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Vacinas recombinantes colocam país em destaque

Publicado em 18 outubro 2012

Por Rosangela Capozoli

Os anos 2010 deram a largada no desenvolvimento das drogas de base biotecnológica no Brasil. Entre esses medicamentos, resultado da aplicação de técnicas biológicas em organismos vivos, as vacinas recombinantes prometem garantir ao país a dianteira entre as nações com maiores índices de imunização - além de abrir mercados para exportação. Entre as boas notícias, na área de engenharia genética, há aquelas esperadas em médio prazo, como a vacina da dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan e que nos próximos meses deve iniciar ensaios em fase II.

O instituto, que há dez anos produz a vacina contra a hepatite B, caminha agora para testar o produto junto com a BCG - contra a tuberculose - no nascimento, que também protegeria os bebês da coqueluche. A boa surpresa é que a vacina atua também de forma terapêutica contra o câncer de bexiga e já está sendo produzida para iniciar testes em fase I em dois anos.

Uma equipe da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto persegue desde os anos 1990 uma vacina de DNA com uma resposta imunológica mais adequada para o controle da tuberculose. Hoje, o centro de pesquisa desenvolve a que seria a única vacina com atividade terapêutica para a tuberculose, com um tratamento em humanos que seria reduzido de seis para dois meses. A droga também pode beneficiar o tratamento de alguns tipos de câncer, por ter um efeito anti-tumoral. Hoje a vacina está em testes pré-clínicos em macacos, nos Estados Unidos, mas faltam recursos para o início dos testes em humanos. "Não temos apoio governamental, nem do ministério. Submetemos um projeto para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e não foi aprovado. Estamos sem saber o que fazer nessa parte de tuberculose", diz Célio Lopes Silva, professor titular de imunologia do Departamento de Bioquímica e Imunologia da USP de Ribeirão Preto.

O professor explica que à medida que os estudos foram progredindo ficou provado que a vacina, além de prevenir, também tem propriedade para curar a doença. "Para nossa surpresa essa estratégia foi muito eficiente. Hoje temos todo o desenvolvimento tecnológico pronto. Cumprimos toda a etapa de processo de desenvolvimento de produto, cujos investimentos somaram US$ 12 milhões - recursos esses provenientes da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Fapesp, CNPq e próprios", explica. Como o Brasil não tem condições de realizar testes clínicos de vacina em macacos, a equipe submeteu o projeto ao Centro de Climatologia no Texas, nos EUA, o que exigiu desembolsos americanos de US$ 4 milhões.

"Neste ano estamos na fase final de conclusão desses testes. Os resultados estão sendo espetaculares e não são apenas preventivos, mas atuam de forma terapêutica", afirma Lopes Silva. De acordo com o professor, por se tratar de uma vacina potente imunomoduladora, ela tem capacidade para tratar outras doenças nas quais o sistema imunológico tem um papel importante. "Por falta de verbas criamos outra linha dentro do laboratório e investimos nela, com algumas modificações de formulações, otimização do produto, direcionando o estudo para essa área de câncer também", explica.

O Instituto Butantan tem vários estudos em andamento. A expectativa com o desenvolvimento da vacina da dengue é grande. "Dentro de três a quatro anos, ela certamente estará aprovada, o que exigirá o investimento em uma fábrica para produção em larga escala", diz Luciana César de Cerqueira Leite, diretora do Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan.

A BCG coqueluche é outra vacina recombinante em fase de desenvolvimento. "A BCG produz uma proteína da coqueluche e quando aplicada logo no nascimento do bebê, a nossa expectativa é de que proteja contra a coqueluche mais cedo", diz.

Há crianças com menos de seis meses de idade que estão contraindo coqueluche. "A vacina que desenvolvemos, que é a BCG recombinante Pertussis, protegeria da tuberculose e coqueluche ao mesmo tempo. Os primeiros lotes produzidos servirão para o ensaio de fase I, que deverá ser feito dentro de dois anos", explica a pesquisadora.

O mesmo medicamento, segundo Luciana, atua no combate ao câncer de bexiga. "Dentro de seis a oito anos a vacina deverá estar no mercado para câncer de bexiga e coqueluche neonatal", prevê.

Para Eduardo Giacomazzi, coordenador adjunto do Comitê da Cadeia Produtiva de Biotecnologia (Combio) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ainda falta muita sintonia entre os Núcleos de Coordenação Tecnológica (NCT) no Brasil. Na sua opinião, embora os laboratórios e universidades ainda façam algum desenvolvimento, existe agora uma corrida por parte das empresas para abrir plantas no Brasil.

Fonte: Valor Econômico