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Universidades públicas brasileiras enfrentam maior crise de sua história

Publicado em 10 junho 2016

Uma análise sobre a atuação das universidades públicas com os movimentos sociais é o foco do estudo de doutorado do professor Henrique Novaes, da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp de Marília. A tese originou o livro Reatando um fio interrompido – a relação universidade-movimentos sociais, publicado pela editora Expressão Popular, em 2012, mas que agora traz uma nova versão em espanhol. O livro terá lançamento na próxima semana, na Argentina.

A obra analisa o perfil dos professores no universo acadêmico por meio de dois paradigmas distintos: a universidade cientificista, com produção intelectual de artigos de classificação elevada, descolados dos grandes problemas sociais, e os “pesquisadores extensionistas”, que, segundo o professor, atuam em pesquisa de extensão voltados para temas de relevância social e não de produção em massa, depapers para revistas internacionais.

“Creio que o livro, construído a partir das experiências práticas de atuação de alguns intelectuais militantes, pode ajudar a esquerda universitária a criticar o cientificismo, o inovacionismo e mais que isso, formas de atuar em pesquisa e extensão junto aos movimentos sociais.

No doutorado observei que uma parte da universidade pública e dos institutos públicos de pesquisa na América Latina aproximou-se dos movimentos sociais”, explica.

Com relação à questão do futuro das universidades, Novaes diz que estamos diante do momento mais complicado da nossa história. “No caso brasileiro, vivemos um contexto golpista, e uma grande ofensiva contra tudo que é público. As propostas para as universidades públicas são: cobrança de mensalidades, fundos de ex-alunos, recursos das empresas, e por aí vai. Neste contexto é difícil acreditar que possa haver uma guinada extensionista”, ressalta.

 

Qual foi o foco da sua tese de doutorado?

No doutorado observei que uma parte da universidade pública e dos institutos públicos de pesquisa na América Latina aproximou-se dos movimentos sociais. Observei as ações dos pesquisadores-extensionistas das engenharias que “ajudaram” as empresas recuperadas, os assentamentos que estavam em processo de transição para a agroecologia e arquitetos que auxiliaram as lutas imediatas e de médio prazo dos sem teto.

 

O que estas experiências ensinam?

Creio que elas são uma espécie de farol para o papel da universidade pública. Num contexto como o atual onde se critica o cientificismo, o produtivismo, a produção em massa de papers totalmente descolados dos grandes problemas sociais da América Latina, elas nos mostram que a universidade pode se pautar por critérios de relevância social e não de produção em massa de papers para revistas internacionais.

A atuação destes pesquisadores-extensionistas é direcionada por critérios como construção da autogestão, desmercantilização, vida coletiva, propriedade comunal da terra ou a propriedade coletiva dos meios de produção, produção de alimentos sem venenos, processos de trabalho não alienantes, e assistência “técnica” dialógica. Eles se preocupam também em formar intelectuais militantes para atuar na resolução de problemas sociais, o que é muito distinto da formação para o mercado de trabalho. Encontrei críticas “pesadas” a Revolução Verde e ao processo de trabalho na construção civil feitos pelos pesquisadores. Para mim foi um grande aprendizado.

 

Todos pensam da mesma forma?

Há um leque que vai de republicanos, defensores do desenvolvimento “nacional”, do papel da universidade pública via extensão para interesses públicos, até marxistas. No entanto, há um ponto em comum: a universidade cientificista não serve aos movimentos sociais.

 

Isso já aconteceu em outros momentos históricos?

Cem anos atrás, na Reforma de Córdoba de 1918, surgiu uma ala dos estudantes que criticava a universidade pública que forma para o mercado de trabalho, que está ao lado dos exploradores. No Peru este processo se radicalizou a ponto de José Mariátegui – um importante marxista latino-americano – achar que a Universidade Pública estava condenada ao fracasso, de tão conservadora que era. Ele é um dos idealizadores das Universidades Populares, tema que volta a tona no século XXI em função das lutas do movimento estudantil e de uma parte dos professores.

Mostrei também que nos anos 1950-60, dentro de um contexto de acirramento das lutas sociais na América Latina, novamente surge o debate do papel dos intelectuais na sociedade de classes latino-americana.

