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Blog da Revista Espaço Acadêmico

Vacinas e COVID-19

Publicado em 10 fevereiro 2021

*vacina, a palavra

A palavra vacina provém do latim vaccinus e designa derivado da vaca. O uso do termo vacina se equalizou com a descoberta do imunizante equivalente à própria doença da varíola, que atingia a vaca. Se, de um lado, a descoberta da vacina se confunde com a emergência da medicina moderna, de outro lado, ela também encontra algumas de suas proveniências em práticas de saberes comuns de pessoas simples como os camponeses.

O médico inglês Edward Jenner, considerado o criador da primeira vacina aplicada em humanos, conversando um dia com uma camponesa ficou interessado por algo que ela lhe contara, ao dizer que não pegava varíola, porque ao ordenhar a vaca já tinha “tido vacina”. Certo tempo depois, Jenner passou a observar que as pessoas que ordenhavam as vacas e desenvolviam feridas nas pontas dos dedos semelhantes àqueles das pontas das tetas das vacas não pegavam varíola em tempos de surtos endêmicos, confirmando o que lhe falara a camponesa, nos idos de 1770.

Em 1798, Jenner publicou seu primeiro trabalho sobre vacina, e, em junho de 1800, ocorreram os primeiros ensaios de inoculação da vacina contra a varíola. Foram usadas em 30 crianças.

Ainda que a inoculação e a vacinação sejam práticas distintas, a produção da vacina serviu-se da primeira como etapa prévia. Ou seja, dito de maneira simples: injetou-se, no humano, fluídos do pus da teta da vaca (etapa de inoculação) e extraiu-se sangue destas pessoas inoculadas para injetá-lo nas seguintes (etapa de vacinação).

No Brasil durante o Império, no início dos anos 1800, ainda que haja algumas discordâncias na história da medicina, historiadores situam a provável introdução da vacina contra a varíola em 1804. Para além e aquém das datas, interessa ressaltar que as crianças foram utilizadas não apenas para a etapa da produção da própria vacina, como também para exercício e treino de quem iria aplicá-la. Eram os braços dessas crianças que serviam à produção e ao treino.

Crianças negras escravizadas no Brasil eram vendidas e enviadas à Corte, na Europa, para servirem de balão de ensaio ao novo método de imunização que se inaugurava, e no navio de retorno que as trazia de volta, seus braços eram tomados como utensílio de treino para a aplicação da vacina durante a viagem. Este é, também, um minúsculo detalhe imenso e estrondoso dos baixos começos disto que se chama “vacina”.

Cem anos depois, em 1904, o que ficou conhecido como revolta da vacina explodiria na cidade do Rio de Janeiro.

vacinas entre técnicas e estratégias

Após dois séculos da criação médica da vacina, segundo a FAPESP, há nos dias de hoje “basicamente vacinas contra 30 patógenos que causam doenças em humanos”. Em tempos da disseminação da doença intitulada COVID-19, acirra-se a corrida por vacinas capazes de produzir imunização contra o novo coronavírus.

Segundo a OMS, há hoje 48 candidatas a vacinas contra a COVID-19 em estágio clínico. Dentre estas, 11 encontram-se na última fase, além das 164 situadas em fase pré-clínica (cf. atualização da OMS em 12/11/2020).

“Pelo menos oito estratégias diferentes estão sendo usadas para desenvolver candidatas a vacinas contra a Covid-19. As mais tradicionais usam formulações baseadas em versões atenuadas ou inativadas do Sars-CoV-2. As mais modernas têm como objetivo usar o código genético do vírus para estimular uma resposta imunológica ao patógeno” (cf. Revista FAPESP de julho de 2020).

Grosso modo, mesmo levando em conta as diferentes estratégias, são quatro os principais tipos de vacina estudadas, atualmente, para o novo coronavírus, lançando mão de técnicas distintas: a do vírus enfraquecido ou vírus inativado; a de proteína ou de subunidade proteica; a gênica ou genética, chamadas também de moleculares, e, por fim, a de vetor viral.

As vacinas de vírus enfraquecido ou vírus atenuados, segundo pesquisadores que estudam as vacinas virais, apresentam a vantagem de lançar mão de técnica mais antiga, mais conhecida e mais utilizada.

