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Universidades brasileiras precisam medir impacto, dizem especialistas

Publicado em 29 outubro 2021

Tema foi abordado em evento promovido pela SBPC para profissionais ligados à gestão de instituições de ensino superior

O Brasil tem algumas das mais bem classificadas universidades do mundo e alguns dos pesquisadores mais citados a nível global em temas como, por exemplo, mudanças climáticas. “Mas isso não aparece em nossos indicadores como deveria”, apontou Luiz Claudio Costa, presidente do IREG Observatory, uma associação institucional internacional dedicada a classificações universitárias e excelência acadêmica.

Ex-ministro da Educação (2015), ex-reitor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Costa se referia ao tema do seminário “Rankings e comparação internacional de universidades: o caso do THE Impact Rankings e o compromisso com os ODS”. Promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o evento foi virtual e fechado para um público dedicado à gestão de universidades.

Iniciais de Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, os ODS fazem parte da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). Aprovada durante a Assembleia Geral de 2015, a Agenda 2030 traz um plano de ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir paz e prosperidade no mundo até o ano 2030. O plano está sintetizado nos 17 ODS.

Especialista em avaliações, Costa falou sobre a atividade do IREG Observatory e da articulação dos rankings das universidades com os ODS. A instituição monitora 20 rankings globais, seis por temas, sete regionais, doze de escolas de negócios e dois que medem sistemas nacionais. Segundo ele, os rankings servem não apenas para comparar universidades, mas também para a competição por recursos internacionais de investimentos e bolsas de estudos. “Acho que a contribuição mais importante dos rankings para as universidades é (ajudar a desenvolver) essa capacidade de organização”.

Durante o evento, Costa destacou o Times Higher Education (THE) Impact Ranking, lançado em 2018, cujo objetivo é trabalhar com os 17 ODS. “A ideia do THE é que as universidades devem promover não apenas a igualdade, mas também a equidade, daí utilizar os ODS”, afirmou. A medição não é apenas sobre a pesquisa, mas também ensino, gestão e divulgação.

Para o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), Jacques Marcovitch, também palestrante no seminário, os ODS podem ajudar as universidades a responder aos desafios na construção de uma nova era no contexto das várias crises dos anos 2020 – sanitária, econômica, social, política e geopolítica, transição digital, sustentabilidade ambiental e cooperação internacional. “As metas da Agenda 2030 não serão atingidas a tempo, devido à crise sanitária. Mesmo assim convém vê-las como elementos estruturantes”, afirmou.

Ex-reitor da USP (1997-2001), Marcovitch acumula sua atividade acadêmica com a participação no Conselho Superior do Graduate Institute of International and Development Studies (IHEID), em Genebra onde reside. Desde 2018, ele conduz o projeto Métricas, de indicadores de desempenho acadêmico e comparações internacionais.

Contratado pelo Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do estado (Fapesp), o Métricas analisa periodicamente diversos rankings para a USP, Unicamp e Unesp, inclusive o THE Impact. Também produz relatórios e mantém cursos e consultorias para as instituições, atendendo mais recentemente também universidades federais. “O objetivo do projeto é aprimorar a governança das instituições, identificar os componentes de políticas públicas sobre indicadores de desempenho nas universidades entre outros”, explicou Marcovitch.

A mensuração de resultados se refere à disseminação do conhecimento, enquanto as de impacto tem como foco a ênfase no bem-estar humano e na sustentabilidade, especialmente em países como o Brasil em que a desigualdade social é muito presente. “A diferença é que enquanto as métricas de resultados são avaliadas pelos pares, as de impacto incluem os pares, mas também os usuários dos serviços e os beneficiários do conhecimento”, esclareceu o coordenador do projeto.

O presidente da SBPC, Renato Janine Ribeiro, observou que os ODS têm forte teor social e fazem parte de um conjunto de questões que estão se tornando cada vez mais importantes para uma espécie de nova ética pública. “Penso que isso tudo surge de uma preocupação ética muito grande na política educacional e de como conduzir a governança”, comentou Ribeiro.

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