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Jornal da Tarde

USP faz 77 anos com 100 mil títulos

Publicado em 19 junho 2011

Por Mariana Mandelli e Alexandre Gonçalves

No ano em que completa 77 anos, a Universidade de São Paulo (USP), maior instituição de ensino superior da América Latina, comemora o total de 100 mil títulos de pós-graduação, entre mestrados e doutorados. Com o feito, agora a universidade se volta para a necessidade de discutir novos critérios para aprimorar a qualidade dos programas.

Os 100 mil títulos se referem apenas aos trabalhos registrados após 1969, quando surgiram os padrões para a pós-graduação do País. Ficam de fora dessa contagem, portanto, inúmeras personalidades que obtiveram o reconhecimento acadêmico antes daquele ano, mas ajudaram a compor os cenários político, intelectual e científico do País, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os literatos Antonio Candido e Alfredo Bosi, o economista Antonio Delfim Netto, entre outros.

A universidade - que hoje abriga 56 mil estudantes de graduação e 22 mil de pós-graduação - realizará um grande evento em outubro, quando o marco simbólico dos 100 mil títulos será atingido. Do total, 53% são mestrados e 47%, doutorados. A unidade que mais produziu títulos - 9,5% - foi a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

"Os números, embora importantes, devem ser acompanhados por qualidade contínua e crescente", afirma o reitor da USP, João Grandino Rodas. Segundo ele, "a tendência é exigir mais dos alunos, visando à formação ampla dos titulados".

Reflexão

O pró-reitor de pós-graduação, Vahan Agopyan, afirma que o momento é de reflexão. "Estamos com um modelo antigo, da década de 1960", destaca. "Precisamos nos questionar: queremos formar doutores só para alimentar a universidade ou para termos recursos de alto nível para o desenvolvimento do País?"

Até agora, nenhum pesquisador titulado pela USP faturou um Prêmio Nobel. Contudo, alguns já receberam homenagens equivalentes em áreas que não são contempladas pela academia sueca. O físico José Goldemberg, por exemplo, recebeu em 2008 o Blue Planet, principal homenagem aos benfeitores do meio ambiente.

Dois anos antes, Paulo Mendes da Rocha recebeu o Pritzker, prêmio mais importante da arquitetura mundial. E o reitor João Grandino recorda que o principal candidato brasileiro a um Nobel é o neurocientista Miguel Nicolelis - um "uspiano" que não economiza críticas à própria USP.

Para os titulados, o marco de 100 mil títulos guarda histórias e sentimentos de gratidão à universidade. "Tenho 30 anos de USP", conta o ministro da Educação, Fernando Haddad, que fez a graduação, o mestrado e o doutorado na área de Direito. "Eu me sinto, mais do que tudo, um uspiano. Entrei com 18 anos e nunca mais saí. Ela também não saiu mais de mim."

Desde o início um ambiente fértil de pesquisa

Os professores que detêm os primeiros títulos registrados após 1969 destacam a importância que a titulação teve em suas vidas profissionais. "A comemoração das 100 mil teses da USP demonstra que desde seu início houve a criação de um ambiente fértil de pesquisa, o que propiciou a formação e o desenvolvimento de um grande número de pesquisadores e de alunos de iniciação científica, mestrado e de doutorado em todas as áreas do conhecimento", destaca o professor Hildebrando Rodrigues. Ele ainda dá aulas e orienta alunos.

Rodrigues apresentou seu mestrado na área de matemática no câmpus de São Carlos em novembro de 1970. O estudo investigava equações diferenciais.

O segundo titulado, que obteve o título de mestre uma semana após Rodrigues com uma pesquisa na área de recursos hídricos, saiu da USP depois de 33 anos. Hoje, Arthur Mattos é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). "A pós foi fundamental na minha vida", considera.

Mattos destaca que o desenvolvimento da pós-graduação na USP teve grande apoio das agências de fomento. "Em São Paulo, a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) é essencial. O CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) também é muito aparelhado e a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) é fundamental."

Talento e escassez de recursos

Para consolidar o desejo de ter um título pela USP, estudantes de pós-graduação, bolsistas ou não, fazem uma série de renúncias na vidapessoal e profissional. No caso daqueles que recebem bolsa, o trabalho fica ainda mais comprometido, já que algumas agências de fomento exigem que eles não tenham outra fonte de renda.

A situação foi diagnosticada pela revista Science, que publicou, no fim do ano passado, um raio X da pesquisa no País. Um dos títulos da reportagem define os estudantes de doutorado como "talentosos, mas subfinanciados". O texto descreve a rotina de um pós-graduando em bioquímica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com rendimentos que não ultrapassam R$ 2 mil, ele enfrentava a aventura de se sustentar e ajudar a família- seu salário era o maior de sua casa.

As dificuldades também perpassam a vida dos alunos da USP. Rutinéia Micheletto, de 32 anos, doutoranda no departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, precisa da ajuda do pai para se sustentar. Há um mês, ela conseguiu uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) de cerca de R$ 1,8 mil. Mesmo assim, ainda não é suficiente para as despesas.

O mestrando em Filosofia João AlexCarneiro, de28 anos, concorda. "Não dá para ter uma vida muito dispendiosa." Ele veio de Vitória (ES) para se titular pela USP.

O professor Kazuo Nishimoto, do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Escola Politécnica da USP, destaca outro obstáculo. "O Brasil ainda não tem empresas nas quais se possa absorver de forma eficiente esses titulados", afirma.:: Mariana Mandelli e Alexandre Gonçalves