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Uso de redes sociais na comunicação científica é discutido em seminário

Publicado em 23 agosto 2012

Por Clarissa Vasconcellos

Medidas tradicionais como a contagem de citações de artigos já não são as únicas para avaliar o impacto de um trabalho. Compartilhamentos e textos adicionados a redes específicas começam a ser vistos como índices relevantes.

Ainda há resistência. Mas, pouco a pouco, pesquisadores vão deixando de ver as redes sociais com tantas ressalvas e encarando-as como ferramentas úteis não apenas para a divulgação de seus trabalhos, mas também como medidoras de diferentes aspectos de uma pesquisa. Essa foi uma das conclusões do Seminário de Introdução ao Uso das Redes Sociais na Comunicação Científica, que aconteceu em São Paulo, na terça (21), e no Rio de Janeiro, ontem (22), no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

O evento era destinado a profissionais da ciência da informação e comunicação científica, pesquisadores, bibliotecários, entre outros. O biólogo e blogueiro Átila Iamarino e o coordenador do Programa Scientific Electronic Library Online - SciELO/Fapesp, Abel L. Packer, mostraram que tanto redes populares como Twitter e Facebook, quanto mais específicas como a Mendeley e CiteULike (para citações) são cada vez mais utilizadas como filtro de conteúdo para informação relevante também dentro da ciência.

Iamarino foi um dos responsáveis pela implantação da versão brasileira do portal Science Blogs, que atualmente reúne mais de 40 blogs científicos no País. "O blog é um ótimo filtro social para encontrar pessoas muito interessadas em certos assuntos", alega. Entrando no tema das redes, ele sustenta que se trata de um universo "interativo, imprevisível e inevitável", com o qual todas as áreas terão que conviver. Abel Packer lembrou que o Brasil é o 13º produtor mundial de artigos indexados e que as redes são importantes para aumentar o número de citações a trabalhos brasileiros no exterior.

Novas métricas - Iamarino conta que as redes sociais acrescentam "novas camadas de métricas de impacto da pesquisa", de forma "muito mais dinâmica". Agem como instrumentos que ajudam a coletar informação sobre o que acontece no período entre a publicação de um artigo e a contagem de citações aferida.

Compartilhamentos de artigos nas redes, comentários e a medição do número de acessos são algumas dessas chamadas novas camadas métricas para se avaliar o impacto de um trabalho, indo mais além da tradicional contagem de citações. Iamarino sustentou parte de sua palestra no trabalho Altmetrics in the wild: an exploratory study of impact metrics based on social media, de Jason Priem, Heather A. Piwowar e Bradley H. Hemminger.

"Atualmente, um número crescente de acadêmicos lê, compartilha, discute e avalia usando ferramentas on-line e esses impactos invisíveis começam a ser vistos. Eles estão deixando rastros em sites, downloads, blogs e redes sociais", afirmam os autores na introdução do estudo.

"O marketing científico e acadêmico existe e é necessário e uma de suas ações é a participação nas redes sociais. É preciso tornar nossos periódicos mais contemporâneos", opina Abel Packer. Nesse sentido, Iamarino lembra que há diversos casos de artigos "populares", muito lidos ou muito compartilhados, que não rendem citações ou mesmo artigos que são citados em apresentações (o que pode ser rastreado via Slideshare), o que, na opinião do biólogo, deveria ser visto também como um indicador de relevância.

Mobilização - Além de representarem ferramentas para medições, as redes também ostentam atualmente um conhecido papel de agentes mobilizadores - papel incontestável diante de acontecimentos nos últimos anos como a Primavera Árabe. O biólogo lembra que só o Twitter tem 200 milhões de usuários e que São Paulo é a cidade mais ativa no microblog e mostrou no seminário alguns exemplos que comprovam esse poder das redes também no âmbito da ciência.

Ele cita o caso da divulgação de uma pesquisa da Nasa de 2010 que anunciava a criação de vida a partir de arsênico, o que foi contestado e amplamente discutido por cientistas em blogs e redes sociais nas semanas seguintes à notícia, gerando o trending topic #arseniclife na internet. O debate acabou produzindo um artigo, capitaneado pela pesquisadora e professora da University of British Columbia (Canadá) Rosie Redfield, com colaborações de pesquisadores que se comunicaram por meio dessas redes. Diante da mobilização contrária, o paper original da Nasa teve que ser retratado.

Também lembrou o caso da editora Elsiever, responsável pela insatisfação de muitos pesquisadores por seus preços altos por publicações e por suas vendas casadas, que começou a ter suas práticas questionadas na blogosfera. As justificativas dos relações públicas da Elsiever, que chegaram a dizer que "o conteúdo produzido pelos autores não é tão relevante", geraram ainda mais controvérsia, o que acabou transportando a insatisfação dos usuários das discussões internas até a grande mídia.

Legitimidade - No entanto, há uma preocupação a respeito da legitimidade do conteúdo disponibilizado em blogs e redes. Para minimizar a divulgação de informação falsa e incompleta na ciência, Iamarino propõe a criação de comunidades para o compartilhamento de conhecimento, como ocorre, por exemplo, no site Scienceblogging.org.

Essa mudança de paradigmas na divulgação de informações atinge em cheio o trabalho não só dos cientistas, mas também o dos que trabalham em divulgação científica. Iamarino lamenta que, paralelamente a isso, o jornalismo científico esteja diminuindo de qualidade, já que o número de especialistas nas redações está cada vez mais reduzido e pressionado por demandas de audiência. "Infelizmente é uma tendência mundial", pontua.

Iamarino cita também iniciativas como a disponibilização de aulas e seminários no YouTube ("mais fácil de encontrar do que dentro dos sites das universidades") e perfis científicos em redes sociais, como o @beagleproject, que reconta, diariamente, em tweets, a expedição homônima de Charles Darwin, ou o @RealTimeWWII, que descreve, também em tweets, os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.

O seminário foi organizado pelo Programa SciELO/Fapesp, em colaboração com a Fiocruz e o apoio do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), do CBPF, e do Centro de Estudos da Voz do Instituto Superior de Ensino em Comunicação.

(Jornal da Ciência)