Animal desenvolvido pela USP pode ajudar o SUS a reduzir fila de transplantes com órgãos compatíveis ao corpo humano
Porco clonado: objetivo do projeto é produzir suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos compatíveis com o corpo humano. (Reprodução)
O Brasil registrou o nascimento do primeiro porco clonado da América Latina com potencial para uso em transplantes de órgãos humanos.
O avanço, liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo, representa um passo estratégico para viabilizar o chamado xenotransplante no país.
O animal nasceu em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba, interior de São Paulo, após mais de seis anos de pesquisa.
As informações foram divulgadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) na última quinta-feira, 23.
Como funciona o porco clonado para transplantes
O objetivo do projeto é produzir suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos compatíveis com o corpo humano, reduzindo o risco de rejeição.
Para isso, os pesquisadores utilizaram técnicas de edição genética , incluindo a ferramenta CRISPR-Cas9 . Três genes suínos ligados à rejeição foram inativados, enquanto sete genes humanos foram inseridos nas células do animal.
Os embriões modificados foram implantados em fêmeas híbridas e, após cerca de quatro meses de gestação, nasceu o primeiro clone saudável, com 1,7 kg.
Por que porcos são usados em transplantes
Os porcos são considerados os principais candidatos para xenotransplantes devido à semelhança entre seus órgãos e os humanos, tanto em tamanho quanto em funcionamento.
Além disso, apresentam rápida reprodução e crescimento, o que facilita a produção em escala.
Sem modificação genética , no entanto, os órgãos seriam rejeitados imediatamente pelo sistema imunológico humano, o que torna a edição genética uma etapa essencial do processo.
Quais órgãos de porco podem ser usados em humanos?
De acordo com os pesquisadores, praticamente qualquer órgão ou tecido pode ser aproveitado. Inicialmente, o projeto foca em:
Rim
Córnea
Coração
Pele
Segundo a pesquisa, esses órgãos foram priorizados porque, juntos, atendem cerca de 94% da demanda por transplantes no Sistema Único de Saúde (SUS) , responsável por 90% a 96% dos procedimentos realizados no Brasil , tornando a tecnologia estratégica para reduzir a dependência de doações humanas .
Tecnologia pode reduzir dependência externa
Segundo os pesquisadores, dominar a técnica no país evita que o Brasil dependa de tecnologias desenvolvidas no exterior , sobretudo em países como Estados Unidos e China, onde os estudos também avançam.
Ainda não há aprovação oficial para o uso clínico do xenotransplante em humanos , mas testes já foram realizados. Em alguns casos, pacientes transplantados com órgãos de porcos sobreviveram por semanas ou meses.
Diante desses avanços, os cientistas pretendem formar um plantel de porcos clonados para reprodução natural, reduzindo a necessidade de novas clonagens contínuas. Os animais serão mantidos em instalações com alto controle sanitário para evitar riscos biológicos.