De acordo com Natalia Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, “vírus atenuados são obtidos por cultivos sucessivos em linhagens celulares, até que se chegue a uma variante incapaz de causar a doença. A vacinas de caxumba, sarampo, catapora, e rotavírus são feitas assim. A vacina da pólio do tipo Sabin também é atenuada. Já o tipo Salk é de vírus inativado. Para inativar um vírus podemos usar calor ou agentes químicos. Um exemplo é a vacina sazonal de influenza. (…) A empresa chinesa Sinovac está desenvolvendo uma vacina de vírus inativado para COVID-19, e já realiza testes em humanos, tendo mostrado bons resultados em camundongos e macacos, com boa quantidade de anticorpos neutralizantes — que realmente impedem a entrada do vírus nas células — e proteção total ou parcial após a exposição deliberada do animal ao vírus —o que chamamos de ‘desafio’”.

A Sinovac (China) em parceria com Instituto Butantan que coordena os estudos da Coronavac no Brasil (Brasil), dos quais a FIOCRUZ também participa de ensaios clínicos, publicou recentemente estudo na revista The Lancet, mostrando que a vacina produziu anticorpos em 97% dos participantes da pesquisa. O governo do estado de São Paulo firmou acordo com a empresa chinesa para aquisição da vacina. As primeiras doses chegaram na cidade de São Paulo em novembro.

A vacina de proteína ou subunidade proteica, por sua vez, usa uma parte do próprio vírus para injetá-la no corpo.

“No caso do Sars-CoV-2, o antígeno geralmente escolhido é uma proteína de superfície do novo coronavírus, a spike, que forma as espículas responsáveis por ajudar o vírus a penetrar nas células humanas. Esses imunizantes geram boa resposta imunológica, mas nem sempre duradoura. Vacinas como as de hepatite B e de meningite bacteriana usam essa tecnologia” (cf. Revista FAPESP de julho de 2020).

Uma das vacinas candidatas em fase avançada que utiliza esta técnica é a do laboratório Novavax (EUA) em parceria com a Takeda (Japão). Após ter passado por testes na fase 1 e 2 na Austrália e África do Sul, agora no estágio final da fase 3, é testada em 18 mil voluntários no Reino Unido.

A vacina gênica ou genética, denominada também por molecular, usa o DNA ou RNA do vírus. Se, de um lado, sua produção é mais rápida, de outro lado, não há, ainda, vacina alguma usada em humanos que utilize este método. Ele consiste em usar parte do material genético do vírus para induzir o corpo a produzir uma resposta imune, neste caso, ao Sars-CoV-2.

“DNA: em vez de usar um vírus inteiro ou pedaços dele, essa técnica cria formulações com as instruções genéticas, uma sequência de DNA, necessárias para a produção do antígeno do patógeno. São usados os chamados plasmídeos, moléculas circulares de DNA, para carregar a sequência genômica desejada. As células do organismo leem a sequência, copiam-na na forma de uma molécula mais simples, o RNA mensageiro, e produzem o antígeno. O método, em tese, seria rápido e eficiente. Mas ainda não há vacinas para humanos baseadas nessa abordagem. RNA: A técnica é um passo além da anterior, pois visa introduzir no recebedor do imunizante a própria molécula do RNA mensageiro, a ‘receita química’ usada no processo celular para produzir o anticorpo do patógeno. O RNA é sintetizado em laboratório e, uma vez no organismo, é transportado por partículas de lipídeos (gordura) que atravessam facilmente as células humanas. Como a de DNA, a vacina de RNA seria mais rápida e fácil de ser produzida, mas não há imunizantes humanos aprovados com essa tecnologia” (cf. Revista FAPESP de julho de 2020).

As vacinas gênicas ou genéticas, chamadas também de moleculares, com base em RNA, candidatas a aprovação e que se encontram na fase 3 de estudos clínicos são as da Moderna/NIAID e da BioNTech/Fosun Pharma/Pfizer, em parceria entre empresas da Alemanha e dos EUA.

E, finalmente, há as vacinas de vetor viral. Nelas é utilizado um outro vírus atenuado, geralmente de gripe comum (adenovírus), ou de sarampo, ou de poliomielite, dentre outras, no qual é adicionado o gene (DNA das espículas) do novo coronavírus. Elas podem ser de fator viral não replicante ou de fator viral replicante.

“Vetor viral não replicante: essas formulações empregam um vírus modificado inócuo (vetor), ao qual foi adicionado o gene do Sars-CoV-2 que codifica seu antígeno, a proteína spike. O vírus recombinante não se reproduz, mas penetra nas células humanas onde ativa o gene do antígeno que produz a spike. O vetor mais usado é o adenovírus, que, se não for desativado, pode causar doenças respiratórias. A primeira vacina para uso humano com essa tecnologia confere proteção contra o vírus ebola originário do Zaire e foi aprovada no fim de 2019 nos Estados Unidos e na Europa. Fator viral replicante: A principal diferença em relação à estratégia anterior é que o vetor viral encarregado de levar a proteína spike se reproduz nas células humanas. Existem diversos vetores empregados nessa abordagem, como os vírus atenuados do sarampo, da influenza, da poliomielite ou da estomatite vesicular (VSV). Esse tipo de vacina pode não produzir a imunidade desejada se a pessoa tiver anticorpos contra o vetor viral” (cf, revista FAPESP de julho de 2020).

