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Revista Ecológico online

Uso de animais é substituído por material descartado em cirurgias

Publicado em 17 janeiro 2018

Os efeitos da radiação ultravioleta (UV) sobre o tecido cutâneo são bem conhecidos da ciência e da indústria de cosméticos. Há no mercado uma ampla gama de produtos que atuam como barreira química contra esses raios solares, prevenindo o câncer de pele e o envelhecimento precoce.

Agora, os cientistas buscam compreender melhor as alterações estruturais sofridas pela pele exposta à radiação infravermelha – que é sentida na forma de calor e tem como fonte não apenas o sol, mas também objetos domésticos, como ferro de passar roupas e secador de cabelos.

Para estudar os danos provocados pela radiação infravermelha A, uma empresa especializada na condução de estudos clínicos na área de cosmética, a Kosmoscience, desenvolve metodologia alternativa aos testes feitos com animais, usando fragmentos de pele humana provenientes de cirurgias plásticas eletivas.

Segundo a farmacologista Samara Eberlin, responsável pela pesquisa, o objetivo da Kosmoscience ao avaliar os efeitos deletérios da radiação IV-A sobre os fragmentos de pele é validar o uso desse material alternativo para testes de eficácia de produtos protetores.

Ela explica que com o advento da política dos 3R (“Replace, Refine and Reduce”) – que visa substituir e reduzir o número de animais usados em pesquisa – a avaliação da segurança e eficácia cosmética ficou restrita aos ensaios in vitro (cultura de células) e aos testes clínicos, feitos em seres humanos.

Os fragmentos usados são excedentes de cirurgias plásticas, obtidos após consentimento dos pacientes e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa. E não há falta desse tipo de material. O Brasil é o segundo colocado no ranking mundial de cirurgia plástica, segundo dados divulgados pela International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) em junho de 2017. “Um material que iria para o lixo é doado para pesquisa”, disse Samara.

Segundo ela, embora nenhum teste de laboratório possa substituir por completo o que ocorre em uma situação real, o fragmento recém-obtido da cirurgia plástica é o modelo mais próximo. “Depois de removida, a pele apresenta viabilidade tecidual de 7 a 10 dias em cultura. As principais alterações relacionadas ao envelhecimento, pigmentação e resposta inflamatória, dentre outras, podem ser mensuradas nesse sistema”, disse.

Eberlin e os biólogos Michelle Sabrina da Silva e Gustavo Facchini já conseguiram obter resultados que demonstram os efeitos nocivos que a radiação pode causar ao tecido cutâneo, como aceleração do envelhecimento, morte celular e enfraquecimento de mecanismos fisiológicos.

“Os resultados são preliminares, mas indicam que a radiação infravermelha produz alterações no metabolismo normal da pele, podendo causar desde alterações estéticas até malformações malignas”, disse Samara. Ela explica que a radiação IV é mais penetrante que a ultravioleta; atinge as camadas mais profundas da pele, promovendo danos ao DNA.

Fonte: Agência Fapesp