Notícia

Gazeta Mercantil

USP usa telemedicina para tratar criança com câncer na rede pública

Publicado em 13 março 2000

Por Márcio Venciguerra - de São Paulo
De hoje em diante, médicos do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas e do Hospital de Base de Porto Velho passam a se reunir on-line em torno de crianças com câncer. Essa é uma prova dos nove para telemedicina em hospitais públicos, e os pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) querem mostrar o quanto a comunicação abate custos. Na ponta do lápis, a ligação entre São Paulo e Rondônia custou R$ 100 mil em equipamentos. "Um ano de passagens para doentes e suas famílias paga todo o investimento com folga", diz Marcelo Zuffo, professor de engenharia eletrônica da Escola Politécnica (USP) que coordena a integração dos sistemas de comunicação. Segundo Vicente Odone, responsável pela unidade de Oncologia do Instituto da Criança, os dois hospitais, que agora estarão interligados on-line, já mantêm relação por meios convencionais desde 1994. Até agora, o contato dependia dos correios, telefone, fax e da ajuda de pilotos de avião que levam e trazem encomendas. Esses meios não bastam para tratar os meninos perto de suas casas. Mães e filhos carentes são obrigados a vir a São Paulo de ônibus e a viver meses em casas de apoio. A situação aumenta o sofrimento dos pacientes e famílias. Zuffo calcula que as despesas com transporte giram em torno de R$ 30 mil mensais. Pela lei, Estados e municípios têm obrigação de financiar a viagem e a estada do cidadão carente em busca de tratamento médico. "Depois de alguns meses de operação ficará claro que a rede pública deve se interligar, pois os benefícios superam os custos de longe", diz Zuffo. Segundo ele, já foram feitas centenas de experiências em telemedicina e hospitais privados usam com freqüência os equipamentos para ter uma segunda opinião do outro lado do mundo. O mesmo sistema do projeto USP-Rondônia é usado para ligar uma maternidade privada de Pernambuco ao Saint Jude Hospital, dos Estados Unidos. "Essa será a primeira vez que um projeto visa ter grande escala e mudar o cotidiano da população brasileira". O projeto USP-Rondônia foi montado por meio de parcerias com a iniciativa privada. A NEC e a Alcatel doaram centrais telefônicas digitais. "A adesão mais surpreendente foi a da Makron Books, que aprovou a doação de um terminal multimídia em horas", diz Zuffo. A Embratel fornecerá uma linha de 2 megabytes por segundo nos dois primeiros meses gratuitamente. A empresa aposta no crescimento desse tipo de serviço. "É difícil calcular qual é o mercado, porque a telemedicina se tornará rotina aos poucos, à medida que a comunidade médica perceba as vantagens", diz Túlio Gontijo Rocha, coordenador de projetos de redes cooperadas da Embratel. Rocha conta ter participado da criação de uma rede pública de telemedicina na França em 1989. "Mesmo na Europa faltam médicos especialistas nas pequenas cidades", diz. Rondônia tem um médico para cada 2 mil habitantes, metade do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A Vtel, que equipa oito dos dez maiores serviços de telemedicina do mundo, forneceu o equipamento de videoconferência com aplicações médicas. O produto é fabricado em série e pode ser interligado à máquina de ultra-sonografia e a uma mesa digitalizadora de imagens de raio-X. Além de duas câmeras de vídeo para mostrar o médico e o paciente, há uma microcâmera que aproxima a visão da pele a ser examinada (dermatoscópio). Josmar Giovannini, gerente regional da Vtel no Brasil, diz que o mercado nacional de telemedicina é pequeno porque as linhas de alta velocidade também são novidade. A Politécnica entra com o trabalho do engenheiro Jessian Ferreira Cavalcanti, que irá instalar os equipamentos, treinar equipes e dará apoio técnico. "O sistema é amigável para o médico, mas haverá um técnico de informática para resolver problemas", diz Zuffo. Para o Ministério da Saúde, a rede pública não usa novas tecnologias porque não as conhece. "Ter uma linha telefônica em qualquer ponto do interior é mais fácil do que um grupo de especialistas", diz o secretário Nacional de Assistência à Saúde, Renilson Rehen, que coordena o Sistema Único de Saúde (SUS). O secretário concorda que a telemedicina é mais barata. Segundo ele, o ministério irá apoiar os projetos apresentados pelos governos estaduais. "As vantagens não são apenas econômicas, são humanitárias", diz. Para Rehen, Estados e municípios não precisam fazer malabarismos administrativos para montar sistemas de apoio remoto. "Da mesma forma que o governo cobre a compra de aparelhos de ultra-som, os sistemas de comunicação podem ser comprados", diz . Segundo ele, o Ministério da Saúde não faz uma campanha em favor da telemedicina para evitar uma demanda falsa por tecnologia e recursos. "O mais difícil é ter pessoas interessadas dos dois lados da linha", diz. Rehen diz que Rondônia, por exemplo, recebe verba federal da ordem de R$ 71 milhões ao ano para tratamentos de alta e média complexidade. "É absolutamente possível investir em telemedicina com os recursos repassados atualmente, falta perceber as vantagens." CONSULTA