Enquanto o país registra queda de casos prováveis de dengue, suspensão preventiva da Butantan-DV muda estratégia do SUS e reforça regras das demais vacinas
O combate à dengue no Brasil vive um momento de vigilância rigorosa e avanços científicos significativos. Até o fim de maio de 2026, o país registrou uma queda histórica de 94% no número de casos prováveis em relação ao mesmo período de 2024. Foram contabilizados 365 mil casos prováveis, um cenário bem abaixo dos 5,8 milhões de registros ocorridos no mesmo intervalo de 2024.
Apesar dos números positivos, o cenário vacinal passou por uma mudança estratégica importante. O Ministério da Saúde determinou, na última segunda-feira (08), a suspensão temporária da vacina do Instituto Butantan para investigação de eventos adversos graves.
A pausa estratégica da Butantan-DV
No dia 8 de junho de 2026, o governo interrompeu preventivamente a aplicação da Butantan-DV, a primeira vacina de dose única contra a dengue no mundo. A decisão do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi motivada pelo registro de 42 casos de reações graves inesperadas, o que representa apenas 0,008% das 500 mil doses aplicadas até 30 de maio.
Entre esses episódios, três foram classificados como severos, incluindo dois óbitos que seguem sob investigação técnica. Embora a tecnologia-semente tenha sido desenvolvida pelo NIH, nos Estados Unidos, a vacina foi liofilizada e testada em fase 3 integralmente no Brasil.
Iniciada em janeiro deste ano, a estratégia de vacinação com o imunizante do Butantan foi direcionada prioritariamente aos profissionais da Atenção Primária à Saúde. De maneira ampliada, a campanha também abrangeu o público de 15 a 49 anos em três municípios específicos: Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG), além de contemplar a região de Araguaína, no Tocantins.
É importante destacar que a interrupção temporária não anula a eficácia demonstrada pela vacina, que atinge 65% de proteção para casos gerais e 80,5% contra quadros graves da doença. A decisão é um protocolo de precaução científica, cujo objetivo é assegurar a proteção e o bem-estar da população.
Conforme a bula da vacina, os efeitos adversos esperados em parte dos vacinados são: dor de cabeça, dores no corpo, dor nos olhos, manchas na pele, cansaço extremo, coceira, enjoo, sensibilidade à luz e calafrios.
Aqueles que receberam a dose única antes da suspensão devem monitorar o próprio estado de saúde por até 21 dias após a aplicação. A orientação é buscar assistência médica imediata diante do surgimento de qualquer sinal de alerta, tais como febre, dores abdominais intensas, episódios persistentes de vômito, sangramentos, tontura, sonolência excessiva, desidratação ou comprometimento do estado geral de saúde.
Qdenga: o pilar do SUS
Com a paralisação da vacina nacional, a Qdenga, de origem japonesa e produzida pela farmacêutica Takeda, segue como o principal imunizante do Programa Nacional de Imunizações. Ela é aprovada pela Anvisa desde 2023 para pessoas de 4 a 59 anos, tenham elas tido dengue antes ou não.
O imunizante utiliza vírus vivos atenuados e induz resposta imunológica contra os quatro sorotipos da dengue. Na rede pública, devido à oferta limitada pelo fabricante, o SUS prioriza crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. O esquema completo da Qdenga exige duas doses, administradas com um intervalo de três meses. Estudos clínicos comprovam que o imunizante é altamente eficaz, reduzindo as hospitalizações em 90%.
No caso específico da Qdenga, a vacinação é totalmente contraindicada para gestantes, lactantes e pessoas imunossuprimidas. Além disso, o imunizante não deve ser aplicado em indivíduos que tenham histórico de alergia a qualquer um dos componentes da fórmula.
Dengvaxia: uso específico
A vacina Dengvaxia, da Sanofi, está disponível na rede privada para pessoas de 9 a 45 anos. No entanto, ela possui uma regra rígida: é exclusiva para quem já teve dengue em algum momento da vida.
Sua fórmula usa o vírus da febre amarela como base para carregar os quatro sorotipos da dengue. Por isso, quem nunca foi infectado e toma o imunizante corre o risco de desenvolver formas graves da doença em uma infecção futura.
Segundo a fabricante, o imunizante é eficaz e previne aproximadamente oito em cada dez casos graves ou com necessidade de hospitalização.
Ela é totalmente contraindicada para gestantes, lactantes e pessoas que nunca tiveram dengue ou não possuem comprovação da doença. O uso também é proibido para indivíduos imunossuprimidos por doenças ou medicamentos. Quem tem histórico de alergia aos componentes da fórmula ou sofreu reação severa em dose anterior não deve se vacinar.