Notícia

Jornal da USP

USP adquire originais de Carlos Gomes

Publicado em 09 maio 1999

Por CLAUDIA COSTA
A partitura manuscrita da primeira ópera A Noite do Castelo de Carlos Gomes foi adquirida pela USP em leilão e agora fica incorporada ao acervo do Instituto de Estudos Brasileiros. O documento, com 600 páginas encadernadas em dois volumes de luxo, será apresentado ao público em cerimônia nesta terça, 4. Uma moça, Leonor, desde que nasce está prometida para seu primo, Henrique. Até que ele parte para uma cruzada na Terra Santa e chega a notícia de que morreu. A moça fica então noiva de outro, Fernando. Uma história simples, mas que assume um final trágico. O drama se desenrola numa noite de festa no castelo do conde Orlando, pai de Leonor, durante a festa de noivado. Surge então um cavaleiro mascarado e ela já desconfia que seja seu primo Henrique que voltou. Ele faz várias aparições e cantarola canções que ela conhece, deixando-a perturbada e dividida entre os dois homens. Quando termina a festa, o noivo aparece assassinado. O conde surpreende o mascarado no quarto da filha e o mata, sem saber que era o seu sobrinho. A moça morre de desgosto e a ópera acaba com seu pai prevendo também o seu fim em breve. Essa é a história de A Noite do Castelo - primeira ópera escrita por Carlos Gomes (1836-1896) para libreto de Antônio José Fernandes dos Reis, a partir do poema homônimo do escritor português Antônio Feliciano de Castilho - que agora está em poder da USP. O manuscrito-autógrafo, única versão completa da obra, conforme apurado, foi arrematado em leilão pelo professor José Eduardo Martins, chefe do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. E nesta terça, dia 4, às 18h, será realizada a cerimônia de transferência de guarda do Departamento de Música, através do diretor da ECA Tupã Gomes Correia, para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), com a presença do reitor Jacques Marcovitch e do professor Fernando Perez, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O professor Martins conta que o regente titular da Orquestra Sinfônica da USP, Ronaldo Bologna, foi quem alertou a Universidade sobre o leilão da ópera e os professores Regis Duprat e Rubens Ricciardi examinaram e confirmaram a importância do documento. Tiveram então o apoio da Fapesp que, segundo Martins, entendeu que o documento serviria à pesquisa e não poderia de forma alguma deixar o Brasil. Já a parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) surgiu como destino final da obra, que deverá ficar sob sua responsabilidade para guarda e preservação. Mas a parceria entre o Departamento de Música e o IEB não fica apenas na aquisição de um manuscrito; ambos estarão trabalhando juntos no projeto para a edição crítica da obra que, segundo a pesquisadora Flávia Camargo Toni, do IEB, é um estudo do caminho percorrido pelo compositor até chegar àquela forma. Isso inaugura uma nova linha de pesquisa que são as edições críticas, muito comuns na Alemanha e França, por exemplo, mas sem nenhuma tradição no Brasil. E os trabalhos já foram iniciados. Além dessa ópera de Carlos Gomes, já estão sendo estudados outros autores brasileiros como Henrique Oswald e compositores mineiros do século 18, que deverão ter suas edições críticas publicadas pela Edusp até o início do próximo ano. "Nosso objetivo é estabelecer normas de edição crítica para obras brasileiras", informa a pesquisadora, acrescentando que os procedimentos de trabalho são muito semelhantes aos utilizados na literatura. Como tudo começou Desde 1860, Carlos Gomes trabalhava como maestro ensaiador para a Imperial Academia de Música e Opera Nacional, fundada por José Amat, um empresário espanhol que morava no Rio de Janeiro. Depois da apresentação de uma Cantata, encenada na Academia Nacional de Belas Artes (RJ), um sucesso de público, veio o convite para musicar o libreto. A ópera A Noite do Castelo foi escrita em 1861, com 3 atos e 17 cenas (7, 4 e 6, respectivamente), dedicada a Dom Pedro II, que esteve presente na sua estréia