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Agência C&T (MCTI)

Universidades brasileiras formam mais doutores do que norte-americanas

Publicado em 24 novembro 2007

Além de o Estado de São Paulo ter a maior produção científica da América Latina, nos Estados Unidos não há nenhuma universidade que forme mais doutores por ano do que a Universidade de São Paulo (USP) ou a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A comparação foi feita por Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, no painel "Políticas de inovação e parcerias público-privadas: o que precisa ser feito", realizado na capital paulista, durante o seminário O Desafio da Inovação no Brasil.

Brito Cruz ilustrou com um ranking do número de doutores formados por ano em universidades paulistas e norte-americanas. A USP aparece em primeiro lugar por formar, todos os anos, cerca de 2 mil doutores, seguida da Unicamp, com cerca de 870.

Em terceiro lugar aparece a Universidade da Califórnia em Berkeley, com média de 769, seguida da Universidade do Texas em Austin, com 702, e da Universidade da Califórnia em Los Angeles, com 664 doutores formados anualmente. "Temos capacidade de produzir conhecimento altamente competitivo mundialmente, o que seria suficiente para inovarmos mais. Mas, como o foco da inovação deve estar nas empresas, há forte desequilíbrio no aproveitamento dessa capacidade científica pela indústria nacional", disse.

Uma das causas é que, do total de cientistas brasileiros, apenas 23% (menos de 20 mil) desenvolvem pesquisas em laboratórios industriais, enquanto que na Coréia do Sul e nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 54% (94 mil) e 80% (790 mil) dos cientistas, respectivamente, estão empregados nas indústrias para o desenvolvimento de produtos e processos inovadores.

Brito Cruz apresentou outros dados que ilustram a relação entre a capacidade da indústria em ter idéias relevantes que podem gerar patentes e o número de cientistas trabalhando em seus laboratórios.

"Na Espanha, país cujas condições de trabalho se aproximam das brasileiras e que também não tem nenhuma universidade que forma mais doutores que a USP, Unicamp ou Unesp [Universidade Estadual Paulista], as indústrias têm muito mais capacidade de trabalhar com conhecimento científico do que as paulistas. Naquele país, pouco menos de 60% dos cientistas trabalham na indústria", destacou.


Inovação nas empresas brasileiras

De acordo com a Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (Pintec 2005), do IBGE, um terço das empresas industriais brasileiras, pouco mais de 30 mil, diz fazer algum tipo de inovação, seja em produtos ou processos. O Estado de São Paulo reúne 35,3% das empresas industriais inovadoras e, do total do gasto industrial em inovação em todo o país, mais da metade (55,6%) foi efetuada pelas empresas paulistas.

Além da falta de cientistas na indústria, Brito Cruz afirmou que a desconfiança institucional dos empresários pode ser outra causa potencial da baixa atividade inovativa da indústria brasileira.

Ao citar a Lei da Inovação (10.973/04) e a Lei do Bem (11.196/05), o diretor científico da FAPESP ressaltou que, "como as estratégias de inovação das empresas são feitas para durar uma ou duas décadas, a falta de confiança na continuidade dos recursos concedidos por meio dos marcos regulatórios é também um grande problema a ser analisado."


Complexidade das políticas brasileiras

Carlos Américo Pacheco, secretário-adjunto da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, também presente no encontro, complementou dizendo que a atividade de inovação no Brasil pode ser comparada com um copo meio cheio ou meio vazio.

"Não tenho dúvida de que fizemos razoáveis progressos nos últimos anos, a começar pela explícita inserção do tema inovação na agenda das instituições públicas e privadas. Mas, por outro lado, nosso desempenho ainda é frágil devido à complexidade das políticas brasileiras de estímulo à inovação", afirmou.

Fonte: Agência Fapesp