O Brasil alcançou um marco histórico na medicina que promete revolucionar a saúde pública do país. No final de março de 2026, pesquisadores do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR) da USP celebraram um resultado aguardado por quase seis anos: a obtenção do primeiro porco clonado da América Latina. Este feito inédito, noticiado nesta sábado, 25 de abril de 2026, posiciona o país na vanguarda científica global, visando a pavimentar o caminho para a produção nacional de órgãos para xenotransplantes, diminuindo a dependência de importações e oferecendo uma nova esperança a milhares de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) que aguardam por um transplante.
O animal veio ao mundo em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), localizado em Piracicaba, no interior de São Paulo. Seu nascimento representa um passo crucial para o avanço de um ambicioso Projeto em curso no Brasil: produzir suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos para transplantes em humanos sem provocar a temida rejeição imunológica.
A iniciativa tem liderança do cirurgião Silvano Raia, professor da Faculdade de Medicina da USP, da geneticista Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP, e do imunologista Jorge Kalil, professor da FM-USP.
O Projeto teve início em 2019, por meio de uma parceria com a farmacêutica EMS, via Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) da FAPESP. Ganhou escala a partir de 2022 com a criação do XenoBR, um dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs) financiados pela Fundação.
“O passo que demos agora é crucial porque a clonagem de suínos é uma das técnicas mais difíceis de serem dominadas para viabilizar o xenotransplante [transferência de órgãos entre espécies diferentes]”, disse Ernesto Goulart, professor do IB-USP e principal pesquisador do CCD, à Agência FAPESP.
“Sabíamos que essa etapa representaria um dos maiores desafios no Projeto, até porque, embora o Brasil tenha vasta experiência na clonagem de bovinos e equinos, ainda não a possui com suínos, considerados os animais mais desafiadores para essa técnica por razões biológicas ainda não totalmente compreendidas”, afirmou Goulart.
Apesar da dificuldade em cloná-los, os porcos são escolhidos como potenciais doadores para xenotransplante por causa das semelhanças de tamanho e funcionamento de seus órgãos com os dos humanos. Além disso, são animais domesticados, reproduzem-se bem em cativeiro e originam ninhadas grandes em poucos meses.
Contudo, se os órgãos desses animais fossem transplantados diretamente em humanos, o sistema imune humano os rejeitaria imediatamente. Por isso, a equipe de pesquisadores edita o genoma do animal.
“O xenotransplante envolve uma cadeia de tecnologias complexas, como a modificação genética utilizando a ferramenta CRISPR/Cas9”, explicou Goulart. Com essa ferramenta, que permite inserir ou deletar nucleotídeos (blocos de construção do material genético) e até genes inteiros no genoma, os pesquisadores inativaram três genes suínos que induzem a rejeição. Complementarmente, utilizando técnicas de inserção gênica de precisão, que emprega uma enzima capaz de cortar a dupla fita do material genético celular em um ponto específico e inserir novos segmentos, eles empregaram sete genes humanos nas células suínas para torná-las mais compatíveis com o organismo do receptor.
“Esses genes precisam ser inseridos em lugares específicos e da forma correta para garantir sua atividade adequada e que a clonagem seja bem-sucedida”, declarou Goulart.
Os embriões resultantes dessas edições foram transferidos para fêmeas híbridas (linhagens Landrace e Large White). Após uma gestação de quase 4 meses, o primeiro clone de suíno nasceu saudável, com 1,7 kg. “O fato de o animal estar supersaudável mostra que nossa técnica funciona. Já temos outras gestações em andamento, o que reforça que dominamos o processo”, afirmou o pesquisador.
Os porcos clonados e as proles resultantes do cruzamento entre eles serão mantidos em dois laboratórios pioneiros de produção de suínos em grau clínico da América Latina, também construídos com apoio da FAPESP.
O primeiro, com capacidade para até 10 animais, foi inaugurado em 2024 no campus da USP em São Paulo. O segundo foi inaugurado no final de 2025, no Núcleo de Tecnologias Avançadas para Bem-Estar e Saúde Aplicados às Ciências da Vida (Nutabes) do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
A instalação dispõe de um biotério de suínos (pig facilty) com nível de biossegurança 2 (NB2) para a criação e o manejo dos porcos geneticamente modificados, livres de patógenos.
