Planta-piloto tem capacidade para produzir 100 quilos de hidrogênio por dia, que serão utilizados para abastecer três ônibus e dois veículos leves, entre outros
ALEXANDRE PELEGI A Universidade de São Paulo (USP) está realizando testes na primeira estação experimental do mundo dedicada à produção de hidrogênio renovável a partir do etanol. Localizado na Cidade Universitária, em São Paulo, o projeto é conduzido pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) da Universidade. Este projeto representa um marco na busca por soluções energéticas limpas e na transição para uma economia de baixo carbono.
Com um investimento de R$ 50 milhões, a estação conta com a colaboração de grandes empresas e instituições, como Shell Brasil, Raízen, Hytron, SENAI CETIQT e a própria USP, além de Toyota, Hyundai, Marcopolo e EMTU. O objetivo é demonstrar a viabilidade do etanol como vetor para a produção de hidrogênio sustentável, aproveitando a infraestrutura já existente no país.
A planta-piloto tem capacidade para produzir 100 quilos de hidrogênio por dia, que serão utilizados para abastecer três ônibus e dois veículos leves, entre outros. O hidrogênio gerado será testado em coletivos de transporte público da USP e nos veículos Toyota Mirai e Hyundai Nexo, ambos movidos a hidrogênio. Serão avaliados a taxa de conversão de etanol em hidrogênio e os índices de consumo e rendimento do combustível nos veículos.
A produção de hidrogênio ocorre por meio da reforma a vapor do etanol, um processo químico no qual o etanol reage com água sob altas temperaturas, resultando na liberação de hidrogênio. Esse método se destaca por sua eficiência e pela possibilidade de reduzir emissões de carbono, já que o CO2 liberado é biogênico e pode ser compensado no ciclo do cultivo da cana-de-açúcar.
A implantação da estação experimental abre caminho para o avanço da mobilidade sustentável, beneficiando fabricantes de aviões, montadoras de caminhões e ônibus. A disponibilidade de hidrogênio em grande escala é fundamental para avanços em diversas frentes, desde a mobilidade até a produção de fertilizantes sustentáveis.
Espera-se que os resultados do projeto orientem estudos futuros sobre sua aplicação em maior escala, demonstrando o potencial dessa solução e gerando conhecimento técnico-científico sobre sua viabilidade. O objetivo é aproveitar a infraestrutura do etanol para viabilizar a produção e distribuição do hidrogênio renovável.
Julio Meneghini, diretor científico do RCGI, prevê que a tecnologia contribuirá para consolidar o país como um dos líderes mundiais na produção de energia limpa, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e impulsionando diversos setores econômicos de maneira sustentável.
“ O fomento dessa tecnologia pode trazer benefícios enormes para a indústria brasileira. A disponibilidade de hidrogênio em grande escala é fundamental para permitir avanços em diversas frentes, desde a mobilidade até a produção de fertilizantes sustentáveis “, destaca Meneghini.
O reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, também celebrou o desenvolvimento de testes e ressaltou a relevância do projeto: “ O papel das universidades é desenvolver tecnologias que ainda não existem para permitir que o Brasil faça uma transição energética e, com isso, possa se posicionar como um país de primeiro mundo. Se conseguirmos oferecer uma energia mais barata e com menor pegada de carbono, certamente seremos lideranças mundiais. Para isso, é fundamental que a universidade gere conhecimento e que as empresas acreditem e invistam na industrialização dessas ideias. Grandes avanços tecnológicos começaram dessa forma: com pesquisa acadêmica transformada em inovação para a sociedade.”
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes