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Gazeta de Ribeirão online

USP de Ribeirão Preto está em luto oficial

Publicado em 14 fevereiro 2006

Claire Clara Borges Jézéquel foi uma das cinco pessoas presas sob os escombros da marquise do anfiteatro do Centro de Estudos Sociais aplicados da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que desabou no momento em que os estudantes se inscreviam para o 26º. Congresso Brasileiro de Zoologia, na tarde de domingo. A marquise ruiu às 17h20. "Não me deixem morrer, não me deixem morrer", dizia Claire à estudante Lílian Cristina Macedo Bernardes, de Rondônia.
Lílian havia acabado de passar pela marquise quando ouviu o estrondo e viu Claire gemendo entre as outras vítimas. Não havia o que fazer, a não ser consolar Claire até que os bombeiros chegassem. Claire desmaiou assim que a outra estudante pronunciou as primeiras palavras de consolo.
Claire foi operada no Hospital Universitário, uma das quatro unidades que atenderam as vítimas do desabamento. Ela sobreviveu mas teve parte de uma perna amputada. O mesmo aconteceu com o estudante João Paulo Basso Alves, também do campus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).
O resgate das vítimas do desabamento demorou cerca de duas horas e os bombeiros contaram com o apoio de dezenas de voluntários, também estudantes, que vasculharam o campus da UEL para encontrar as vigas de madeira necessárias para sustentar a estrutura de concreto e permitir a remoção das vítimas.
O diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do campus da USP de Ribeirão Preto, Francisco de Assis Leone, decretou luto oficial por três dias pelo falecimento do estudante João César Eugênio de Bôscoli Rios aluno do 4º ano de Ciências Biológicas, ocorrido domingo, em Londrina (PR), quando se preparava para participar do Congresso Nacional de Zoologia, na Universidade Estadual de Londrina. A marquise do anfiteatro onde ocorriam as inscrições desabou. Vários alunos do campus de Ribeirão Preto usavam nesta segunda-feira uma faixa preta no ombro, em sinal de luto.
O acidente também provocou ferimentos nos estudantes de Ribeirão Preto Amanda Lucas Gimeno João Paulo Basso Alves, Carolina Rettodine Laurine, Juliana Araújo Maseroni, todos do 4º ano de Ciências Biológicas, e Carla Bruniera, do 3º ano. Geovana da Silva Leandro e Juliana Maseroni tiveram alta hoje. Os demais seguem internados. Os familiares das vítimas viajaram segunda-feira para Londrina. Um deles foi João Cândido Bruniera, pai de Carla, que viajou com a intenção de transferir a filha para Ribeirão Preto.
João César estudava em Ribeirão Preto, mas sua família era de Araxá (MG) e seu corpo seguiu hoje direto de Londrina (PR) para Belo Horizonte (MG), onde será cremado. Segundo o orientador de seu curso, o professor Ricardo Corrêa e Castro, o aluno já fazia pesquisa.
"Eu sou docente há 24 anos e poucas vezes, eu encontrei um aluno tão promissor. Não tenho dúvida que ele daria uma grande contribuição à biologia. Ele e mais alguns outros alunos começaram, desde o início do ano passado, a se preparar e a adquirir uma formação básica para submeter um projeto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)", disse Correa e Castro à rádio USP do campus de Ribeirão Preto.
Ainda sobre o aluno, o professor afirmou, emocionado: "Ele tinha um entusiasmo enorme e contagiante pelo que fazia, com uma grande capacidade. Era uma pessoa com interesses por muitas coisas, por ciência em geral, especialmente por evolução, tanto que ele morava em uma república que eles deram o nome de Beagle, o nome do navio com o qual Charles Darwin deu a volta ao mundo e supõe-se, onde ele concebeu a teoria da evolução.

Infiltração
Infiltrações de água, agravadas pelas fortes chuvas dos últimos dias, podem ter sido a causa do desabamento da marquise. O perito do Instituto de Criminalística Luís Noboru, em avaliação inicial, apontou a existência de diversos pontos de infiltração na laje do anfiteatro onde os estudantes estavam se credenciando para o congresso. A perícia deve ser concluída em 10 dias. O estudante gaúcho Leopoldo Teles Neto, confirma a impressão do perito. "Havia goteiras em nossa cabeça" diz.
A reitora da UEL, Lygia Pupatto, determinou a abertura de uma sindicância. O projeto de construção do anfiteatro, o edifício mais novo do campus, concluído em 1999, está sendo examinado por uma comissão de especialistas.
O trabalho será acompanhado pela seção local do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) e pelo governo do Estado. "Não havia indícios aparentes de qualquer problema estrutural no prédio", garantiu a reitora. Segundo ela, há inspeções regulares nas instalações do campus.

Cremação
O governo do Paraná disponibilizou um avião para transporte do corpo de João César até Belo Horizonte onde, segundo informações da família, será cremado. A Faculdade de Filosofia e a Prefeitura do Câmpus da USP de Ribeirão Preto decretaram luto de três dias.
A caravana dos estudantes de Biologia ao Paraná contava com 42 estudantes e dois professores Flávio Bockmann e Carlos Garófalo do Departamento de Biologia. Depois do acidente o grupo resolveu não mais participar do evento e se prepara para voltar a Ribeirão Preto. Já os que estão internados serão acompanhados por um dos professores, que ficará em Londrina. Familiares dos que permanecem internados vão a Londrina acompanhar de perto a situação dos estudantes hospitalizados.
O professor Ricardo Corrêa e Castro era orientador de João César e deu um depoimento emocionado sobre a morte do estudante para a Rádio USP Ribeirão: "Eu sou docente há 24 anos praticamente e poucas vezes, eu encontrei um aluno tão promissor, não tenho dúvida, que ele daria uma grande contribuição à biologia. Ele e mais alguns outros alunos começaram, desde o início do ano passado, a se preparar e a adquirir uma formação básica para submeter um projeto à FAPESP (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo). Eu coordeno um projeto temático que foi recém aprovado e estávamos nos preparando para submeter um pedido de bolsa de iniciação científica, uma bolsa associada a este projeto, estudando as relações de parentesco evolutivo de uma família de peixes muito importante na América do Sul e central - família que contém os dourados, lambaris, pacus, piranhas etc. Ele ia estudar uma determinada sub-família, que é um animal raro, muito pouco conhecido. O projeto dele seria também a monografia de conclusão de curso. Como ele já tinha feito parte da análise, nós confeccionamos juntos um painel, que era o que seria apresentado por nós no congresso. Foi isso o que ele foi fazer lá.
Ele era uma pessoa muito prestativa e generosa. Ele tinha um entusiasmo enorme e contagiante pelo que fazia, com uma grande capacidade. Ele era uma pessoa com interesses por muitas coisas, por ciência em geral, especialmente por evolução, tanto que ele morava em uma república que eles deram o nome de Bigol, que era o nome do navio onde o Charles Darvin deu a volta ao mundo e supõe-se ele pela primeira vez concebeu a teoria da evolução. Ele era mais que um aluno, mesmo levando em conta nossa diferença de idade, eu considerava ele como um amigo. Era uma pessoa muito especial. Acho uma perda imensa para a Faculdade e para a ciência de uma forma geral".