Notícia

Jornal do Comércio (RS)

USP identifica bactérias ainda desconhecidas

Publicado em 10 julho 2006

Bactérias desconhecidas no meio científico foram identificadas em pesquisa desenvolvida por cientistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP) de Piracicaba, e da Universidade da Califórnia. Após verificar que na superfície de uma simples folha podem viver centenas de espécies de bactérias organizadas em comunidade, os pesquisadores comprovaram que 97% das espécies de bactérias identificadas de nove espécies de árvores da mata atlântica ainda são desconhecidas.
O trabalho contribui para ampliação da lista de espécies bacterianas no ambiente. "Hoje temos um banco de dados de aproximadamente 5 a 6 mil espécies de bactérias classificadas e conhecidas no mundo todo. No nosso estudo identificamos que só na mata atlântica temos entre 2 e 13 milhões o total de novas espécies de bactérias vivendo na superfície das folhas das cerca de 20 mil espécies de plantas lá existentes, ampliando a base de dados anterior", comenta o coordenador da pesquisa, professor Márcio Rodrigues Lambais, do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ, em entrevista à Agência USP.
A pesquisa desenvolvida em parceria com o professor David Crowley, da Universidade da Califórnia - Riverside, professor Ricardo Ribeiro Rodrigues, coordenador do Programa Biota, Juliano Cury, aluno de pós-graduação em Microbiologia Agrícola, e Ricardo Büll, estudante de iniciação científica, teve início há cinco anos no programa Biota da FAPESP, num projeto temático envolvendo várias áreas de estudo. A essa equipe foi destinado o estudo da diversidade microbiana em solo, superfície de folha, casca de árvores.
A metodologia consiste, basicamente, em coletar as folhas na floresta, remover os microorganismos da superfície das folhas e fazer uma extração de DNA de toda comunidade microbiana. Posteriormente, um gene típico de bactérias é analisado por meio de seqüenciamento do DNA, possibilitando a identificação das espécies e a estimativa da riqueza de espécies nas diferentes folhas.
Já era sabido que as folhas abrigavam uma variedade elevada de micoorganismos, mas os pesquisadores não imaginavam que encontrariam valores tão admiráveis quando começaram o estudo. Em análises moleculares realizadas em três espécies de plantas, a catuaba ou catiguá (Trichilia catigua), o catiguá-vermelho (Trichilia clausenii) e a gabiroba (Campomanesia xanthocarpa) foi possível constatar que em cada folha pode viver um mínimo de 95 e um máximo de 671 espécies de bactérias.
Segundo o microbiologista, existia uma perspectiva em encontrar uma diversidade elevada, porque a metodologia adotada permitia não somente acessar os microorganismos cultiváveis como também aqueles que não podem ser cultivados nos meios de cultura tradicionais. "Esperávamos uma diversidade elevada, mas não tão elevada e nem com uma distribuição tão única como observamos."
O artigo foi publicado em 30 de junho na revista Science, relatando as primeiras conclusões da equipe. Uma nova etapa da pesquisa já teve início com o levantamento bacteriológico de mais sete espécies diferentes em outra área da mata atlântica. Um próximo passo será explorar essas comunidades bacterianas, cultivando-as e investigando se elas produzem substâncias de interesse farmacêutico, industrial ou agrícola, além de determinar seu papel ecológico.