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Vacinas: desafios contra a pandemia

Publicado em 16 fevereiro 2021

O desenvolvimento de várias vacinas seguras e eficazes em tempo recorde é um feito extraordinário de cientistas que trabalham em todo o mundo para conter a pandemia do novo coronavírus. A aprovação em 17 de janeiro, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de dois imunizantes para uso emergencial contra a Covid-19 no Brasil pode marcar o começo de uma nova fase no combate ao vírus Sars-CoV-2, que já matou mais de 2 milhões de pessoas ao redor do planeta, 220 mil delas apenas no Brasil. Os especialistas advertem, no entanto, que o início da aplicação das vacinas não significa que o fim da epidemia esteja próximo – nem aqui, nem em outros países.

No Brasil, as três primeiras fases previstas no Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19 deveriam atingir cerca de 70 milhões de pessoas de grupos de risco, com duração de quatro meses. Depois, seria necessário mais um ano para vacinar o restante da população brasileira – excluindo grávidas e crianças, que não participaram dos testes clínicos. Em uma nota do dia 20 de janeiro, ao responder a um questionamento do site de notícias UOL, o Ministério da Saúde estimou que, “no período de 12 meses, posterior à fase inicial, concluirá a vacinação da população em geral, o que dependerá, concomitantemente, do quantitativo de imunobiológico disponibilizado para uso”.

As vacinas CoronaVac, fabricada pelo laboratório chinês Sinovac Life Sciences e envasada no Brasil pelo Instituto Butantan, e a Covishield, da Universidade de Oxford e da empresa farmacêutica sueco-britânica AstraZeneca, vêm da China e da Índia, respectivamente. Como a produção dos dois laboratórios não é suficiente para atender prontamente aos pedidos que vêm de muitos países, a incerteza permanece. A fabricação dos imunizantes no Brasil está prevista para começar no segundo semestre deste ano na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no caso da Covishield, e no segundo semestre de 2022 no Butantan, no caso da CoronaVac (o prédio para produção ficará pronto até outubro deste ano).

O problema brasileiro é também o principal desafio global: a escassez de doses. Em um primeiro momento, após a aprovação do uso emergencial pela Anvisa, o país tinha à disposição 6 milhões de doses da CoronaVac. Como a imunização exige duas doses, a quantidade é o bastante para vacinar 3 milhões de pessoas, número inferior ao da força de trabalho da saúde, estimado em 6 milhões. Outros 4,8 milhões de doses foram autorizadas para uso pela Anvisa no dia 22. Nesse mesmo dia, o país recebeu da Índia 2 milhões de doses da segunda vacina aprovada, a Covishield, hoje fabricada pelo laboratório Serum. “A produção mundial de vacinas atual é insuficiente para as necessidades de qualquer país”, afirma o médico José Cassio de Moraes, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e integrante da Comissão de Epidemiologia da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Novos problemas surgem à medida que as campanhas de vacinação se desenrolam no mundo. Até 1 de fevereiro, 101,3 milhões de doses haviam sido aplicadas em cerca de 50 países, segundo o site Our World in Data. Os que mais vacinaram, em números absolutos, foram Estados Unidos (32,2 milhões), China (24 milhões), Reino Unido (9,8 milhões) e Israel (4,9 milhões). Problemas de logística, confusão na distribuição e até falta de mão de obra para a aplicação da vacina vêm sendo noticiados nos Estados Unidos e na Europa. Veja no mapa abaixo, atualizado diariamente, a quantidade de pessoas vacinadas pelo mundo por grupo de 100 pessoas.

A escassez de vacinas levou alguns países a modificar o intervalo de aplicação das doses inicialmente previsto, suscitando debates entre os pesquisadores. No Reino Unido, onde a população está sendo imunizada com a vacina Covishield e a da Pfizer/BioNTech, o Comitê Conjunto para Vacinação e Imunização recomendou a aplicação da primeira dose ao máximo possível de pessoas elegíveis nas primeiras fases da campanha, para maximizar o impacto de curto prazo.

A segunda dose das duas vacinas, segundo essa recomendação, pode ser aplicada após um intervalo que vai de três semanas (no caso da Pfizer) e quatro (Covishield) a até 12 semanas. Nos ensaios clínicos de fase 3 da Pfizer o intervalo entre doses preconizado foi de 21 dias. De acordo com o estudo publicado na revista científica New England Journal of Medicine, após a primeira dose da Pfizer a eficácia foi de 52% e, sete dias depois da segunda dose, subiu para 95%. Espera-se que um intervalo maior dê mais tempo aos fabricantes para aumentar a produção. Os pesquisadores do comitê britânico orientam que não se aplique uma dose única nem que se tome uma vacina diferente da primeira na segunda dose.

