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Usinas antecipam colheita de cana-de-açúcar

Publicado em 03 março 2010

A colheita da safra de cana-de-açúcar 2010/2011, que deverá ser a mais longa da história, começou ontem nas Usinas Lins e Batatais. Ambas anteciparam suas safras, enquanto a maioria deverá começar só no dia 15. Juntas, as duas usinas deverão moer 5,660 milhões de toneladas de cana.

"Os canaviais estão muito bons e tem muita cana para cortar, pois a chuva segurou para todas as usinas em 2009", diz o presidente das Usinas Batatais e Lins, Bernardo Biagi. Segundo o empresário, as duas usinas deverão fechar a safra em 20 de dezembro.

E, com preços melhores tanto para o álcool quanto para o açúcar, os usineiros esperam uma boa safra, enquanto os consumidores, proprietários de veículos, ficam na expectativa de que o preço do etanol (álcool hidratado) diminua nas bombas dos postos.

"Tudo indica que deverá cair, como nos últimos anos", diz Oswaldo Manaia, presidente da regional de Ribeirão Preto do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo (Sincopetro). O preço chegou a R$ 1,89 por litro no início do ano e hoje varia entre R$ 1,60 e R$ 1,70.

"Agora os preços de nossos produtos melhoraram, depois de um prejuízo durante 26 meses seguidos, até a metade de 2009", comenta Biagi, acreditando que o reflexo da queda de preço para o consumidor será progressivo, à medida que a nova colheita seja processada.

A Usina Lins, com 25 mil hectares de cana, que só produz álcool hidratado, vai moer 1,910 milhão de toneladas, 16% mais que na safra anterior (1,652 milhões). A produção de álcool deverá atingir 162 milhões de litros, ou seja, 24% mais que no ano passado (131 milhões). Essa unidade terá 1 mil funcionários na safra iniciada, superando os 880 da anterior.

A Usina Batatais, com 50 mil hectares, vai moer 3,750 milhões de toneladas de cana, 6% mais que as 3,550 milhões de toneladas de 2009. A unidade, que manterá os 2.100 funcionários da safra passada, terá aumento de 10% na produção de açúcar (passando de 5,040 milhões de sacos de 50 quilos para 5,555 milhões) e 8% na de álcool anidro (141 milhões de litros, ante 130 milhões da anterior).

Biagi cita ainda que a mecanização da colheita passa de 99% para 100% em Lins e de 84% para 87% em Batatais. Atingir os 100% de mecanização em Batatais deverá durar três ou quatro anos, avisa Biagi.

A crise financeira mundial e os preços baixos no setor dificultaram os investimentos dos usineiros na safra anterior, que ainda enfrentou o excesso de chuva no segundo semestre. Isso atrapalhou a colheita de cana e a produção de etanol, gerando um cenário atípico. "Não foi legal para o produtor nem para o consumidor", afirma Biagi.

Com a explosão de vendas de carros flex, o consumo de etanol aumentou, mas a colheita foi insuficiente, por causa das chuvas. Consequentemente, o preço na bomba subiu, principalmente entre janeiro e fevereiro, forçando os donos de carros flex a partir para o consumo de gasolina.

Biagi cita que a Usina Lins deixou de moer 300 mil toneladas em 2009, enquanto na Batatais esse número ficou entre 700 mil e 800 mil toneladas. "O normal seria zerar ou, no máximo, deixar uns 10% para a safra seguinte, como é o nosso caso, pois começamos a safra muito cedo", diz Biagi.

"A maioria das usinas vai começar a colheita em meados de março e essas (Lins e Batatais) são exceções", diz o representante da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) na região de Ribeirão Preto, Sérgio Prado. Segundo ele, a projeção de safra deverá ser divulgada pela entidade em abril. Sobre o possível reflexo do início da colheita nos preços de etanol nas bombas, Prado informa que há cinco semanas já tem ocorrido queda de preço de venda das usinas às distribuidoras. "Agora vamos ver o novo comportamento de preços no mercado", comenta Prado.

Câmara simula clima para cana

O Centro de Cana do Instituto Agronômico (IAC-Apta), em Ribeirão Preto (SP), tem se modernizado a passos largos. O Programa de Melhoramento Genético de Cana, que visa ao desenvolvimento de variedades comerciais, produziu, só no ano passado, 200 mil seedlings (mudas originadas de sementes), por meio do cruzamento de 400 famílias de diferentes variedades, que serão acompanhados nos próximos anos pelos pesquisadores. Só depois desse longo processo, que pode demorar 12 anos, serão lançadas mais variedades de cana, mais produtivas e tolerantes a pragas e doenças.

Além disso, em Ribeirão Preto está em fase final de construção uma câmara de fotoperíodo, a primeira do Brasil, que deve ser inaugurada este mês, para que as condições climáticas (luminosidade, temperatura e umidade), naturais na Bahia sejam reproduzidas e gerem novas sementes.

Hoje, os pesquisadores precisam manter coleções de cana numa estação de hibridação em Itaparica (BA). Lá, são feitos os cruzamentos para gerar as sementes em condições naturais longe de Ribeirão Preto, onde a luminosidade natural diária é menor.

O pesquisador Maximiliano Salles Scarpari será o responsável pela câmara de fotoperíodo, que deverá iniciar as atividades em 1º de janeiro de 2011. "Até lá, serão experimentos, testes e aprendizados", diz. "A câmara ajudará a entender a fisiologia da floração da cana, como a indução do sincronismo da floração, impondo vários fotoperíodos", diz.

Câmara automatizada

Como no Estado de São Paulo existem muitas noites frias, abaixo dos 18 graus, ou acima de 32 graus, o que também prejudica a floração, essa câmara, que será automatizada, controlará artificialmente a temperatura, a umidade do ar e a luminosidade, antecipando ou retardando o florescimento da semente.

Segundo o diretor do centro, Marcos Landell, os investimentos em modernização e infraestrutura desde 2009 chegam a R$ 4,7 milhões, sendo R$ 3,5 milhões da Fapesp, para melhoramento genético voltado à cana bioenergética e R$ 1,2 milhão da Secretaria de Agricultura. "O processo de melhoramento só consegue gerar saltos se houver variabilidade genética na seleção", diz Landell. Isso é necessário para buscar a variedade mais próxima do ideal: mais ereta para facilitar a colheita; uniformidade dos colmos, maior produtividade de açúcar, fibras, etanol e biomassa, além de resistência a pragas e doenças.

O programa de melhoramento genético de cana do IAC começou em Campinas, em 1933, e existem relatos desde a década de 1940 sobre a atuação em Ribeirão Preto, mas intensificado a partir da década de 1970 (antes o café predominava). Porém, foi em 1990 que Landell reorganizou o plano de cana do IAC, "do zero", em Ribeirão Preto.

Fonte: O Estado de São Paulo