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Uso de inteligência artificial aprimora mapeamento agrícola na Mata Atlântica (31 notícias)

Publicado em 03 de fevereiro de 2026

Método viabiliza uso de sensoriamento remoto como ferramenta de menor custo e grande escala para monitorar paisagens agrícolas diversificadas em ambientes tropicais e reforça importância de sistemas diversificados para enfrentar mudanças climáticas (Foto: Divulgação)

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Embrapa mostrou que imagens de satélite combinadas com técnicas de inteligência artificial podem se tornar aliadas estratégicas do planejamento territorial em regiões tropicais de alta diversidade produtiva. A pesquisa foi realizada no Distrito Agrotecnológico (DAT) de Jacupiranga, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo, e alcançou mais de 93% de precisão na identificação de áreas agrícolas e de vegetação nativa.

Utilizando imagens do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia, os pesquisadores conseguiram distinguir com sucesso os cultivos de banana e pupunha, que concentram grande parte da produção agrícola local. Os resultados se mostraram compatíveis com estatísticas oficiais e com métodos mais onerosos, como levantamentos feitos com drones, reforçando o potencial do sensoriamento remoto como ferramenta de baixo custo e ampla escala.

Mesmo diante de desafios típicos de áreas tropicais — como a presença constante de nuvens e a complexidade do uso do solo — o método se mostrou eficiente. A região do Vale do Ribeira reúne relevo acidentado, alta umidade, áreas preservadas de Mata Atlântica e uma estrutura fundiária marcada pela agricultura familiar, o que torna o território um laboratório estratégico para o desenvolvimento de novas metodologias de mapeamento.

Segundo os autores do estudo, o acesso a informações precisas sobre a ocupação agrícola pode subsidiar políticas públicas, ampliar a assistência técnica e fortalecer programas de desenvolvimento sustentável voltados a pequenos e médios produtores rurais, que muitas vezes não dispõem de tecnologias digitais avançadas.

Além disso, a pesquisa apontou que sistemas produtivos diversificados, como os observados em Jacupiranga, tendem a ser mais resilientes às mudanças climáticas. Esses sistemas não apenas garantem renda e segurança alimentar, como também preservam serviços ambientais essenciais, como a conservação do solo, a proteção de nascentes e a manutenção da biodiversidade.

Pupunha ganha destaque no mapeamento

Um dos diferenciais do trabalho foi tratar a pupunha como uma categoria específica no mapeamento agrícola. Em estudos realizados em regiões tropicais, a banana costuma ser priorizada devido à sua relevância econômica. A inclusão da pupunha reflete a importância crescente do palmito na economia local e seu papel como alternativa sustentável a espécies nativas exploradas de forma predatória.

Para diferenciar os usos da terra, os pesquisadores testaram diversos índices espectrais. O NDWI, que mede a presença de água na vegetação, apresentou melhor desempenho do que índices mais tradicionais, como o NDVI e o BSI, especialmente em ambientes úmidos como o Vale do Ribeira. A combinação de informações sobre umidade, vigor vegetativo e solo permitiu um mapeamento mais preciso de paisagens agrícolas heterogêneas.

Agricultura digital e inclusão no campo

O estudo integra um movimento mais amplo de expansão da agricultura digital no Brasil. Levantamentos da Embrapa indicam que a maioria dos produtores rurais já utiliza algum tipo de tecnologia digital, embora essas iniciativas ainda estejam mais concentradas em grandes propriedades. A experiência em Jacupiranga demonstra que ferramentas digitais também podem gerar benefícios concretos para a agricultura familiar e comunidades tradicionais.

Ao integrar satélites, sistemas de informação geográfica e análise de dados, o mapeamento digital contribui para a gestão territorial, a adaptação climática e a valorização de práticas sustentáveis. O uso de imagens de acesso público, como as do Sentinel-2, também facilita a replicação da metodologia em outras regiões tropicais.

Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que o mapeamento agrícola nesses ambientes segue sendo desafiador, devido à semelhança espectral entre culturas, às mudanças sazonais e à cobertura frequente de nuvens. Ainda assim, os resultados indicam que tecnologias acessíveis podem superar parte desses obstáculos.

Ciência e políticas públicas

A conclusão do estudo é que a agricultura digital deve ser encarada não apenas como ferramenta de aumento da produtividade, mas como estratégia para promover sustentabilidade e inclusão. Em regiões onde a agricultura familiar convive com áreas preservadas, o monitoramento digital pode apoiar a conservação ambiental e fortalecer práticas tradicionais.

A pesquisa integra as ações do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital, o Semear Digital, liderado pela Embrapa Agricultura Digital com financiamento da FAPESP. O projeto atua em diferentes Distritos Agrotecnológicos do país e busca ampliar a participação de pequenos e médios produtores no processo de transformação digital no campo, unindo ciência, tecnologia e políticas públicas para um futuro rural mais equilibrado.