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Gazeta do Povo

Universidades e pesquisadores não têm visão de negócio

Publicado em 23 janeiro 2011

Em 2004, o então professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) José Fernando Perez perguntou aos alunos durante uma aula: "Vocês sabiam que muitos estudantes do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na sigla em inglês] têm dificuldade para concluir o doutorado porque estão ocupados com as empresas que criaram? E vocês? Quantos já pensaram em abrir sua própria empresa?" Como resposta, o físico recebeu o olhar perplexo dos alunos.

Naquele mesmo ano, Perez deixou a USP e a diretoria científica da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para fundar a Recepta Biopharma, primeira - e, até agora, única - empresa brasileira a fazer um teste clínico de fase 2 de uma terapia para câncer. "Não há ainda a cultura do empreendedorismo na universidade", diagnostica Perez. Para Wagner Gattaz, do Instituto de Psiquiatria da USP, há um "problema de mentalidade, um preconceito difundido [na universidade] de que dinheiro e lucro são nocivos à ciência".

"Até ontem, a prioridade era criar uma comunidade científica respeitável", afirma Jacob Palis Júnior, presidente da Academia Brasileira de Ciências, com um toque de otimismo. "Agora, cresce a consciência de que é preciso trabalhar junto com as empresas para desenvolver o país", complementa.

Para Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, a interação entre academia e indústria é um subcapítulo de um tema mais amplo: a necessidade de aumentar a pesquisa para inovação nas empresas brasileiras, ainda muito incipiente.

De fato, se falta empreendedorismo na universidade, as empresas brasileiras também não se destacam pela inovação. Onúme-ro de patentes brasileiras registradas nos Estados Unidos está estagnado desde 2003. Em 2004, o país registrou 106 patentes. A China registrou 404. Em 2009, o número brasileiro diminuiu para 103. O desempenho da China saltou para 1.655.

Para o físico José Goldemberg, o Estado pode estimular a inovação premiando a produção de bens de consumo que agreguem soluções inovadoras. "É o que aconteceria, por exemplo, se carros menos poluentes pagassem menos impostos." Brito Cruz recorda que não basta política científica para estimular a inovação. "Há outras políticas — como a cambial e a de juros — que também têm um impacto imenso", aponta. Perez concorda: "Ninguém vai investir em algo arriscado como inovação se pode ter lucro garantido em uma aplicação bancária."