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Vacinas contra a Covid: 8 diferentes técnicas para criação de imunizantes

Publicado em 30 julho 2020

Em meio ano, a pandemia de Covid-19 produziu meio milhão de mortos e 20 vezes mais de pessoas infectadas no mundo, segundo números oficiais, quase sempre um retrato incompleto da realidade. Sem tratamento medicamentoso comprovadamente eficaz para os casos mais graves da doença, que exigem internamento nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e uso de ventiladores artificiais para permitir a respiração dos pacientes, as medidas de higiene pessoal e o isolamento social, apesar do enorme custo econômico da paralisação de atividades e do confinamento, continuam a ser a única forma disponível de parar ou frear o avanço do vírus Sars-CoV-2. Uma vacina segura e efetiva contra o novo coronavírus – um patógeno desconhecido da humanidade até o fim de dezembro do ano passado, quando foram registrados os primeiros casos da doença na China – poderia mudar esse quadro e permitiria a retomada das atividades com mais segurança.

A boa notícia é que, a partir de oito diferentes plataformas ou técnicas para criação de imunizantes, a pesquisa médica internacional, inclusive com a participação de brasileiros, desenvolveu em tempo recorde quase 150 candidatas a vacinas contra a Covid-19 (ver quadro). Até 29 de junho, de acordo com um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), 17 desses aspirantes a imunizante comercial tinham iniciado a última e mais difícil etapa a ser vencida antes de sua aprovação pelos órgãos reguladores: os chamados testes clínicos, divididos em três fases, de complexidade e exigência crescentes.

Nesse estágio final, as formulações são administradas em um número progressivamente maior de pessoas para averiguar se conferem imunidade contra a doença e quais eventuais efeitos colaterais podem causar, além de refinar a dose ideal do produto para uso em larga escala. A ambição dos pesquisadores é ter ao menos um imunizante testado e aprovado para utilização comercial até meados de 2021. “Espero que alguma formulação em estágio mais avançado funcione”, diz a especialista em vacinologia Luciana Cezar de Cerqueira Leite, do Instituto Butantan, de São Paulo. “Vacina é um produto complicado e difícil. Às vezes, diferentes estratégias são testadas e nenhuma dá certo.”

A origem dos projetos de vacinas que estão na fase clínica dos testes reflete o peso crescente da China, primeiro epicentro da pandemia, no cenário da pesquisa internacional. Desse grupo de 17 imunizantes, oito saíram de trabalhos feitos no gigante asiático (um deles em parceria com outros países) e três nos Estados Unidos. Aparecem ainda duas iniciativas do Reino Unido, duas da Alemanha (uma com sócios internacionais), uma da Rússia e uma da Coreia do Sul. No estado de São Paulo, há seis iniciativas que buscam o desenvolvimento de candidatas a vacina contra a doença, sem contar projetos de outras unidades da federação.

Por ser o segundo país do mundo em casos confirmados (1,4 milhão) e mortes (60 mil) por Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos, o Brasil se tornou um bom campo de provas da viabilidade dos possíveis imunizantes contra a doença. Duas vacinas, uma de origem britânica, da Universidade de Oxford em conjunto com a empresa AstraZeneca, e outra chinesa, da companhia privada Sinovac Biotech, estão iniciando testes clínicos no Brasil. Se forem capazes de conferir um nível satisfatório de proteção contra a Covid-19, devem ser primeiramente importadas e, depois, produzidas no país por meio de acordos de transferência de tecnologia firmados com os dois principais centros de produção de imunizantes no país. O Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), do Rio de Janeiro, associou-se ao projeto britânico, e o Instituto Butantan, de São Paulo, à iniciativa chinesa.

Fazer um imunizante contra um patógeno mal conhecido, como o Sars-CoV-2, em um ano e meio, meta perseguida pelas iniciativas em estágio mais avançado, seria um feito sem precedentes. “O vírus não parece sofrer muitas mutações, como o da influenza [gripe]”, afirma o veterinário Marcos da Silva Freire, assessor científico da diretoria de Bio-Manguinhos. “Mas não será fácil ter uma vacina testada e aprovada até a metade de 2021.” Até hoje, a vacina desenvolvida em menor tempo foi a da caxumba, criada a partir de vírus vivo, mas atenuado. Ela demorou apenas quatro anos para ficar pronta e foi lançada em 1967. O tempo de desenvolvimento de um imunizante raramente é menor do que uma década. A vacina contra a catapora consumiu cerca de 30 anos de esforços, mais ou menos o mesmo tempo dedicado a vacina contra diferentes variedades do vírus influenza. No caso do HIV, vírus causador da Aids, descoberto em 1983, não há até hoje uma vacina aprovada para uso comercial, embora as formas de tratamento da doença tenham evoluído muito nos últimos 40 anos.

Mas uma vacina é composta de quê? Grosso modo, é uma formulação que pode conter três ou mais componentes principais. A constituinte mais importante, que lhe confere especificidade contra um patógeno, é seu antígeno. Essa é a parte do agente infeccioso reconhecida pelo organismo infectado que o faz disparar a resposta imunológica e serve de guia para a produção de anticorpos e células de defesa específicas contra uma doença. A maioria das candidatas a vacina contra a Covid-19 usa como antígeno a proteína spike do Sars-CoV-2, responsável por ajudar o vírus a penetrar nas células humanas, ou parte dela, ou, ainda, seu gene. Outro componente fundamental das vacinas são os adjuvantes, substâncias que aumentam a intensidade ou duração da resposta imunológica ao antígeno. Em formulações com vírus vivos enfraquecidos, que naturalmente provocam uma boa reação do sistema de defesa do organismo, eles normalmente não são necessários. Nos demais tipos, costumam ser necessários. Podem ainda ser adicionadas pequenas doses de estabilizantes ou conservantes para evitar contaminação e estender a vida útil das vacinas.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.