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Rota 2014

Universidades e empresas fortalecem parcerias

Publicado em 08 março 2018

Em abril, a fabricante brasileira de aviões Embraer começará a vender o novo jato comercial E190-E2, o primeiro equipado com uma nova tecnologia para reduzir ruídos, desenhada para atender às novas normas impostas por reguladores dos Estados Unidos e da Europa. Mais do que isso, porém, o avião é resultado de um esforço de pesquisa da fabricante em conjunto com cinco universidades brasileiras, uma prova do potencial que a união entre academia e iniciativa privada têm para impulsionar a inovação.

O projeto de redução de ruídos foi coordenado pelo professor Julio Meneghini, do Núcleo de Dinâmica e Fluidos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Iniciada em 2008, a pesquisa de aeroacústica financiada pela Embraer e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) levou a uma série de melhorias que superaram em 13% a meta de redução de ruído no avião.

“Em cerca de quatro anos, a Embraer e a Fapesp investiram cerca de R$ 30 milhões e essa única aeronave vai trazer um ganho enorme para a empresa e para a sociedade”, diz Meneghini.

O pesquisador trabalha em projetos com a indústria desde 1995, quando liderou um grupo de pesquisa com a Petrobrás. Hoje, Meneghini coordena o Centro de Pesquisa para inovação no Gás, financiado pela Fapesp e pela Shell.

Embora a união entre empresas e universidades possa fazer a força, essa relação nem sempre é fácil. Muitos pesquisadores não veem as parcerias com bons olhos. “Alguns colegas veem com alguma suspeita o relacionamento com empresas, mas hoje a maior parte enxerga que esse relacionamento é importante”, conta o diretor do Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Carlos Pinto.

Ainda assim, as parcerias vêm crescendo. Em 2017, a USP firmou cerca de 90 contratos com a iniciativa privada. A expectativa do professor Vanderlei Bagnato, coordenador da Agência USP de Inovação, é de que esse número suba para 100 em 2018. Os investimentos das empresas em pesquisa e desenvolvimento também vem aumentando ao longo dos últimos anos.

Ganha-ganha. Hoje, para os pesquisadores, a cooperação com as empresas é uma forma de financiar pesquisas, colocar seus alunos em contato com problemas de alta relevância social e ganhar visibilidade. “O pesquisador consegue dar um retorno para a sociedade, que, no fim das contas, é quem banca a universidade pública”, afirma Bagnato.

A disposição da universidade ajuda, mas segundo especialistas consultados pelo Estado, a inovação depende essencialmente das empresas. “São as estratégias delas que vão definir o sucesso ou não desse tipo de parceria”, diz o presidente do Conselho Técnico da Fapesp, Carlos Américo Pacheco.

Além do investimento das empresas, é consenso que o governo deve financiar as pesquisas de baixa maturidade. “No Brasil, se confunde muito o que é papel da universidade, do governo e das empresas”, opina Daniel Moczydlower, diretor de desenvolvimento tecnológico da Embraer.

O governo também tem seu papel, segundo os especialistas. Um dos exemplos de mediação positiva é o da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), que é contratada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e pelo Ministério da Educação para fomentar a inovação no País.

A Embrapii certifica centros de pesquisas do País como unidades parceiras, que têm autonomia para fazer parcerias com empresas privadas. Quando um contrato é assinado, a empresa, a universidade e a Embrapi arcam com 33% do custo da pesquisa cada.

Atualmente, há 42 unidades de pesquisa da Embrapii espalhadas pelo País e cerca de 440 projetos acontecendo – do total, somente 11 universidades foram habilitadas. “Elas ainda são minoria, porque os institutos de pesquisas têm mostrado uma eficiência muito maior”, explica o diretor-presidente da instituição, Jorge Guimarães.

Dificuldades. A burocracia e da falta de mecanismos legais, porém, ainda são entraves. “Há amarras legais impedindo que esse relacionamento ocorra de forma fluida”, diz Pinto, da UFRJ. Há algumas tentativas de destravar a burocracia, como o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, publicado em 8 de fevereiro, que se propõe a garantir direitos para facilitar as parcerias público-privadas.

“Com o Marco Legal, está totalmente assegurado que o professor poderá assinar um contrato com uma empresa”, explica a ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader. Antes, os pesquisadores eram impedidos de desenvolver pesquisas financiadas por empresas ou abrir seus próprios negócios se fossem contratados em regime de dedicação exclusiva.

Não é a primeira vez que o governo federal tenta encerrar o problema. Um exemplo é a Lei de Inovação, aprovada em 2004, que tinha como objetivo tornar as atividades científicas em fatores estratégicos para o desenvolvimento econômico e social. “Existe um conjunto grande de empecilhos que precisam ser revisados de tempos em tempos para que esse sistema funcione melhor”, diz Pacheco.