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Universidade vai estudar safra da cana

Publicado em 04 dezembro 2006

A próxima safra paulista de cana será objeto de uma pesquisa acadêmica para monitorar a saúde dos bóias-frias que realizam a colheita. O trabalho será conduzido pelo professor da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) Erivelton Fontana de Laat. Em três anos, 17 cortadores de cana morreram por exaustão nos canaviais do Estado de São Paulo, segundo o procurador do Trabalho Aparício Salomão.
O procurador falou sobre as mortes durante simpósio de saúde e segurança no campo realizado pela Procuradoria Regional do Trabalho da 15 Região, em Campinas, na última sexta-feira. De acordo com ele, foram quatro mortes em 2004, nove em 2005 e mais quatro este ano.
Para Salomão, as mortes são resultado das péssimas condições de trabalho e de vida desses trabalhadores, mas em especial pela política de pagamento por produção adotado pelas usinas. "Trata-se de um trabalho penoso, extenuante, no qual ganha mais quem produz mais, numa situação clara de superexploração".
A pesquisa a ser desenvolvida pelo professor Fontana vai traçar um paralelo entre o esforço físico e os limites do corpo. A suspeita é de que as mortes tenham ocorrido em conseqüência do chamado "colapso pelo calor e esforço induzido". Em geral, esse tipo de colapso atinge atletas de alto rendimento que participam de competições de longa duração e que exigem esforços intensos. Segundo o professor Fontana, as circunstâncias das mortes de trabalhadores nas lavouras de cana são semelhantes às de atletas mortos citados no estudo do norte-americano William O. Roberts, professor da Escola Médica da Universidade de Minnesota (EUA). Em ambos os casos, havia a combinação de calor intenso com a necessidade premente de superar os próprios limites.
De acordo com o estudo do professor Roberts, citado por Fontana no simpósio, o colapso pelo calor e esforço induzido é um risco para atletas que treinam ou competem em condições de umidade quente, especialmente quando o calor e a umidade são inesperadamente altos ou acima das condições normais. Geralmente, atinge atletas que disputam maratonas, mas há registros de casos entre jogadores de futebol.
Aliado às condições de clima e do ambiente, o estudo mostra que o colapso é decorrente também de uma "desenfreada vontade de atingir e exceder limites", exatamente como ocorre com os trabalhadores que ganham pela quantidade de cana e cortam.
O estudo americano mostrou que um atleta entra em colapso quando a temperatura do corpo supera os 40 graus - há registros em que chegou a 45. Em seguida, aparecem os sintomas de fadiga: a pessoa demonstra fraqueza, sente tremores e tonturas. O julgamento fica prejudicado e se verifica mudanças sutis de personalidade - há casos em que sofre uma espécie de delírio.
Na seqüência, o indivíduo passa a sentir o que os médicos chamam de hiperventilação (respiração arquejante como fazem os cachorros, por exemplo), seguida de uma hipotensão (queda brusca e acentuada na pressão arterial) e taquicardia. As taxas de batimento cardíaco chegam a 100 por minuto, mas geralmente superam 150, quando a partir daí o coração começa a falhar. O indivíduo entra em depressão, a pele fica empalidecida e há registros em que passa a sofrer convulsões.
Muitos desses sinais, diz o professor Fontana, foram verificados em cortadores de cana que trabalham sob temperaturas altíssimas e com equipamento de segurança que impedem a circulação do ar pelo corpo. "Mas como, em geral, não há necrópsias, o processo que provocou as mortes permanece desconhecido", diz.

Pesquisa
A partir de abril e maio - quando começa a safra 2007 -, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Fontana pretende monitorar clinicamente um grupo de 50 cortadores de cana. Cada um dos trabalhadores será monitorado praticamente o dia todo.
De manhã, antes de ir para a lavoura, cada indivíduo será pesado e terá medida sua temperatura corporal e a porcentagem de gordura. Ao longo do dia, serão medidas a perda de água e a freqüência cardíaca. O estudo pretende avaliar também os efeitos que os movimentos repetitivos do corte da cana podem provocar no organismo. O trabalho de acompanhamento será feito durante todo o período da safra, que pode durar até oito meses.
Diante disso, os dados só deverão estar tabulados no ano seguinte. "Acho que a gente só vai conseguir ter um quadro consistente lá pelo final de 2008", prevê.