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Vagalumes iluminam cavernas e cupinzeiros na Amazônia para atrair presas

Publicado em 08 julho 2016

MANAUS - Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba, descobriram que no interior da Floresta Amazônica, os “cupinzeiros luminosos”, da espécie Pyrearinus termitilluminans, irradiam uma luz esverdeada intensa para atrair presas. Os pesquisadores também observaram a existência de larvas de vagalumes dentro de cavernas de argila na Amazônia, que exibem luminescência semelhante e com a mesma função das que colonizam os cupinzeiros luminosos.

As descobertas, feitas por meio de projetos apoiados pela Fapesp, foram descritas em um artigo publicado na Annals of the Entomological Society of America. “Até então só havia relatos de bioluminescência [emissão de luz fria e visível por organismos vivos] em cavernas na Nova Zelândia e na Austrália, onde larvas de uma espécie de mosquito luminescente constroem teias no teto de grutas”, disse Vadim Viviani, professor da UFSCar e coordenador do estudo.

De acordo com o pesquisador, havia relatos ocasionais da existência de cupinzeiros luminosos na Floresta Amazônica e em outros locais da América do Sul, mas esses casos nunca foram investigados. A fim de certificar a veracidade desses relatos, os pesquisadores começaram a realizar, a partir de 2009, expedições de observação na Amazônia, iniciando por uma região de transição do Cerrado para a Floresta Amazônica, ao longo do rio Araguaia, até chegar ao norte de Tocantins.

Em seguida, eles visitaram o lado noroeste do estado de Mato Grosso, ao longo do rio Juruena. E, finalmente, foram ao interior do estado do Pará, na cidade de Canaã de Carajás, em razão de informações que obtiveram da pesquisadora Cleide Costa, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), de relatos de geólogos sobre a ocorrência de larvas bioluminescentes em cavernas argilosas na Floresta Nacional de Carajás.

Durante essas viagens, os pesquisadores constataram a existência de cupinzeiros luminosos, habitados por larvas luminescentes de vagalumes das espécies Pyrearinus fragilis e Pyrearinus termitilluminans, em três localidades diferentes no interior da floresta amazônica – nos municípios de Caseara, no Tocantins, Canaã dos Carajás, no Pará, e Juruena, no Mato Grosso – e na cidade de Novo Santo Antônio, no Mato Grosso, situada em uma área de Cerrado.

Além disso, também confirmaram a presença de larvas luminescentes de vagalumes da espécie Pyrearinus pumilus no interior de cavernas argilosas e com solo rico em ferro – chamadas de canga – na Floresta Nacional de Carajás. “Observamos que as larvas luminescentes de vagalumes encontradas nas cavernas argilosas emitem luz muito provavelmente com a função de atrair insetos voadores para servirem de presas, como fazem as larvas de vagalumes que ocorrem em cupinzeiros luminosos no Cerrado e os mosquitos da espécie Arachnocampa luminosa que povoam cavernas na Nova Zelândia”, comparou Viviani.

Fontes de alimentos

De acordo com o pesquisador, ainda não há uma explicação definitiva sobre a origem evolutiva da colonização dos cupinzeiros ou do interior de cavernas por vagalumes. O que se sabe é que vagalumes adultos colocam ovos na base dos cupinzeiros e no interior de cavernas e que, ao eclodir, dão origem a centenas de larvas luminescentes que transformam esses ambientes em seus habitats.

A explicação mais provável, contudo, é que como as larvas de outras espécies do gênero Pyrearinussão normalmente encontradas em troncos em decomposição ou no solo e são carnívoras, a associação com cupinzeiro foi uma adaptação vantajosa, pois esses lugares são ricos em cupins e outros insetos pequenos que lhes servem de alimento. “Nossa hipótese é que as larvas de vagalumes desde cedo se associaram a locais onde havia madeira em decomposição e, consequentemente, tinha cupins. Mais tarde, adaptaram-se aos cupinzeiros situados dentro de ambientes florestais, no interior da floresta amazônica”, estimou.

“É provável que a substituição de áreas de floresta por Cerrado, devido às mudanças climáticas, pode ter resultado na adaptação das larvas de vagalumes a ambientes abertos, onde passaram a exibir uma bioluminescência mais intensa para atrair insetos voadores de lugares mais distantes”, explicou.

Já a adaptação a cavernas pode ter acontecido porque, a exemplo dos cupinzeiros, esses ambientes também têm mosquitos e outros insetos pequenos que se desenvolvem no interior das cavernas ou entram nelas acidentalmente, e que podem servir de alimento às larvas de vagalumes, especula Viviani. “Em algum momento, essas larvas devem ter se adaptado aos túneis das cavernas de canga, em Carajás, que estima-se que foram formadas por tatus gigantes que entraram em extinção”, disse o pesquisador.

Os pesquisadores fizeram uma análise filogenética molecular preliminar – da relação evolutiva – das larvas luminescentes de vagalumes encontradas nos cupinzeiros e nas cavernas de canga no interior da floresta amazônica.

Os resultados das análises, juntamente com dados ecológicos, indicaram que, além da espécie Pyrearinus fragilis, que habita exclusivamente florestas, existem duas linhagens distintas da espécie de vagalumes Pyrearinus termitilluminans que estão adaptadas para cupinzeiros de Cerrado e de floresta.

A espécie Pyrearinus termitilluminans, por exemplo, foi encontrada em cupinzeiros localizados no Parque Nacional das Emas, em Goiás, e na zona de transição do Cerrado para a Amazônia. Já a Pyrearinus fragilis foi identificada em cupinzeiros localizados dentro da floresta amazônica. E a Pyrearinus pumilus localizada no interior das cavernas de canga em Carajás, no Pará.

Todas essas espécies de vagalumes Pyrearinus pertencem ao grupo pumilus. “Essas espécies de vagalumes Pyrearinus do grupo pumilus compartilham de um ancestral comum que se associou a áreas ricas em matéria orgânica, preferencialmente com cupins. Algumas espécies acabaram por se adaptar a cupinzeiros e outras a cavernas”, resumiu Viviani.

Portal Amazônia, com informações da Fapesp

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