Notícia

Jornal do Brasil

USP CRIA O PRIMEIRO BANCO DE DNA

Publicado em 30 setembro 1995

Por FABRICIO MARQUES
SÃO PAULO - A Universidade de São Paulo acaba de criar um banco de amostras de DNA, a molécula que reúne o mapa genético de cada ser humano, para estudar as chamadas imunodeficiências, doenças causadas pelo mau funcionamento das defesas imunológicas. A imunodeficiência mais conhecida é a Aids, mas o interesse dos pesquisadores da USP não está propriamente na síndrome. Existem 42 tipos de moléstias desta natureza, que são provavelmente causadas por defeitos ou mutações em genes. Os pesquisadores já reuniram amostras de DNA de 30 portadores de imunodeficiências e agora pretendem estudar o material e procurar alterações genéticas que possam estar relacionadas com o aparecimento das moléstias. "No momento, estamos apenas estocando o material, mas o objetivo é conseguir verba para aprofundar o estudo", diz Lourdes Isaac, professora do Departamento de Imunologia da USP e responsável pelo banco genético. Troca - Não será um estudo isolado. Iniciativas semelhantes estão sendo feitas na Argentina, Chile, México e Costa Rica. A idéia dos cientistas latino-americanos é trocar informações e amostras de DNA em suas pesquisas. "Há doenças raríssimas e é muito difícil colher o material", diz Lourdes. Enquanto a verba para a pesquisa não vem, a equipe da professora prossegue no estudo de um tipo especifico de deficiência imunológica, relacionada ao mau funcionamento de um grupo de proteínas que comanda o combate a infecções. Estas proteínas, conhecidas cientificamente como sistema complemento, atraem para o ponto infeccioso as células de defesa e ajudam a destruir os microorganismos invasores. Quando alguma dessas proteínas deixa de ser produzida, o organismo pára de combater eficazmente as infecções, podendo morrer em decorrência do problema. A pesquisadora Lourdes Isaac tenta descobrir qual é o gene que interrompe a produção da proteína e causa a doença. "Isso pode ser usado para procurar um tratamento para a doença ou para aconselhamento de casais que desejam ter filhos. Se já tiveram um filho com um certo distúrbio, poderão avaliar se uma nova criança também sofreria do problema." Bolha - Em 1990, o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos fez uma experiência pioneira de transplante de genes, para tratar justamente de um tipo raro de doença imunológica, a deficiência, de uma enzima chamada ADA (adenosino-deaminase). A ausência desta enzima incapacita o sistema imunológico e obriga as vítimas da doença a viver em ambientes assépticos. Quem nasceu antes dos anos 70 talvez se lembre do personagem de John Travolta no filme O Rapaz da Bolha de Plástico, que sofria da deficiência de ADA. O Instituto Nacional do Câncer descobriu que a moléstia era causada pela ausência de um determinado gene. Passou a injetar, em crianças doentes, células dotadas do gene ausente. A experiência ainda não tem resultados definitivos, mas mostrou que as cobaias humanas conseguiram sintetizar a enzima que lhes faltava.