Notícia

Jornal da Tarde

USP Ciborgue

Publicado em 14 abril 2011

O protótipo em testes na Poli acabou de ser construído e ainda usa material improvisado. O projeto acaba de receber financiamento e o desenvolvimento da ferramenta final deve demorar mais seis meses.

Uma das áreas mais inovadoras da pesquisa em tecnologia é também uma das mais desconhecidas, a chamada ?computação vestível? ou weareable computing. Essencialmente prática, a disciplina busca desenvolver roupas e dispositivos robóticos que possam se encaixar no corpo humano e lhe trazer novas capacidades e o seu desenvolvimento é especialmente importante para quem tem problemas de movimentação nos braços ou pernas.

O campo de estudo é interdisciplinar e baseia-se principalmente na robótica, na neurociência e na fisioterapia. Sua maior promessa está no desenvolvimento dos chamados exoesqueletos, um conceito adaptado da dura capa de quitina que reveste o corpo de insetos e crustáceos. A ideia é que ferramenta como essas, mecanizadas, carreguem o corpo e auxiliem músculos e membros que não respondem.

As pesquisas em biônica avançaram muito nos últimos anos e mostraram que esse tipo de dispositivo tinha aplicação fora dos filmes do Homem de Ferro e fantasias futuristas e que poderia tornar-se importante em tratamentos clínicos. Cientistas já provaram que é possível captar com exatidão os sinais elétricos do cérebro e repassá-los para um membro mecânico externo. O brasileiro Miguel Nicolelis usou os estímulos da mente de um macaco para fazer que um par de pernas mecânicas andasse ? o que o bicho pensava nos Estados Unidos, o robô fazia ao mesmo tempo no Japão. Desde então, houve uma explosão do investimento em projetos do tipo, do exército norte-americano às principais universidades.

O desenvolvimento desse tipo de mecanismo já movimenta US$ 2,8 bilhões por ano e promete até devolver o movimento a quadriplégicos, mas, até o começo de 2011, a principal universidade brasileira ainda não tinha nenhum projeto importante na área. Ativo apenas desde novembro de ano passado, o Laboratório de Biomecatrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), quer mudar rapidamente isso.

Liderado pelo espanhol Arturo Forner-Cordero, o grupo já toca dois projetos de exoesqueleto. Um deles está sendo financiado pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e é dedicado a criar um equipamento que auxilie o braço (envolvendo articulações do ombro, cotovelo e punho) a se movimentar. O outro, bancado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), construirá um acessório robótico que, quando vestido, pode devolver a autonomia das pernas (em um protótipo que ainda envolverá estruturas ligadas ao joelho ao tornozelo).

Não há ligação entre cérebro e máquina no projeto da USP. A intenção é criar uma ferramenta que faça o esforço para a pessoa que tem dificuldades para se mexer e que, ao menos no tempo em que está em desenvolvimento na universidade, sirva também de ferramenta para o estudo das respostas motoras e sensoriais. Os exoesqueletos serão primeiro usados em pessoas saudáveis, que realizarão diversos testes de precisão e se movimentarão com eles em diversos contextos.

Depois, serão usados em grupos reduzidos de pacientes com hemiplegia e que sofrem os efeitos tardios da poliomielite. Colocado por fora do braço, o protótipo identifica pequenos estímulos do próprio paciente e dá uma forcinha para que ele complete o gesto ou mesmo pode impor um movimento arbitrário em membros que não apresentam contrações.

"Comecei a me interessar por esse tipo de solução em uma época em que minha avó entrou na idade em que era normal começar a tropeçar e cair muito. Nessa idade, o risco de morte ou de invalidez nesses casos é enorme. Minha ideia era que equipamentos que os ajudassem a caminhar e que tornasse as ações menos cansativas poderia diminuir esse número", explica o pesquisador, que afirma que um protótipo mais finalizado do braço mecânico, já em testes, deve ser mostrado em seis meses.

"A ideia é que consigamos entender plenamente como funciona a interação entre o homem e o robô auxiliar. Com isso, poderemos traçar um padrão, que pode ser usado em uma série de estudos futuros", completa.