Após a decisão do governo de suspender a aplicação da vacina contra a dengue produzida pelo Butantan, publicações nas redes passaram a espalhar desinformação sobre o imunizante.
Diferentemente do que tem circulado, o governo brasileiro não usou a população como cobaia para os testes da vacina contra a dengue. O Instituto Butantan, responsável pela pesquisa, estudou e testou a vacina antes de as 501 mil doses serem aplicadas com a aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Em uma das publicações, um homem que se apresenta como pastor diz: "Esse governo é acostumado a usar o povo como cobaia, mais de 500 mil pessoas foram infectadas e mais de 40 pessoas estão doentes severamente e duas pessoas já morreram. Esses são os dados que ele mostra, fora os que ele oculta. Eu quero fazer uma pergunta para a Anvisa: Vocês fizeram o teste? Fizeram não, né? [...] Você lembra de 2015, em que fizeram uma campanha contra o zika vírus, que aplicaram injeções na gestante e os filhos nasceram com microcefalia".
Por que é falso e enganoso
Vacina foi testada pelo Butantan, e não pela Anvisa. Ao contrário do que é dito no vídeo, a Anvisa não realiza testes de eficácia ou segurança de uma vacina. A agência regulatória é responsável pela fiscalização e aprovação de pesquisas feitas pelos laboratórios. No caso da vacina contra a dengue — que apresenta uma taxa de 74,7% de eficácia e uma proteção de 84% contra casos graves — a Anvisa aprovou as etapas conduzidas pelo Instituto Butantan.
Imunizante contra a dengue passou por testes iniciais antes de ser aplicado em humanos. Todos os imunizantes passam por etapas obrigatórias de teste e estudo até sua aprovação pela Anvisa, segundo Ricardo Sobhie Diaz, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). As fases iniciais concentram-se em dois testes: in silico (computacional) e em animais.
Vacina também passou por três fases de estudos clínicos com humanos. Depois da comprovação inicial de sua segurança em testes computacionais e animais, o imunizante é aplicado em seres humanos nos estudos clínicos . Diaz explica que, nessas etapas, dois aspectos são priorizados: a segurança e a eficácia. Conforme sua segurança cresce, o número de pessoas no estudo aumenta. "Quanto mais anterior a fase, maior é o foco na segurança. Quando vai aumentando o número, até chegar na fase 4, você olha mais a eficácia. Mas você nunca deixa de olhar para a segurança", afirma.
Aplicação da Vacina contra a dengue do Butantan foi interrompida na fase de monitoramento como precaução. Em 8 de junho, o Ministério da Saúde determinou a suspensão da vacina contra a dengue após o registro de 42 casos adversos — entre eles três internações e duas mortes suspeitas. Os casos, que representam cerca de 0,008% do total de 501 mil vacinas aplicadas, estão sob investigação e ainda não apresentam relação direta com a vacina. Antes de ser interrompida preventivamente, a Butantan-DV estava na última fase de teste, comum a todas as vacinas in vigor: o monitoramento. "Pela vida inteira, qualquer vacina vai ter um processo chamado de farmacovigilância. Toda vez que acontece algo que você acha que pode ser um sinal de alerta, você avisa os órgãos competentes", explica Diaz.
Não existe vacina contra o vírus zika. No vídeo, o homem desinforma ao dizer que, durante a epidemia de vírus zika em 2015, "aplicaram injeções na gestante e os filhos nasceram com microcefalia". No período entre 2015 e 2016, o Brasil enfrentou uma epidemia do vírus, transmitido pelo Aedes aegypti , assim como a dengue. A zika ficou conhecida por provocar malformações congênitas em bebês, que nasciam com microcefalia. Apesar de estudos de tratamento e vacinas contra a doença terem se iniciado na época, Diaz afirma que nenhuma foi concluída. "Não existe vacina para zika ainda", diz.