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O Povo

Vacina contra HPV é aprovada e deve chegar ao mercado

Publicado em 07 outubro 2005

Por Cristina Amorim

Uma equipe de cientistas liderada por uma brasileira confirmou a eficácia da vacina contra o HPV — papilomavírus humano. Só no Brasil, cerca de 8 mil pessoas, entre homens e mulheres, possuem um dos 100 tipos de HPV. O laboratório que investiu na pesquisa tem pressa em colocar a vacina no mercado

Resultados preliminares da última fase de testes de uma vacina contra o papilomavírus humano (HPV), criada por um grupo de cientistas liderado por uma brasileira, confirmam a eficácia demonstrada nas fases anteriores. O produto visa a combater infecção dos tipos mais comuns de HPV: 6, 11, 16 e 18.
Entre as mulheres que foram imunizadas, nenhuma teve lesões genitais - precursoras do câncer de colo de útero. Em teoria, isso significa que todas as voluntárias imunizadas não foram infectadas pelos vírus. Só que, na prática, isso só poderá ser dito quando a fase três de testes, que envolve 25 mil mulheres em 33 países, for encerrada, o que deve ocorrer nos próximos meses.
Por enquanto, nenhum detalhe deste protocolo (que envolveu cerca de 12 mil mulheres em 13 países, inclusive o Brasil), é divulgado. "Mas esse resultado reafirma, assegura e confirma que a vacina tem uma eficácia de 100% contra verrugas genitais, como foi visto na fase dois de testes clínicos", disse a pesquisadora Luisa Lina Villa, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, de São Paulo.
Tampouco foram abertas as informações sobre os efeitos colaterais da vacina. Porém, a cientista afirma que ela apresenta o mesmo nível de segurança registrada na etapa anterior, quando foi testada em 3 mil mulheres com sucesso. A vacina é profilática: evita que a pessoa seja infectada ao ser exposta antes a um tipo inofensivo do vírus, para que o corpo conheça e combata a doença quando houver a contaminação real.
Calcula-se que existam cerca de 630 milhões de pessoas, entre homens e mulheres, infectadas no mundo por um dos cem tipos de HPV. Alguns são particularmente perigosos: o 16 e o 18 respondem sozinhos a 70% de todos os casos de tumores no colo de útero, o segundo tipo de câncer mais mortal para mulheres - no mundo, 280 mil morrem da doença a cada ano, cerca de 8 mil no Brasil.
O HPV é transmitido sexualmente e sua prevenção e controle estão intrinsecamente ligados ao acesso a cuidados médicos básicos, portanto são os países pobres que mais sentem seus efeitos. Tal impacto e o número elevado de infecções no planeta levaram duas grandes indústrias farmacêuticas a investirem nesta linha de pesquisa: a Merck Sharp & Dohme, que financia o trabalho de Villa; e a GlaxoSmithKline, cuja vacina ataca apenas o HPV 16 e o 18, também na fase de testes clínicos. O Instituto Butantã desenvolveu a tecnologia, mas não chegou a criar um produto.
Villa espera que os resultados da última etapa antes da comercialização sejam publicados em uma revista especializada - passo para a validação dos resultados frente à comunidade científica internacional - e que isso aconteça no primeiro semestre de 2006. Já o laboratório tem pressa para colocar o produto no mercado. Segundo o porta-voz da Merck no Brasil, João Sanches, a expectativa da empresa é entrar com o pedido de registro da vacina até o fim do ano nos Estados Unidos e, no Brasil, no início do próximo.

Falta de recursos ameaça versão nacional da pesquisa
Enquanto a vacina patrocinada por um laboratório internacional avança, uma iniciativa nacional corre o risco de morrer na praia. A equipe do Instituto Butantã, que desenvolve um produto similar contra o HPV 16 e 18, não obteve continuidade do financiamento que levaria adiante o trabalho. Segundo o coordenador da área de genética do instituto, Willy Beçak, é preciso R$ 1,5 milhão, em três anos, para que os estudos em laboratório acabem - o passo seguinte seria o teste clínico.
O pedido foi feito ao Ministério da Saúde e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), sem resposta até agora. Como conseqüência, dois dos quatro pesquisadores que trabalhavam no projeto já foram dispensados e Beçak não consegue mensurar quanto tempo seria necessário para terminar o produto nestas condições. Hoje, o projeto é mantido exclusivamente pelo instituto, mas as verbas são poucas para comprar material e pagar equipe.
A idéia é disponibilizar para o governo brasileiro uma versão mais barata, como foi feito no caso da vacina contra a hepatite B: enquanto o produto de um laboratório internacional custa US$ 5, a versão nacional criada pelo Butantã poderá ser obtida a US$ 0,50.