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USP cria laboratório pioneiro no País para estudo de malária e febre maculosa

Publicado em 16 setembro 2019

Imagine que uma doença infecciosa comece a circular por uma determinada região. Os transmissores são insetos — mosquitos, por exemplo — e se espalham rapidamente. O número de casos disparam. A ciência, então, faz estudos para entender melhor a situação e traçar maneiras de agir. Mas, para a resposta ser rápida e menos arriscada, é necessário investimento em laboratórios especialmente seguros e capazes de realizar pesquisas precisas.

Uma dessas doenças já existe. É a malária. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 31.872 casos de malária nos três primeiros meses deste ano. No ano passado, foram 194.271. E o País acaba de ganhar um laboratório inovador para realizar estudos com microrganismos como os causadores da malária. O Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, em São Paulo, inaugurou o NB3.

A princípio, o local terá como foco de estudos a malária e a bactéria Rickettsia rickettsii, que provoca febre maculosa brasileira, doença altamente letal. Já a malária, causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada da fêmea infectada do mosquito Anopheles, se não for tratada, pode evoluir para casos de sérios riscos para a vida.

Estudar um agente infeccioso e o vetor em um mesmo espaço é arriscado. É aí que o novo laboratório de parasitologia mostra seu diferencial em comparação aos outros NB3 do País

Em uma mesma plataforma, mas em salas diferentes, trabalham-se as situações de manipulação de microrganismos e seus vetores, a experimentação em hospedeiros e os diagnósticos envolvendo as doenças. Através das análises, é possível detectar potenciais caminhos para a produção de inibidores da contaminação desses parasitas.

O funcionamento diário do laboratório ainda vai esperar um pouco. Há uma série de testes, esterilizações do espaço e treinamento de pesquisadores que precisam ser feitos.

No laboratório, serão manipulados microrganismos com nível de biossegurança 3, que possuem alto grau de patogenicidade, oferecendo risco à vida humana e ao meio ambiente.

Há quatro ambientes: Unidade de Artrópodes (vetores), Unidade de Experimentação em Vertebrados (hospedeiros); Unidade de Imagens, que conta com um microscópio de tecnologia de 4D da Zeiss; e a Unidade de Cultura de Células e Tecidos, onde serão realizados os experimentos científicos e de diagnóstico envolvendo amostras humanas.

O financiamento foi feito através de recurso da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e uma parte pelo programa europeu Marie Curie, que investe em bolsas e estruturas para cientistas.

A equipe do Jornal da USP visitou o NB3 para conhecer a estrutura e saber os trabalhos científicos que serão desenvolvidos. O professor Carsten Wrenger, chefe do Departamento de Parasitologia do ICB e coordenador dos trabalhos de criação e construção, e o professor Cláudio Marinho, também do ICB, apresentaram o local.

Como é um laboratório de biossegurança 3

Antes mesmo de entrar pela porta de inox da entrada do laboratório, uma TV projeta para o saguão todas as imagens das câmeras que estão espalhadas pelos ambientes internos. Crachá exclusivo para abri-la. Depois, é preciso colocar proteções para os pés. “Trabalhamos com transparência e segurança. O que sai daqui são só os resultados”, diz em tom de brincadeira o professor Wrenger.

Feita a primeira prevenção, passa-se para um segundo ambiente. É preciso trocar de roupa — toda a roupa — e colocar uma espécie de capa que suporta um alto nível de pressão. A vestimenta é quente. Quando estiver em operação, o laboratório terá uma temperatura baixa. O uniforme é descontaminado após o uso com etanol.

O laboratório conta com sistema de radiação ultravioleta em todo o seu interior para a descontaminação geral. “Mas ele só pega depois que não estiver ninguém dentro. Ele trabalha como um sensor de presença de pessoas”, segundo Wrenger.

A presença de portas que separam as salas iniciais é para que a pressão possa variar gradualmente de um ambiente para o outro, como forma de segurança. “Assim, não há contaminação por conta do ar que entra na sala”, conta o pesquisador. As portas também são abertas através de sensores e têm um revestimento de borracha nas extremidades que encostam na parede de sua estrutura quando se fecham.

Tem ainda mais uma sala que dá entrada às três diferentes unidades especiais. O professor Wrenger chama a atenção para algo simples, mas importante na construção desse laboratório. “A água é independente. Um sensor detecta se ela está faltando. Ela tem um tratamento próprio. Depois de lavar algo aqui” — ele abre a torneira que também funciona com sensibilidade — “a água vai para esse sistema”.

Embaixo e na parte superior da pia há um reservatório que lança um reagente extremamente forte e que “mata tudo”. Além da água, o circuito elétrico também é autossuficiente, através dos sistemas no-break, que garante o funcionamento em caso de queda de energia.

Para entrar na Unidade dos Artrópodes, mais uma vez é preciso entrar em um pré-ambiente. Nele, é lançada uma cortina de ar para criar uma pressão necessária. Só então é possível chegar onde os vetores estarão incubados futuramente.

De início, serão mosquitos e carrapatos por conta do estudo de malária — pelo grupo do professor Carsten — e febre maculosa brasileira — pela linha de pesquisa da professora do ICB Andréa Cristina Fogaça.

“Se, por um acaso, o mosquito escapar, ligamos essa luz azul para atraí-lo. No caso do carrapato, temos inox nas partes inferiores com uma espécie de cola. O carrapato não sobe e fica grudado ali”. Ao lado da incubação, uma estrutura permite ao cientista manipular o agente infeccioso presente no vetor, podendo mudá-lo geneticamente.

Na sala de vertebrados, são realizados os experimentos com os hospedeiros e as retiradas de amostras. Mas a análise de diagnósticos fica em uma outra: a de microscopia.

“Aqui, os vírus ou bactérias são mostradas na sua intimidade. É uma microscopia ultra virtual, onde podemos checar as células e, com as lâminas de fluorescências, realizar uma análise em um filme de imagens em 4D”, aponta o professor enquanto mostra um equipamento da Zeizz.

Os trabalhos podem ser pré programados através de um software e as imagens são passadas em telas ao lado do microscópio.

A última unidade é a sala de cultura e tecidos. Também é possível analisar as lâminas, observar através de microscópios, entre outras operações, como medir a atividade celular. Há ainda uma tela que realiza videoconferências para qualquer lugar do mundo, onde os pesquisadores podem mostrar seus trabalhos.

“Ter essa estrutura serve para as perspectivas de futuro. É uma infraestrutura apropriada para lidar com a infecção e a transmissão. São problemas grandes para a sociedade essas doenças”, diz Wrenger. Ele, que coordenou os trabalhos de construção do laboratório, diz que não havia um padrão. “Criamos tudo aqui, o que levou muito tempo de trabalho, mas funciona.” Foram cinco anos para finalizar as obras do prédio.

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