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USP e Unicamp criam Centro de Referência contra Chagas

Publicado em 01 agosto 2008

Grupo formado por pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da Universidade de são Paulo (USP) e do Laboratório de Química Orgânica Sintética da Unicamp foi selecionado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para compor o novo Centro de Referência Mundial em Química Medicinal para Doença de Chagas. Com isso, passou a integrar a rede de laboratórios de descoberta de novos fármacos do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR, na sigla em inglês), da OMS.

“Após a escolha, nos entregaram dois compostos previamente estudados, e mantidos sob sigilo até então, para usarmos como referência para o desenvolvimento dos fármacos”, explica o coordenador do projeto e do Laboratório de Química Medicinal e Computacional do IFSC, o químico Adriano Andricopulo. Ele conta que a entidade lançou editais para a criação de centros de química medicinal vinculados ao programa, sem especificar a doença alvo do trabalho. “Só soubemos que atuaríamos especificamente com a doença de Chagas depois de escolhidos”, informa.

A iniciativa da Organização Mundial de Saúde faz parte de uma estratégia para combater as doenças tropicais. Segundo o pesquisador, a escolha foi rigorosa e competitiva. Em comunicado oficial, a OMS divulgou que o ponto forte da proposta brasileira foi a integração de grupos de excelência em suas respectivas áreas de atuação, o que condizia perfeitamente com o objetivo dos novos centros de referência.

O professor Andricopulo ressalta que o trabalho deve resultar Na criação de novo fármaco para a Doença de Chagas, cuja descoberta vai completar um século no ano que vem sem que tenha sido desenvolvido medicamento seguro e eficaz para o seu tratamento. “É uma necessidade urgente. Há dois no mercado, mas com baixa eficácia e muitas restrições”, afirma. A intenção é chegar ao composto capaz de eliminar as várias formas do parasita, levando a cura em qualquer estágio da doença.

O novo centro tem Andricopulo como o responsável pela área de Química Medicinal e Planejamento de Fármacos, o professor Luiz Carlos Dias, da Unicamp, pela área de Química Orgânica Sintética e Otavio Thiemann (IFSC) por Biologia Molecular e Parasitologia, enquanto Glaucius Oliva (IFSC) é encarregado da Biologia Estrutural e Planejamento de Fármacos. Está baseado no Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural (CBME), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), localizado no IFSC.

Moléculas – O cientista explica que as duas substâncias recebidas possuem componentes eficazes, porém outros que precisam ser melhorados. O grupo procurará sintetizar novos compostos a partir das moléculas desenvolvidas pela OMS, com a aplicação de técnicas avançadas de química medicinal. “Para isso, vamos realizar ensaios biológicos in vitro em culturas do Trypanosoma Cruzi (parasita da Doença de Chagas) e, na seqüência, in vivo (com cobaias), em modelos experimentais da doença”, relata. Os compostos mais promissores deverão entrar em fase clínica de desenvolvimento, depois de estabelecidos acordos com agências governamentais ou empresas farmacêuticas.

Para ele, trata-se de um projeto desafiador e completo, pois engloba todas as etapas essenciais de pesquisa básica requeridas para a descoberta de compostos candidatos a fármacos. Os recursos investidos serão totalmente provenientes da Organização Mundial da Saúde. “Eles já permitiram a contratação de dois doutores com experiência para trabalhar em regime de dedicação exclusiva”, disse Andricopulo. O contrato é válido por um ano, renovável indefinidamente a partir da avaliação dos resultados.

Doença do barbeiro

Em abril de 1909, Carlos Chagas (1879-1934), então pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), comunicou ao mundo científico a descoberta de uma nova doença humana, batizada em seguida de doença de Chagas em sua homenagem. Seu agente causal (o protozoário que denominou de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre Oswaldo Cruz) e o inseto que o transmitia (triatomíneo conhecido como “barbeiro”) também haviam sido por ele identificados, no final de 1908. O feito de Chagas, considerado único na medicina, constitui marco decisivo na história da ciência e da saúde brasileira. Os sintomas da doença de Chagas podem variar durante o curso da infecção. No início, costumam ser pouco perceptíveis: geralmente ligeiros na fase aguda, não mais do que inchaço nos locais de infecção. À medida que progride, durante até 20 anos, torna-se crônica e grave, com desenvolvimento de complicações cardíacas e intestinais. Se não tratada, a doença crônica é muitas vezes fatal. Os tratamentos medicamentosos atuais são pouco satisfatórios, causam efeitos colaterais e só têm eficácia de cura na fase inicial.

Da Agência Imprensa Oficial