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Educar para Crescer

USP é destaque em produção acadêmica internacional

Publicado em 18 setembro 2012

Por décadas, nenhum ranking de universidades alçou uma instituição brasileira ao rol das 100 melhores do mundo. Um termômetro do atraso do país não só diante dos mais desenvolvidos, mas também de outros emergentes que há tempos já figuram no topo. No dia 15 de março deste ano, a respeitada publicação inglesa Times Higher Education divulgou uma lista em que a Universidade de São Paulo (USP) surge entre as setenta mais bem avaliadas por uma junta de 17 000 professores e pesquisadores de 137 países. Ainda que precise ser vista com a cautela recomendada a todo bom medidor do ensino, a posição de destaque da universidade é um sinalizador de novos ares principalmente na área de pesquisa. Como outras instituições brasileiras, a USP passou anos circunscrita a seus próprios muros e à margem da efervescência acadêmica mundial. Pois o que mais explica a melhora da universidade agora é justamente a visibilidade internacional que vem conquistando sua produção científica, fruto da recente conexão com centenas de centros de relevo no mundo. "Os números deixam claro que a USP está seguindo a tendência mundial de globalização na produção de conhecimento", diz o inglês Phil Baty, coordenador do novo ranking.

Por dentro da USP

Maior universidade pública brasileira, com 89 000 alunos e 6 000 professores, a USP sempre foi a número um no país na formação de doutores, mas isso não se traduzia em relevância acadêmica. Eles produziam pouco e seu trabalho repercutia menos ainda. Isso está mudando gradativamente. Em 2001, cada pesquisador da USP publicava menos de dois artigos por ano em revistas estrangeiras de alto padrão. Hoje, são quatro por Ph.D., média semelhante à de boas universidades americanas e europeias. "O intenso contato com centros de nível tão elevado está inserindo nossos pesquisadores em um ambiente de alta competitividade e desafios constantes, ingredientes básicos para a busca da excelência", avalia o doutor em física Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Evidentemente, em uma universidade de tão grande porte nem todas as áreas oferecem o mesmo padrão. O próprio reitor João Grandino Rodas, que no ano passado decidiu injetar mais 150 milhões de reais em pesquisa, reconhece: "O novo ranking reflete a ambição por produzir conhecimento e inovação de alguns grupos dentro do Campus". Entre os mais destacados estão os centros de biotecnologia e bioenergia e as engenharias, entre elas a Escola Politécnica (Poli), campeã da USP em inovação, com 82 patentes já registradas.

Crescer junto com o Brasil

Quando a economia de um país desponta, é comum que o interesse estrangeiro também se volte para suas universidades, de onde se podem extrair respostas que ajudem a decifrar o território ainda desconhecido. A China e a Índia já atraíram milhares de cérebros de outras nacionalidades às suas instituições de ensino, seja para ficar, seja para selar parcerias, e estão se beneficiando disso. Começa a ocorrer em número razoável na USP. Recém-chegado, o biofísico americano Peter Reinach, 69 anos, é um dos mais respeitados pesquisadores em tratamento de córnea do mundo. No Campus de Ribeirão Preto, ele se instalou em um laboratório da faculdade de medicina com que mantinha um elo havia dois anos. "A academia brasileira costumava ser solenemente ignorada, mas agora entrou na rota internacional", diz o americano, que veio com a mulher para ficar pelo menos um ano. Esmerando-se nas lições de português, brinca: "É muito mais difícil aprender essa língua do que biofísica". Reinach também dá aulas na pós-graduação (em inglês). "Quanto mais cérebros desse calibre o Brasil conseguir reter ou atrair, mais inovadora será a pesquisa e melhor o ensino", resume o engenheiro Carlos Pacheco, reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

A produção científica brasileira vem evoluindo na última década - o número de artigos em revistas estrangeiras triplicou. O caminho a percorrer rumo ao topo da excelência mundial é ainda longo. O Brasil responde apenas por 0,1% da produção global de patentes, um terço das inovações da China e um quinto das da Índia. É uma fragilidade para a qual chama atenção o matemático Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências: "A produção científica conectada às demandas do mercado é uma evolução que só recentemente entrou no nosso radar". Com 44 das 100 melhores universidades no ranking inglês, encabeçado por Harvard, os Estados Unidos aplicam há décadas essa filosofia. Os chineses, com seis instituições na elite do ensino, também. A pesquisadora Simone Guidetti-Gonzalez, 33 anos, trabalha em um dos laboratórios de genética da USP ao lado de uma francesa e de um escocês, e sonha: "Está na hora de o Brasil ganhar um Prêmio Nobel".

Fronteiras abertas

Na última década, a USP se tornou mais produtiva e conectada com os grandes centros de produção de conhecimento no mundo

Texto Redação Veja