em 4 de setembro do mesmo ano, no Teatro Lírico Fluminense - o Teatro Provisório da corte de D. Pedro II - a cargo de Carlos Gomes. O elenco dessa primeira montagem é bem conhecido: Luiza Amat no papel de Leonor, o tenor italiano Marchetti como Henrique, Luiz Marina como Fernando, o barítono português Eduardo Medeiros Ribas interpretando o conde Orlando, entre outros. Depois disso aconteceram montagens parciais da obra em São Paulo e Campinas, pouco depois da estréia carioca. Foram audições de trechos, com poucos instrumentos e piano. Neste século a ópera só foi montada em 1978 pelo maestro Benito Juarez, com a Orquestra Sinfônica de Campinas, a partir dos manuscritos individuais do Centro de Ciências, Letras e Artes da cidade, hoje Museu Carlos Gomes. Dessa apresentação há registro em disco, com produção fonográfica da Master Class Comercial e Distribuidora Ltda, lançado em 1997. Quanto às versões da obra, além da completa que está em poder do IEB, há outras. Em 1861, a ópera teve uma edição, em número limitadíssimo, pela casa editora de Rafael Coelho Machado, na redução para canto e piano, revisada pelo autor, e uma edição só para piano pela mesma empresa. Ambas são consideradas raras. Há também cópias da ópera sumariamente descritas no catálogo Museu Carlos Gomes, de autoria de Lenita Waldige Nogueira, no Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, em quatro versões da ópera, parciais ou em arranjos para banda, sem a partitura do maestro e nenhuma autográfica. Trajeto curioso Segundo a pesquisadora Flávia Toni, o manuscrito percorreu um trajeto curioso até chegar ao IEB. Sabe-se que em 4 de março de 1901 a ópera estava em mãos de Sant'Anna Gomes, irmão do compositor, em Campinas. Em 1926, o autógrafo fora presenteado a Ugo Tommasi, vice-cônsul italiano em Campinas, pelo marido de uma sobrinha de Carlos Gomes. Em 1936, Luiz Heitor Corrêa de Azevedo tentou localizar a obra para um estudo comparativo entre esta e Joana de Flandres, monografia publicada na Revista Brasileira de Música e foi informado que A Noite do Castelo teria sido ofertada ao governo brasileiro por um diplomata italiano que residia no Chile. Mas tal doação não foi concretizada, segundo informações do Itamarati. Aparentemente, a obra permanecia em mãos de Ugo Tommasi. Só em 1961 a família brasileira Sampaio Ferraz adquiriu na Europa a ópera de Carlos Gomes e a trouxe para o Brasil. Na época. Mário Rangel, então redator da Rádio Eldorado, noticiou a compra e, como amigo da família, levou os dois volumes para serem analisados pelo Conselho Técnico da Orquestra Sinfônica Municipal. Souza Lima foi quem confrontou o autógrafo com uma versão da ópera para piano, concluindo ser obra autêntica. O manuscrito ficou em poder da família até março de 1999, quando o engenheiro João Leite Sampaio Ferraz Júnior levou-o a leilão. A partitura que agora está incorporada ao patrimônio do IEB é composta por dois volumes encadernados em couro, um em azul-marinho, de 276 páginas, e outro em vermelho, de 324 páginas. "Quando foi feita a encadernação, a pessoa chegou a cortar algumas pequenas partes, mas que não prejudicam em nada a leitura das notas musicais", conta Flávia. Segundo ela, não será necessária nenhuma restauração. "A obra está em ótimas condições e extremamente legível", diz. Agora a equipe do IEB e do Departamento de Música vai trabalhar em sua edição crítica, com previsão de dois anos para a conclusão. "A aquisição dessa ópera é algo do maior relevo para a Universidade porque mostra a interdisciplinaridade entre o departamento e o instituto num processo de cooperação musical", diz o professor Martins. A cerimônia de transferência de guarda da ópera A Noite do Castelo acontece nesta terça, às 18h, no IEB (av. Prof. Mello Moraes, trav. 8, 140, Cidade Universitária). Haverá também uma apresentação musical do professor José Eduardo Martins, tocando o Prelúdio da ópera em sua versão para piano, além do Estudo (1897), de Henrique Oswald, Alma Brasileira, de Villa-Lobos, e Viva Vila, de Gilberto Mendes.