“É importante ressaltar que, em nenhum momento, a recomendação determina que se pare em uma dose”, afirma a imunologista brasileira Daniela Ferreira, professora titular em vacinologia e chefe do Departamento de Ciências Clínicas na Escola de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido. De acordo com a pesquisadora, que coordenou os testes da Covishield em Liverpool, estudos publicados sobre esse imunizante mostram que as pessoas que receberam as doses com um intervalo maior tiveram proteção mais robusta. Já com relação à vacina da Pfizer, não há dados mostrando se a alteração do intervalo entre as doses afeta positiva ou negativamente a proteção por ela concedida.

Nos Estados Unidos, onde estão sendo aplicadas as vacinas da Pfizer e da Moderna, pesquisadores têm se manifestado contra a disposição de autoridades para ministrar uma dose apenas. “Os achados obtidos a partir dos ensaios clínicos com dezenas de milhares de voluntários são os regimes de duas doses com intervalos um tanto apertados. Até que tenhamos evidência empírica para sugerir que possíveis mudanças não reduzam a segurança e a eficácia, a aplicação de duas doses espaçadas é a que mostrou alta eficácia nos ensaios”, escreveram os médicos Larry Corey, da Universidade de Washington, e Chris Beyrer, da Escola de Saúde Pública Bloomberg, da Universidade Johns Hopkins, em texto publicado no site da Johns Hopkins.

Os testes com outros imunizantes também foram feitos com intervalo de doses menor que o habitual, em razão da urgência do desenvolvimento. De acordo com Ferreira, os dados da Covishield indicando resultados melhores após um intervalo maior entre as doses está em linha com os conhecimentos sobre imunologia. “Ao observarmos outras vacinas, quando se aumenta esse intervalo vê-se uma melhor imunogenicidade [capacidade de estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos] e uma melhor proteção. Sabe-se também que uma segunda dose é importante não apenas para aumentar o nível de proteção do indivíduo, mas também para a duração da resposta imune”, afirma.

Um ponto importante, ressaltam os pesquisadores, é que as informações dos ensaios clínicos e do início das campanhas ainda não permitem responder se as vacinas protegem contra a transmissão da infecção. Os testes concentraram-se em avaliar a capacidade de proteger contra doença grave, de modo a evitar a hospitalização (ver reportagem). Bloquear a infecção e a transmissão faz diferença quando se trata da proteção coletiva contra a doença. “Nenhum desses estudos verificou, ainda, se houve bloqueio da transmissão. Nós não sabemos se de fato a pessoa não é infectada pelo vírus e, portanto, não o passa para frente, ou se ela contrai o vírus e não desenvolve o sintoma”, diz o físico Renato Coutinho, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e membro do Observatório Covid-19 BR.

As respostas para essas e outras questões devem surgir nos próximos meses. “Este ano, teremos o resultado do monitoramento de 12 meses das pessoas que participaram dos primeiros ensaios clínicos. Conseguiremos ter alguma ideia sobre o nível da resposta imunológica, se dura pelo menos um ano”, afirma Ferreira. Os pesquisadores coletam dados para saber se a vacina protege igualmente contra as novas variantes do Sars-CoV-2.

Os especialistas defendem também que quanto mais tipos de vacina um país tiver, melhor. “O número de doses necessárias para imunizar populações inteiras é muito grande. Isso nunca foi feito em escala global. Precisamos de todas as vacinas, das que já estão aprovadas e de todas as outras que virão”, ressalta a pesquisadora.

O médico Jorge Kalil, professor de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor), concorda. “A solução aguda são as primeiras vacinas. A solução permanente serão outras vacinas, de novas gerações.” Kalil lidera uma equipe no InCor que desenvolve uma vacina contra a Covid-19 que está na fase pré-clínica, com estudos feitos em modelo animal.

Para Ferreira, mais importante que a diferença nas eficácias anunciadas pelos laboratórios é a publicação clara dos dados de ensaios clínicos de fase 3 e a aprovação prévia de uma agência reguladora. No Brasil, os pesquisadores também alertam para o desafio reapresentado pela necessidade de se ter uma boa comunicação para uma campanha de vacinação. “Lamentamos a discussão política a respeito do uso da vacina, que não leva a nada”, critica Moraes, da Abrasco. “Temos uma estrutura construída ao longo de quase 50 anos, com quase 37 mil salas de vacinação, rede de distribuição montada e sistema de informação. Todos esses atritos geram desconfiança e dificultam convencer a população a se vacinar.”

Mesmo que as recém-iniciadas campanhas de vacinação se mostrem bem-sucedidas, pesquisadores e médicos ao redor do mundo ressaltam que, ao menos nos próximos meses, a população não deve abandonar as medidas de proteção já conhecidas: máscaras, higiene das mãos e distanciamento social.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.