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Secretaria de Ensino Superior (SP)

USP quer se tornar de classe mundial

Publicado em 15 dezembro 2008

Para Suely Vilela, reitora da universidade, um dos desafios da instituição é sua internacionalização

Eleita reitora da Universidade de São Paulo há três anos, Suely Vilela teve sua carreira acadêmica toda construída na USP. Graduou-se em farmácia-bioquímica em 1975, defendeu seu mestrado em 1980, o doutorado em 1985, o pós-doutorado em 1990 e a livre-docência em 1991. Desde 1996 é professora-titular do Departamento de Análises Clínicas, Toxicológicas e Bromatológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto. Leia, a seguir, trechos da entrevista que concedeu ao Valor.

Como a USP chega aos 75 anos?

Para a USP, a comemoração é uma oportunidade única para a reflexão sobre sua trajetória e sobre o seu futuro. Como universidade pública, ela cumpre o compromisso com o desenvolvimento sustentável do Estado de São Paulo e do país. É notória a sua importância na geração de conhecimento em temas de impacto para a realidade nacional e internacional. Entre as várias e importantes contribuições à ciência brasileira e à internacional, podem-se destacar a construção do primeiro computador brasileiro, apelidado de Patinho Feio; o primeiro animal clonado a partir de células adultas, o bezerro Marcolino; as pesquisas na área de genética humana, que levam esperança de cura a milhares de pessoas com doenças degenerativas; a participação no seqüenciamento genético da "Xylella fastidiosa", bactéria que infesta laranjais paulistas, um feito que mereceu capa e longa reportagem na revista "Nature"; os biocombustíveis; os avanços na TV Digital e o Tanque de Provas Numérico, que simula o comportamento de estruturas flutuantes, como as plataformas marítimas de petróleo. Exemplos mais recentes são o transplante de células-tronco para o tratamento da diabete tipo 1; a produção da primeira linhagem brasileira de células-tronco embrionárias e a transformação de células-tronco de gordura em células musculares humanas, passo importante para o tratamento de distrofia muscular.

Quais são os desafios a ser superados?

Em face das exigências do mundo globalizado em que vivemos, a internacionalização da instituição é um deles. Temos investido na visibilidade internacional da USP, como atestam os quase 400 convênios em vigência. No entanto, enquanto as parcerias com pesquisadores do exterior encontram-se consolidadas, é ainda incipiente a mobilidade no âmbito da graduação. Há concentração de graduandos com estágio no exterior em poucas unidades e ações estão sendo implementadas para a expansão de programas dessa natureza. 

E com relação à pós-graduação?

Embora os números tenham aumentado nos últimos anos, há espaço para incrementar substancialmente esse contingente, sobretudo em razão das diferentes oportunidades de bolsas institucionais e de agências de fomento, entre outras. Além disso, é necessário atrair pesquisadores e estudantes estrangeiros em nossas atividades de graduação, pós-graduação e pesquisa e, dessa forma, programas institucionais. Há necessidade de agregar valor ao conhecimento produzido. Esse é um desafio não só para a instituição como também para o país que temos enfrentado por meio de diferentes medidas, como a criação da Agência USP de Inovação, que visa ao apoio e à articulação de sua comunidade universitária em torno desse objetivo.

A burocracia é também um obstáculo a ser superado, não?

Sim. Desburocratizar com vista à maior agilidade da universidade é outro desafio para o qual temos lançado um olhar especial. O planejamento estratégico e a gestão institucional são fundamentais para que as ações frutifiquem na concretização das perspectivas do futuro da universidade.

Essas ações visam ao centenário da universidade?

Queremos uma universidade que possua diretrizes definidas para 2034, quando completará 100 anos de existência. Essa universidade do futuro deve consolidar suas características como instituição de classe mundial, em que se conviva com a diversidade num ambiente de caráter internacional, dotado de forte e estratégica gestão institucional e que agregue valor ao conhecimento gerado. Alia-se a essas diretrizes o fortalecimento das relações da instituição com o ensino público básico, ao despertar nos jovens vocações que poderão influir, decisivamente, na construção de seus projetos de vida, consolidando-se, assim, o papel social da instituição.

Críticos dizem que, ano após ano, tem havido redução no orçamento da USP. É verdade? Qual é o orçamento previsto para 2009?

Nos últimos cinco anos, o orçamento da universidade tem aumentado, em média, 9%, incluída a correção inflacionária. O orçamento para 2009 é de R$ 2,8 bilhões, o que representa crescimento de 18,14% em relação a 2008. Todo ano, o Conselho Universitário, com base na lei orçamentária anual (LOA), prevê o gasto orçamentário no ano seguinte. Entretanto, a USP possui demandas para programas especiais, entre eles expansão de vagas, bolsas socioeconômicas, de mobilidade internacional e de pré-iniciação científica, que requerem a busca de recursos extra-orçamentários. Graças à competência de seus pesquisadores e ao mérito acadêmico de seus projetos, tem conseguido captar expressivos recursos nas agências de fomento e nos órgãos governamentais. Em 2007, esses recursos atingiram quase US$ 334 milhões, o equivalente, na época, a cerca de R$ 544 milhões. Exemplo mais recente são os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, programa desenvolvido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo CNPq. A USP será a sede de 17 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), dos 36 aprovados no Estado de São Paulo. Os institutos são centros de produção científica e tecnológica de ponta que atuarão em rede com instituições em todo o país. A USP é a única instituição de ensino superior a sediar esse número significativo de institutos no Brasil. Em relação ao Sudeste, a universidade tem 27,4% da participação no número total de institutos aprovados. Além disso, seus pesquisadores também atuarão em INCTs de outros Estados. Os investimentos nos 17 institutos da USP são da ordem de R$ 92 milhões. Vale mencionar que no Estado de São Paulo institutos serão subvencionados em parceria com a FAPESP.