“As duas instalações têm altíssimo controle sanitário porque, no fim das contas, os órgãos que serão obtidos a partir desses animais serão um produto médico. Por isso, não pode existir o risco de transmissão de vírus, bactérias ou patógenos suínos para o receptor humano”, disse Goulart.
A expectativa dos pesquisadores é produzir inicialmente um plantel de porcos clonados composto por alguns casais. A partir desse pequeno grupo de animais, eles esperam, por meio de reprodução natural, manter e evoluir o plantel, sem a necessidade de clonar indefinidamente.
“Avaliaremos a necessidade de novas clonagens à medida que os animais forem nascendo. Se descobrirmos, por exemplo, que tem um novo gene que também precisa ser inativado para evitar a rejeição, reiniciaremos a clonagem”, afirmou Goulart.
Uma das vantagens da linhagem de suínos escolhida pelos pesquisadores para obter os órgãos para xenotransplante é o crescimento rápido. Com aproximadamente 7 meses de idade, os animais já atingem o peso necessário ao transplante para um humano adulto com 80 quilos.
“Existem outras linhagens para finalidade de xenotransplante também, como a de mini pigs, que são animais menores, que crescem mais devagar”, declarou o pesquisador.
De acordo com Goulart, teoricamente é possível aproveitar qualquer tecido ou órgão dos suínos clonados para xenotransplante. Inicialmente, porém, eles escolheram rim, córnea, coração e pele porque juntos atendem 94% da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pelo financiamento e pela realização de 90% a 96% dos transplantes de órgãos no Brasil.
“Nosso objetivo é justamente fornecer esses órgãos para o SUS, que opera o maior sistema público de transplante de órgãos do mundo”, disse Goulart.
Por essa razão, o domínio da tecnologia de xenotransplante é estratégico para o Brasil, afirmou o pesquisador: “Se o xenotransplante se tornar realidade nos Estados Unidos ou na China e não detivermos essa tecnologia, nosso sistema nacional de transplantes ficaria vulnerável e dependente de importações. Seria insustentável para o SUS”.
A ideia é que a cidade de São Paulo, que apresenta a maior casuística de transplante renal do mundo, seja a capital do xenotransplante da América Latina, beneficiando países da região que não detêm a tecnologia. “Queremos difundir a tecnologia para os países vizinhos”, disse Goulart.
Segundo ele, até o momento nenhum país obteve aprovação para realizar xenotransplante. A fim de viabilizar a tecnologia, estudos clínicos estão sendo conduzidos nos Estados Unidos e há outro prestes a ser iniciado na China. Com base nos resultados desses estudos, será possível entender se, de fato, a solução funciona e qual a sobrevida média do órgão transplantado, entre outras questões.
“Mesmo se a sobrevida de um órgão transplantado for curta, ele já possibilita salvar vidas. Um paciente com hepatite fulminante tem de ser transplantado em, no máximo, uma semana. Utilizar órgãos de porco como um transplante ponte, até conseguir um transplante humano compatível, pode ser uma boa estratégia. É isso que os chineses estão fazendo”, explicou Goulart.
Juntamente com os Estados Unidos, a China foi pioneira na pesquisa sobre modificação genética de animais para xenotransplante em humanos e na realização das primeiras tentativas de uso da tecnologia em modelo chamado de uso compassivo – etapa que precede o estudo clínico, realizada em pacientes cujas possibilidades de tratamento haviam sido esgotadas e o xenotransplante foi avaliado como uma alternativa.
“Os dois primeiros casos foram de transplantes cardíacos e os pacientes sobreviveram por volta de 60 dias. Também teve um transplante de rim cujo paciente sobreviveu meses e veio a falecer posteriormente em razão de um infarto não relacionado ao transplante e outro paciente em que o rim funcionou por mais de 270 dias e depois ele retornou para diálise”, afirmou Goulart.
A meta dos pesquisadores é que o custo dos órgãos provenientes de porcos clonados no Brasil por meio do Projeto represente uma pequena fração dos que serão comercializados pelos Estados Unidos e pela China.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência FAPESP, em 23 de abril de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.