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“Universidades de ponta têm a obrigação de formar líderes”

Publicado em 28 janeiro 2014

Por Silvana Salles

Além da consulta à comunidade, outra mudança na última eleição para a Reitoria da USP foi a inscrição de chapas com candidatos a reitor e vice-reitor. “Como o colegiado escolheu uma dupla, o vice passa a ter uma função mais expressiva no novo mandato”, adianta o professor Vahan Agopyan, empossado no último sábado como vice-reitor, ao lado do reitor Marco Antonio Zago.
Engenheiro civil com doutorado pelo King’s College de Londres, Agopyan é professor titular da Escola Politécnica e tem experiência na gestão acadêmica. Foi diretor da Poli entre 2002 e 2006 e pró-reitor de Pós-Graduação na gestão de João Grandino Rodas (2010-2014). Foi, ainda, diretor-presidente e conselheiro do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), coordenador de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo e membro dos conselhos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Neste entrevista, o vice-reitor fez um balanço da sua atuação na pró-reitoria e fala dos planos da nova gestão.

Jornal da USP – Pela primeira vez as eleições para reitor e vice-reitor da USP foram feitas com o formato de chapas. Isso trará mudanças de fato?
Agopyan –
Sim. Em primeiro lugar, o colegiado escolheu uma dupla, e isso é uma grande mudança. O vice não é mais uma pessoa que terá outra eleição, outro grupo, outra visão. Segundo, como se escolheu uma chapa, o vice passa a ter função mais expressiva no novo mandato. Não é mais apenas o substituto do reitor; ele participa da gestão desde o começo.

JUSP – No programa da chapa e em entrevistas recentes do professor Zago, tem se enfatizado a descentralização, os processos decisórios e a graduação. Quais são as prioridades da gestão?
Agopyan –
Graduação, descentralização e simplificação dos processos administrativos. A graduação, por um motivo: é nossa vitrine e não temos dados sobre ela. Enquanto a pós-graduação tem a avaliação da Capes e as atividades de extensão e cultura têm a resposta do público, na graduação temos certeza de que possuímos cursos excelentes, mas não sabemos se estamos de fato atendendo aos anseios da sociedade. Não temos parâmetros para isso. O nosso alunado tem um comportamento totalmente diferente daquele de dez, vinte anos atrás, e se forma num mundo de mudanças muito rápidas. Por isso, todas as universidades de ponta estão preocupadas com o fortalecimento da graduação, com novos parâmetros para a graduação e, principalmente, em como ministrar as aulas. Uma parte do planejamento é fazer o diagnóstico do perfil dos estudantes, outra é incentivar os professores a atuar mais na graduação. É importante que, quando o professor vai para o exterior, ele não apenas participe de congressos, mas também procure saber como estão sendo ministradas as aulas de graduação, ou qual é a lista das disciplinas da sua área. Nosso egresso tem de ser um líder. Não basta ser um bom profissional; as universidades de ponta têm a obrigação de formar líderes que, voltando à sociedade, contribuirão com a melhoria da qualidade das pessoas. Eles têm que saber organizar o trabalho em equipe multidisciplinar; têm que ter condições de conversar com alguém de outra disciplina e se fazer entender, e de entender o que os outros falam.

JUSP – Na licenciatura, por exemplo, existe esse problema de comunicação entre alunos de cursos diferentes.
Agopyan –
Sim, mas é pior do que isso. Um aluno da USP, para assistir à aula de outra disciplina, tem certa dificuldade. Um aluno que entrou numa área e não se dá bem não tem a oportunidade de mudar. A maneira mais fácil é ele largar o curso e prestar vestibular de novo. Temos vários entraves que são culturais. O professor fala: “minha disciplina é para médicos, não vou deixar uma pessoa da Odonto assistir, porque não vai conseguir acompanhar”. Nós temos na Poli e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) um duplo diploma interno da USP para alunos da Engenharia Civil e da Arquitetura. É fantástico. É outra cultura, outro interesse, enriquece a disciplina. Meus colegas da FAU dizem o mesmo sobre os alunos da Poli.

JUSP – E quanto à descentralização?
Agopyan –
É basicamente o que já fizemos na pós-graduação. Os órgãos centrais fazem o acompanhamento e a avaliação, mas não entram na execução das ações. Adianta um pedido de licença-maternidade de uma aluna vir até mim? Era assim que funcionava. Ou então: chega um professor fantástico, de renome internacional, e queremos dar uma disciplina de pós-graduação. Só que os processos na pró-reitoria demoram três meses. Aí o professor estrangeiro já se foi. Então o que se fazia era dar o curso sem o nome do professor. Para funcionar bem, uma atividade não precisa de uma assinatura da pró-reitoria. Nós podemos aprovar as diretrizes aqui e acompanhar o que é feito.

 

JUSP – A pós-graduação já funciona mais descentralizada?
Agopyan –
Desde o começo de 2013. O Conselho Universitário aprovou um novo Regimento em março e nós estamos aprovando os regulamentos agora. A reunião do conselho já não tem mais aquela lista enorme de coisas burocráticas. As atividades administrativo-financeiras também podem ser descentralizadas ou dinamizadas, e isso é feito através de uma análise e aperfeiçoamento do processo. Eu sempre cito o exemplo da emissão do diploma de graduação. Demorava um ano e meio para sair porque o processo tinha 142 etapas. Discutindo com o responsável, reduzimos para 40 passos. Agora demora 3 meses. Nas atividades-fim, é obvio que a descentralização é importante. Eu não sei se as disciplinas que foram definidas no programa de História Econômica, por exemplo, são as melhores. Não vou dar palpite. Vou dar outro exemplo chatíssimo: para substituir uma referência bibliográfica de disciplina de graduação, passa-se por sete conselhos. Depois do segundo, ninguém sabe nem o título da disciplina. Para que passar eles? Que contribuição eles darão? A centralização não dá a agilidade necessária.

JUSP – Que balanço o senhor faz da sua gestão na pró-reitoria?
Agopyan –
Nós seguimos as diretrizes da USP e prezamos pela qualidade. E, para mantê-la, tivemos três eixos de trabalho muito importantes. O primeiro foi de apoio decisivo aos programas. Tínhamos grupos de trabalho que acompanhavam os programas com as piores avaliações da Capes e os novos programas. Dentro dessa linha, houve uma mudança de cultura e acho que o resultado foi muito bom. Outra linha muito importante foi a internacionalização, entendendo-se por isso não somente mandar aluno para o exterior, mas criar um ambiente internacional de ensino e pesquisa. O terceiro aspecto foi a preocupação com agilidade e avaliação. Aí foi possível alterar o Regimento. Implantamos uma avaliação que utiliza as diretrizes que a Universidade definiu como importantes. E também conseguimos fazer o primeiro programa interuniversidades nacional, juntando USP, Unesp e Unicamp: é o doutorado em Bioenergia, que já fez a seleção de alunos e começará agora em março.