta mais rica, enriquecem o ambiente e ajudam a diminuir o estresse do animal confinado (Revista Fapesp, 2008).

Atualmente, o Manejo Racional em gado bovino é um assunto em destaque, priorizando a utilização do conhecimento sobre a biologia, as interações humanos-animais, minimizando o risco de acidentes (mão-de-obra treinada, instalações adequadas) e garantindo melhores desempenhos pelos animais e qualidade do produto. No Brasil, muito pouco é estudado/investido para pequenos ruminantes.

Já está provado cientificamente que os animais se estressam tanto quanto o ser humano e quando um animal de produção fica estressado sua produção diminui consideravelmente - em caso de vacas leiteiras esta diminuição pode chegar em até 30%. O estresse traz consequências diretas para a saúde do animal. Ele perde o apetite e a sua imunidade fica baixa, tornando-o mais vulnerável a doenças (Embrapa, 2009).

Segundo Gonyou (1991), o uso do espaço de acordo com o comportamento animal nos dá alguma ideia das condições preferidas pelo animal. Para interpretar este comportamento nós precisamos saber quais as escolhas o animal percebe estar disponível para ele. Isto requer um conhecimento das alternativas disponíveis. O ponto mais importante é que o produtor saiba olhar para os seus animais e enxergar os problemas, que, porventura estão associados a falta de bem-estar no rebanho. O produtor, mais do que ninguém, deve conhecer seus animais, suas necessidades e, principalmente, o comportamento que estes teriam se estivessem na natureza. É assim que se cria um padrão para analisar se o bem-estar está ou não sendo alcançado na propriedade.

Atualmente, o bem-estar é parâmetro fundamental na produção de animais zootécnicos. Animais envolvidos com atividades durante o dia são animais menos ociosos e, consequentemente, menos estressados. A OIE (Organização Internacional de Epizotias/Saúde Animal) reconhece o BEM-ESTAR, entre outros itens, fundamental à SANIDADE animal.

Fazer perguntas rotineiras como "Os animais estão realmente bem neste local? Este local pode ser melhorado priorizando o bem-estar animal?" são eficientes instrumentos para o produtor que almeja uma maior e melhor produção na sua propriedade.

Referências Bibliográficas:

BROOM, D.M.; JOHNSON, K.G. Stress and Animal Welfare. London: Chapman and Hall, 1993.

GONYOU, H. W. Behavioral methods to answer questions about sheep. J Anim Sci., v. 69, pp. 4155-4160, 1991.

[Embrapa]. Estresse pode diminuir produtividade animal. 2009. Disponível em: http://embrapa.br/. Acesso em 04/03/2010.

[FAPESP]. Blocos Nutricionais para o rebanho. 2008. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/. Acesso em 04/03/2010.

[University of California]. Environmental Enrichment for Sheep and Goats. Disponível em: http://128.120.126.199/ucd-access/pdfs/SOP680.pdf. Acesso em 04/03/2010. Acesso em 04/03/2010.

Paranhos da Costa, M.J.R. Comportamento, manejo e bem-estar de ovinos e caprinos. Palestra ministrada.

Folha de São Paulo em 02/02/2009.

OIE: http://www.oie.int/