Uma das vacinas de vetor viral para o novo coronavírus em fase mais adiantada é da Universidade de Oxford/Atrazeneca, desenvolvida a partir do componente de um vírus comum enfraquecido de gripe encontrado em chipanzés. A vacina está em fase de testes no Brasil em estudo liderado pela Unifesp. O Ministério da Saúde fez acordo com a farmacêutica para aquisição de doses da vacina e para a produção dela no Brasil pela FIOCRUZ.

Dentre outras vacinas de vetor viral, cabe ainda destacar a Gam-COVID-Vac (Russia), que segundo a última atualização da OMS em novembro, encontra-se na fase 3 de estudos clínicos. Conhecida, também, como Sputinik V é desenvolvida pelo Instituto de pesquisa Gamaleya em Epidemiologia e Microbiologia em parceria com outras seis instituições.

as “pérolas de gênios” sobre a vacina em dois flashs

O carniceiro mor, em outubro de 2020, solta a pérola: “não é mais barato e fácil investir na cura do que na vacina?”.

O que ele pretende? Que todos se infectem? Enfiar goela abaixo de todos a tão glorificada e barata cloroquina? O ostentador do topete mor do hemisfério norte, quando contaminado, não tomou o aclamado remédio “mágico”. Ingeriu coquetel composto, também, por anticorpos monoclonais, um dos medicamentos de ponta desenvolvidos para o tratamento dos efeitos do novo coronavírus, de custo altíssimo e utilizado em casos graves de doenças autoimunes, ainda em fase de teste no tratamento da COVID-19. No dia 22 de novembro, o tratamento com anticorpos monoclonais foi aprovado para tratamento do novo coronavírus pela FDA nos EUA.

Autoridades, especialistas e comentaristas de plantão, frente à chamada disputa “ideológica” em torno da vacina, e da horda do rebanho que se nega a tomar vacina, simplesmente para acatar o que o pastor da ocasião professa, soltam a pérola: “estamos diante de uma nova revolta da vacina”.

Não estamos não! A revolta da vacina, ocorrida no início do século XX, expressou uma luta contundente de recusa à limpeza urbana e moral que foi orquestrada na cidade do Rio de Janeiro por autoridades médicas, políticas e policiais, diante da obrigatoriedade de vacinação da varíola. A ordem de Estado almejava fazer escafeder das ruas, pobres, pretos, quase pretos, brancos, quase brancos, e em nome de medidas médico-sanitárias, pretendeu mandar pelos ares subversivos e revoltados. A força trazida pela revolta da vacina, que em momento algum se confunde com o rebanho de pastores que assistimos hoje, pode ser notada no urro ecoado pela revolta naquele momento: “Morra a polícia! Abaixo a vacina!”

para o que não há vacina, nem nunca haverá

É de não esquecer que isto que se chama de vacinação em “saúde pública”, indissociável do Estado, do capitalismo e da medicina moderna, encontra seus baixos começos na prática da “polícia médica”, como exercício indispensável no que se constituiu não só como medicina social, como, também, para a conformação histórico-política da construção de normal e normalização.

Não há dúvida de que as vacinas, na maioria das vezes, impedem que sejamos solapados por várias doenças (C.f. Verbete profilaxia em Encyclopedie Anarchiste). Mais de duzentos anos depois da conversa do médico inglês com a ordenhadeira das vacas, e decorrente da disseminação global da vacina contra a varíola humana, essa doença foi erradicada do planeta.

Entretanto, acreditar que é aceitável uma polícia, seja ela qual for, para nos proteger, é o cúmulo da estupidez, da mediocridade, do assujeitamento e da falta de imaginação.

No mais, não há e jamais haverá vacina capaz de conter o indomesticável afeito a uma existência livre que normal algum é capaz de apanhar.

E esta é uma saúde inqualificável, sem cálculo nem medida.

* Publicado em observatório ecopolítica. Ano IV, n. 80, novembro de 2020. Disponível em https://www5.pucsp.br/ecopolitica/observatorio-ecopolitica/n80.html