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USP identifica medicamento promissor contra excesso de ferro (107 notícias)

Publicado em 23 de fevereiro de 2026

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram que dois medicamentos usados no tratamento da osteoporose — etidronato e tiludronato — podem ajudar a combater doenças associadas ao acúmulo excessivo de ferro no organismo. Os resultados foram publicados na revista científica BioMetals.

Os testes, realizados em culturas de células humanas, mostraram que os fármacos conseguiram se ligar ao ferro em excesso, reduzir o estresse oxidativo e evitar danos celulares. A pesquisa ainda está em estágio inicial e não envolve testes clínicos em humanos.

Atualmente, existem apenas três medicamentos aprovados para tratar a sobrecarga de ferro, conhecidos como quelantes. Eles atuam se ligando ao metal para facilitar sua eliminação pelo organismo, mas podem causar efeitos colaterais relevantes, como náuseas e enjoos, o que compromete a adesão ao tratamento.

Segundo Breno Pannia Espósito, professor do Instituto de Química da USP e autor do estudo, os bisfosfonatos — classe de medicamentos que inclui etidronato e tiludronato — possuem grupos fosfato em sua estrutura química, com afinidade por íons de ferro. A partir dessa hipótese, os pesquisadores decidiram investigar o potencial dessas substâncias como agentes quelantes.

O estudo é resultado do mestrado de Julia Tiemy Leal Konno, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), sob orientação de Espósito.

O ferro é essencial para funções como transporte de oxigênio e produção de energia nas células. A deficiência pode causar anemia ferropriva, mas o excesso torna-se tóxico, pois favorece a formação de radicais livres que danificam estruturas celulares. Esse processo está relacionado a doenças de sobrecarga de ferro, como a hemocromatose, condição genética caracterizada pela absorção excessiva do metal.

Pacientes com talassemia, por exemplo, também podem desenvolver acúmulo crônico de ferro em razão de transfusões de sangue frequentes, necessárias para o tratamento da doença.

Nos experimentos, os testes foram realizados na presença de níveis fisiológicos normais de cálcio, já que cálcio e ferro competem no organismo. A presença do mineral reduziu parcialmente a ação dos compostos, mas não anulou sua capacidade de se ligar ao ferro.

Além de etidronato e tiludronato, outros bisfosfonatos foram avaliados e demonstraram eficácia na inibição da oxidação provocada pelo ferro. No entanto, apresentaram maior toxicidade celular, o que exigiria cautela em eventual reposicionamento terapêutico. O desempenho geral foi semelhante ao de um quelante padrão.

Outro medicamento testado, o ranelato de estrôncio, não apresentou capacidade de quelação.

De acordo com Espósito, os resultados representam uma prova de conceito. Como os experimentos foram feitos apenas em culturas celulares, ainda são necessários estudos adicionais antes que os medicamentos possam ser considerados para uso clínico no tratamento da sobrecarga de ferro.