O senhor cita a Universidade de Brasília (UnB) e a “Noche de Los Bastones largos” (noite das porretadas) na Argentina…

Creio que a minha tese de doutorado é uma das poucas, senão a única, a traçar um importante paralelo na “destruição” de duas universidades latino-americanas. Em outubro de 1965, já dentro da nossa ditadura empresarial-militar, 80% dos professores da UnB pediram demissão frente às seguidas intromissões do regime militar na Universidade. 9 meses depois, em junho de 1966, na ditadura de Ongania (Argentina), algo muito parecido ocorreu. Tentei mostrar que havia muita riqueza no debate científico argentino dos anos 1960, dentre as quais destaco Amilcar Herrerra (convidado por Zeferino Vaz para fundar o Instituto de Geociências) e Oscar Varsavsky, outro importante intelectual argentino que ajudou a fundar vários centros de pesquisa no Peru e Venezuela.  Mostrei que o Golpe de 1964 e o golpe de 1966 e 1976 na Argentina foram fatais. É nas ditaduras latino-americanas que começa a “faxina” do pensamento crítico em todos os campos do conhecimento. Uma nova onda de adaptação da universidade pública às necessidades de formação para o mercado de trabalho. Do ponto de vista internacional, uma verdadeira enxurrada de cursos de MBA no Brasil e levas e levas de alunos indo estudar nos EUA. Eles viriam a ser “intelectuais” da ordem, controlando Bancos Centrais, Ministérios da Fazenda, Ministérios da Saúde, etc. dentro das necessidades do capitalismo financeiro e mundial.

Quais as perspectivas da extensão nas Universidades Públicas nos dias de hoje?

Estamos diante do momento mais complicado da nossa história. No caso brasileiro vivemos um contexto golpista, e uma grande ofensiva contra tudo que é público. As propostas para as universidades públicas são: cobrança de mensalidades, fundos de ex-alunos, recursos das empresas, e por aí vai. Neste contexto é difícil acreditar que possa haver uma guinada extensionista.

E no governo Lula?

No lulismo surgiram alguns projetos interessantes de Educação do campo, fortalecimento de Incubadoras de Cooperativas, o Proext, etc. Estas ações fortaleceram uma ala das universidades públicas, mas nada que representasse uma ruptura na tendência geral da Universidade, que tem como pilares a formação para o mercado de trabalho, a produção de papers, e a extensão mercadológica.

A crise da Universidade traz uma nova oportunidade?

Ainda estou bem pessimista. A esquerda universitária ainda não se atentou que temos que dar um salto no projeto de universidade, estamos na defensiva, tentando barrar a destruição completa da universidade pública. Outros já percebem que este padrão científico tem trazido inúmeros problemas para a comunidade científica, como adoecimento, depressão, mas não sabem bem para onde ir, a tal da “solucionática”. Creio que o livro, construído a partir das experiências práticas de atuação de alguns intelectuais militantes, pode ajudar a esquerda universitária a criticar o cientificismo, o inovacionismo e mais que isso, formas de atuar em pesquisa e extensão junto aos movimentos sociais. O momento é decisivo, ou começamos a remar para o mesmo lado, ou nosso Costa Concórdia chamado Universidade Pública vai afundar rapidamente. Nosso convés está cheio de furos, o capital não precisa mais de nós e os movimentos sociais. Um momento difícil como este exigirá mudanças profundas no papel da universidade pública, sua atuação decisiva na compreensão dos principais determinantes do capitalismo e as formas de superá-lo. Se isso não acontecer, só vão restar os escombros, como diziam os estudantes de Córdoba.

 

Sobre o autor

Henrique Tahan Novaes possui graduação em Ciências Econômicas pela Unesp – Araraquara (2001) e mestrado (2005) e doutorado (2010) em Política Científica e Tecnológica, pela Unicamp. No mestrado estudou o Processo de Adequação Sóciotécnica nas Fábricas Recuperadas brasileiras e argentinas, com financiamento da Fapesp.

Tem experiência em Mundo do Trabalho Associado, Escolas de Movimentos Sociais e relação universidade-movimentos sociais. Foi coordenador (2008-2010) e professor do Curso de Especialização em Economia Solidária e Tecnologia Social na América Latina (Unicamp); e professor do curso de extensão Estado e Políticas Públicas (Unicamp) e do curso Gestão Estratégica Pública (Unicamp).

É pesquisador do Projeto Tecnologia Social (IDRC-Canadá/Unicamp e Universidade Nacional de Quilmes-Argentina). Professor do curso de especialização semi-presencial Gestão Pública e Sociedade (parceria UFT-Gapi/Unicamp) e do curso de especialização Gestão Educacional da Faculdade de Educação, da Unicamp.

É membro dos grupos de Pesquisa Instituto Brasileiro de Estudos Contemporâneos (IBEC-São Paulo); do Grupo de Análise de Política de Inovação (GAPI/Unicamp) e das Organizações e Democracia (Unesp/Marília).

Atualmente, é docente da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp Marília e professor do programa de pós-graduação em Educação.