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Universidade dribla entraves para ficar mais internacional

Publicado em 17 outubro 2011

Por MORRIS KACHANI

A crise financeira global está proporcionando uma oportunidade de crescimento ao ensino superior brasileiro de ponta. Com o orçamento das universidades americanas e europeias encolhido e a redução dos postos de trabalho, um contingente qualificado de professores, pesquisadores e alunos do mundo todo começa a mirar instituições fora do eixo tradicional.

Atualmente há 3 milhões de alunos que estudam em países estrangeiros. A previsão é que serão 7 milhões em 2025. É uma demanda global superior à oferta dos cursos oferecidos, de acordo com especialistas.

Na teoria, o cenário brasileiro é dos mais atraentes, tanto para o corpo docente quanto para pesquisadores e estudantes: moeda forte, economia em expansão e ausência de mão de obra habilitada em vários setores do mercado. Mas, na prática, há muitos desafios pela frente.

A burocracia envolvendo a concessão de vistos de permanência e trabalho, a abertura de conta em banco e a locação de imóveis; a barreira do idioma -pouquíssimos são os cursos em que se fala o inglês nas universidades, e os concursos públicos são em português.

Além disso, há a dificuldade em validar currículos estrangeiros, o calendário acadêmico brasileiro, que não se comunica com as universidades do hemisfério Norte; a ausência de uma política salarial mais flexível nas universidades públicas e outras questões de governança atreladas à legislação.

"Como é que eu vou trazer um ganhador do Prêmio Nobel para lecionar na Unicamp se o salário dele tem que ser obrigatoriamente igual ao dos outros professores?", questiona Marcelo Knobel, professor de física e pró-reitor de graduação da Unicamp. "O sistema educacional brasileiro é engessado, não oferece muitos mecanismos. Dentro dessas limitações, até que temos conseguido bons resultados", diz.

Knobel é autor de estudo recente sobre a internacionalização das universidades brasileiras, publicado no periódico do Center for Higher Education da Universidade Berkeley, na Califórnia.

O argumento é que a internacionalização oxigena a produção de conhecimento, com o intercâmbio de informação e parcerias professor- pesquisador, e a diversidade cultural no campus.

Em seu estudo, Knobel identificou uma tendência global de redução dos gastos públicos com universidades, que acabam transferindo a conta para os estudantes. Por isso, as bolsas adquiriram maior importância. Nesse ponto, o Brasil vai bem."Além do interesse dos pesquisadores, ajuda o fato de termos uma boa oferta de bolsas de estudo com valores bastante competitivos internacionalmente", diz.

Ele cita a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) como exemplo. O grau de internacionalização das universidades brasileiras ainda é tímido. Na Unicamp, por exemplo, é de 3% dos alunos na graduação e 5% na pós. Pouco se comparado com os 20%, 30% ou 40% de algumas universidades do hemisfério Norte.

Na USP, são 2.000 estrangeiros em um universo de 80 mil (2,5%). E cerca de 200 professores visitantes, entre os mais de 6.000 totais. Adnei Melges de Andrade, vice-reitor de relações internacionais da USP, fala em investimentos em infraestrutura para acolher maiores demandas.

"Já compramos dois prédios no centro de São Paulo para acomodar os estrangeiros, oferecemos cursos de português e vamos criar um centro para estudantes e professores", diz.

Uma análise dos vários rankings indica a presença crescente de universidades de países que até pouco tempo atrás não frequentavam essas listas. A China é um exemplo notório, tendo repatriado muitos dos seus acadêmicos. Cingapura, Malásia, Coreia do Sul e os países ricos do golfo Pérsico também seguem essa trilha, com pesados investimentos e um plano estratégico de expansão.

REFERÊNCIA

No último ranking global da Times Higher Education, a USP aparece como a única latino-americana entre as 200 melhores, ocupando a posição 178 -no ano passado, estava em 253. E o ranking da QS a coloca como a melhor da América Latina. A Unicamp, em terceiro. Em artigo recente, a revista "Economist" enalteceu o resultado e lembrou que a USP está se tornando referência mundial em medicina tropical e biocombustíveis.

Mas levanta a questão do financiamento exclusivamente estatal das universidades públicas, onde "os estudantes não pagam nada, os funcionários não podem ser demitidos e o currículo é antiquado e politizado". Apenas 1,1% do PIB brasileiro é gasto com ciência e tecnologia, média inferior à maioria dos países desenvolvidos e de muitos em desenvolvimento. O Brasil tem uma média de 1,4 pessoa com doutorado para mil, comparado com 15,4 na Alemanha, 8,4 nos EUA e 6,5 no Canadá.

Frase

"Como é que eu vou trazer um ganhador do Prêmio Nobel para lecionar na Unicamp se o salário dele tem que ser obrigatoriamente igual ao dos outros professores?"

MARCELO KNOBEL
professor de física e pró-reitor de graduação da Unicamp

 

Fonte: Folha de São Paulo