Maior ensaio clínico do país com mais de 16 mil participantes criou infraestrutura para estudos na pandemia
O Instituto Butantan criou uma rede com 16 centros de pesquisa em 14 estados para desenvolver a vacina da dengue . Com mais de 16 mil voluntários, o estudo se tornou o maior do país para esse imunizante. A experiência ajudou o Instituto a reagir rápido quando surgiu a pandemia de Covid-19.
O projeto da vacina da dengue começou entre 2009 e 2010, quando os casos da doença triplicaram no Brasil. Em parceria com os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, o Butantan formulou o imunizante com as cepas do vírus enviadas pelos americanos. O Butantan ficou responsável pelas fases 2 e 3 do estudo, feitas no Brasil para avaliar segurança e eficácia.
Em 2011, o Instituto criou a Divisão de Ensaios Clínicos e Farmacovigilância para coordenar estudos em humanos. Antes disso, essas pesquisas eram feitas por universidades e indústrias parceiras. Essa mudança permitiu formar uma equipe dedicada para o trabalho.
A fase 2, feita entre 2013 e 2015, avaliou a vacina em 300 voluntários de 18 a 59 anos. A fase 3 começou em 2016 e envolveu mais de 16 mil pessoas entre 2 e 59 anos. A vacina teve 79,6% de eficácia geral, segundo estudo publicado na New England Journal of Medicine.
Infraestrutura para estudos
Para alcançar o número de voluntários, o Butantan firmou parcerias e ajudou a montar novos centros de pesquisa, incluindo adaptações em unidades básicas de saúde. "Algumas unidades básicas de saúde precisaram ser adaptadas para funcionar como centro de pesquisa clínica... ofereceu treinamentos e ajudou a desenvolver esses centros", explica Maria Beatriz Bastos Lucchesi, gerente de Farmacovigilância do Instituto.
A estrutura criada para a dengue permitiu uma resposta rápida ao novo coronavírus. "A dengue foi o primeiro grande estudo... Depois, na pandemia de Covid-19, estávamos capacitados não só para conduzir o ensaio clínico, mas também para reunir todos os dados necessários para solicitar a aprovação emergencial", afirmou Beatriz.
O Butantan também participou do consórcio internacional ZIKA-Plan, que reúne 25 instituições para preparar respostas a surtos de Zika. O Instituto avaliou a prevalência do vírus Zika no Brasil usando amostras do estudo da vacina da dengue.
Maria da Graça Salomão, coordenadora de Redação Médica do Butantan, destaca que o estudo da dengue ajudou a atrair mais pesquisas clínicas para o país e gerou empregos no setor.
Primeiros passos
O primeiro estudo clínico do Butantan, em 2005, avaliou um surfactante pulmonar para recém-nascidos. Esse projeto mostrou a importância de uma área própria para ensaios clínicos no Instituto, diz Paulo Lee Ho, gerente de Desenvolvimento e Inovação.
O estudo da vacina do rotavírus, em 2008, foi importante para que a equipe aprendesse sobre protocolos, recrutamento e transporte de materiais, com a ajuda de outras instituições como o Instituto Adolfo Lutz.
Neuza Frazatti Gallina, gerente do Laboratório Piloto de Vacinas e líder do estudo da dengue, comenta sobre as dificuldades para montar o protocolo do ensaio clínico, que exigiu meses de reuniões e ajustes. "Era algo relativamente novo para nós e tivemos muitas dificuldades, principalmente para construir o protocolo do ensaio clínico. Descrever o produto, determinar a faixa etária alvo, os requisitos para participar do estudo, os critérios de exclusão... Foram meses de reuniões com os colaboradores para obter o protocolo final", explica.
A logística para transportar vacinas e amostras também foi desafio. "Tivemos que montar kits com o passo a passo do que fazer em caso de incidentes", explica Neuza.
Caminho da vacina até a aprovação
Na época, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) era uma agência recente, e o Butantan teve que aprender sobre regulamentações quase ao mesmo tempo. Hoje, com normas mais claras, o Instituto está preparado para desenvolver e acompanhar o ciclo completo de vacinas e medicamentos.
Segundo estudo da Universidade de Washington, apenas uma em cada mil descobertas chega à fase clínica, e uma em cada dez tem sucesso nessa etapa. Para Maria Beatriz Lucchesi, depois do estudo da dengue, o Butantan se tornou uma instituição completa no desenvolvimento de vacinas.
"Hoje, fazemos desde pesquisa básica de bancada até o desenvolvimento clínico, preparamos a documentação para solicitação de registro, fabricamos os produtos, além da farmacovigilância pós-comercialização. Então conseguimos acompanhar todo o ciclo de vida do produto", conclui.
A vacina da dengue deve ser aprovada ainda em 2025. Depois, precisa passar pela Anvisa, Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC), antes de ser incluída no Programa Nacional de Imunizações.