Notícia

Diário Catarinense

Vacina para proteger os rebanhos

Publicado em 20 agosto 2000

A vacina contra a fasciola hepática, doença comum nos diversos rebanhos, pode chegar no mercado mundial com tecnologia catarinense. Estudos para a prevenção são realizados nos centros de pesquisa de diversos países. Nesta corrida, está a estudiosa Marília Almeida, que há quatro anos pesquisa a vacina na Universidade Federal de Santa Catarina. Como funcionária da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) - vinculada ao Ministério da Saúde -, ela já concluiu a primeira etapa do experimento. "Temos resultados conclusivos em camundongos", disse Marília. No ano passado, foi montado um estábulo na UFSC para testes em ovelhas. "Os primeiros resultados foram positivos", comemora. Agora ela se prepara para repetir os exames em condições não controladas, ou seja, na própria fazenda. Marília afirma que ainda não é possível prever a introdução do produto no mercado. "Além da experiência não estar concluída, tem os acertos da produção em escala", explica. A expectativa para a finalização dos estudos é grande. De acordo com ela, a doença consome - entre tratamento e perdas no rebanho - cerca de US$ 2 bilhões/ano no mundo todo. No Brasil, o principal foco da fasciola está justamente na região Sul. A contaminação acontece pela ingestão de água ou vegetação com larvas do verme. Existe tratamento eficiente contra a infecção que provoca nas vísceras, porém os custos são elevados. AMEAÇA QUE VEM DE OUTROS CENTROS Falta recursos para a pesquisa. A questão não é nenhuma novidade. Se não existem recursos suficientes para investir em saúde, moradia, segurança, educação básica, quanto mais para a pesquisa. Entretanto, o pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSG), Álvaro Prata alerta para uma tendência que compromete o desenvolvimento tecnológico do Estado. A migração dos "gênios catarinenses". "Há dois anos, observo a ida deles para instituições que oferecem melhores possibilidades para o desenvolvimento das pesquisas, como São Paulo", destaca o pró-reitor da UFSG, instituição que concentra a maior parte dos mestres e doutores do Estado. A escassez de recursos é generalizada no país que enfrenta dificuldades básicas. A diferença é que enquanto o repasse de financiamento federal cai gradativamente, alguns estados estão investindo, através das fundações locais de fomento à ciência. É o caso de São Paulo, que recentemente comemorou a aplicação na área. A mais prestigiosa revista científica do mundo, publicou na sua capa a descoberta de pesquisadores paulistas relacionadas ao seqüenciamento genético de uma bactéria que provoca o amarelinho. Trata-se da praga que ataca os laranjais resultando em prejuízos de milhões de dólares/ano. É o resultado do projeto Genoma Paulista, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que tem garantido o financiamento dos seus pesquisadores. Já os pesquisadores de Santa Catarina se consideram órfãos. "Não temos uma política local de investimento para a área", afirma o pró-reitor da UFSC, o professor Prata. A reclamação é unânime na área. O ex-representante regional da Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência, Miguel Guerra, protesta que nem a legislação é cumprida. A Fundação de Ciência e Tecnologia (Funcitec) - órgão vinculado ao gabinete do governador — que deveria destinar 1% do orçamento do Estado em pesquisa, não cumpre seu papel, reclama Guerra. Para liberar financiamentos, o governo federal está implantando um sistema de parceria que prevê contrapartida do Estado. "Na concorrência com outros estados, Santa Catarina também pode perder espaço na destinação dos recursos federais", avalia o pró-reitor. O OUTRO LADO Funcitec paga dívidas O presidente da Fundação de Ciência e Tecnologia (Funcitec) de Santa Catarina, Honorato Tomelin, rebate as criticas da falta de apoio na área. Ele admite que é necessário maior liberação de recursos para pesquisa mas alega o comprometimento do orçamento do Estado com as dívidas deixadas pelo governo passado. De acordo com Tomelin, quando assumiu no ano passado herdou uma dívida de R$ 3,2 milhões. No mês passado, o débito com contratos para realização de seminários, contrapartidas do Estado com outras Instituições, entre outras despesas - somava R$ 1,4 milhão. A expectativa é que até o final do ano, a dívida seja liquidada. "Por enquanto, estamos aplicando R$ 200 mil por mês", afirma Tomelin. A prioridade do Funcitec é para a infra-estrutura, com a Instalação de Internet nas escolas públicas e a Internet II (acelerada) nas universidades. Contando com o aumento da receita, a previsão é que a aplicação chegue a R$ 6 milhões em 2001. "O aumento possibilitará o investimento em pesquisa", assegura. Para a destinação da verba, devem ser abertos novos editais para a Inscrição dos pesquisadores. Outro projeto da Fundação é a construção de Parques Tecnológicos para abrigar empresas de pequeno porte em Florianópolis, Blumenau, Rio do Sul, Criciúma, Chapeou e Joinville.