COM ESPECIALISTAS PELA INTERNET A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) está elaborando um projeto de telemedicina em Rondônia, como parte de um plano para reestruturar e a modernizar a rede de saúde pública. A idéia é criar um site para que os médicos rondonienses consultem especialistas da Escola Paulista de Medicina, usando a Internet. "O principal problema local é a falta de postos de atendimento de emergências, especialmente para traumas", diz José Osmar Medina Pestana, professor-adjunto da Nefrologia da Unifesp, que voltou na semana passada de uma viagem pelo Estado. Segundo ele, nenhum dos hospitais tem condições de atender prontamente vítimas de acidentes. "A violência é maior do que a de- São Paulo e os acidentes na indústria madeireira são bastante comuns", diz. Faltam leitos nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) e os pronto-socorros também não têm carrinhos de emergência com desfibrilador para conter ataques cardíacos e respiradores artificiais. Pestana elogiou os programas de médico de família, que cobrem 70% dos 1,2 milhão de habitantes do Estado. "O modelo é bom, mas eles precisam aprimorar e ampliar o atendimento", diz. A partir de abril, a Unifesp enviará equipes itinerantes para Rondônia. Nos grandes municípios, as turmas serão formadas por um cirurgião, um tocoginecologista, um ortopedista e um anestesista. Os 13 municípios menores, receberão vistas de um clínico-geral e um pediatra. "Faremos mutirões contra catarata, hérnia e varizes, para tratar pessoas que esperam há anos por cirurgia", diz o reitor Hélio Egydio Nogueira. TRATAMENTO PRÉ-TRANSPLANTE PODE SER FEITO A DISTÂNCIA O Instituto da Criança (IC) dá tratamento a pacientes com câncer de todo o País, porém, a maior demanda regional vem de Rondônia. "Isso não significa que o Estado tenha mais câncer infantil, pode ser apenas por causa da deficiência dos hospitais locais", diz Vicente Odone, responsável pela unidade de Oncologia do Instituto. Hoje, há 28 pacientes e suas famílias numa casa de apoio no Taboão da Serra para fazer tratamento no IC. O número de novos casos é crescente. Segundo Odone, em 1994, Rondônia encaminhava um paciente a cada dois meses. Hoje o fluxo quadruplicou. "Com o sistema, os doentes só virão quando for necessário um procedimento mais complicado, como transplante de medula", diz. Mesmo nesses casos, os quatro ou cinco meses de tratamento pré-transplantes podem ser feitos a distância. "Às vezes a família tem de praticamente se mudar", diz. A quimioterapia necessária para controlar a leucemia, que é o câncer pediátrico mais comum, leva cerca de dois anos e meio, mas agora pode ser acompanhada a distância. "O sistema será usado também por outras especialidades médicas", diz Odone. Segundo ele, o projeto-piloto com Rondônia servirá de base para estabelecer a metodologia para a telemedicina na rede pública. "Um subproduto do contato on-line entre os hospitais do Brasil é colher dados epidemiológicos, que são importantes para planejar e conhecer as moléstias", diz Odone. O equipamento servirá para tornar mais ultimo o contato com Saint Jude Children Research Hospital, de Memphis (EUA). "O Instituto da Criança tem vários programas de pesquisa em conjunto com o Saint Jude, maior centro em oncologia pediátrica do mundo", diz Odone. POLI CRIA SIMULADOR DE CIRURGIA A Escola Politécnica da USP está desenvolvendo o primeiro simulador de punção de medula e extração de liquor espinhal, destinado a treinar alunos de medicina. "O procedimento é simples, mas pode ser muito dolorido se o médico errar", diz Liliane dos Santos Machado, pesquisadora do Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI). Atualmente, a única forma de aprender é puncionar um paciente real, depois de treinar um pouco com cadáveres. "Se alguma coisa der errada, o paciente pode ficar até duas semanas em cadeira de rodas", diz Liliane. O programa deverá estar pronto para testes dentro de três meses. Liliane precisa ainda integrar o hardware necessário para que o estudante de medicina veja uma cabeça humana virtual em três dimensões. O aluno deverá sentir a resistência da carne e ossos no tato. "O médico terá a sensação de perfurar o osso e a noção do quanto a agulha entrou", diz Liliane, que faz o primeiro programa desse tipo na América Latina, com financiamento da Fapesp/Finep (Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e Financiadora de Estudos e Projetos). Liliane usa equipamentos de profissionais de design tridimensional para compor o hardware do sistema. O bisturi virtual é um braço mecânico fabricado pela Sensable Tecnologies. "A capacidade de processamento é pequena, não exige mais do que um computador de mesa convencional", diz Liliane. Os óculos que dão a ilusão de três dimensões a uma imagem bidimensional é da Stereo Graphics. Eles funcionam com dois obturadores semelhantes aos de uma máquina fotográfica. Esses dispositivos tapam os olhos do aluno alternadamente, em sincronia com a imagem da tela. O movimento é muito rápido para o cérebro perceber e, como cada olho vê uma cabeça ligeiramente diferente, o córtex visual forma uma figura em três dimensões. (M.V.)