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Universidade "do futuro" será interdisciplinar, à distância e com financiamento público

Publicado em 13 agosto 2010

Formação interdisciplinar, ensino a distância e financiamento público foram temas presentes no 1º Ciclo de Debates "A universidade pública brasileira no decorrer do próximo decênio", realizado na quarta-feira (11) no campus da Unesp na Barra Funda, na capital paulista.

Participaram dos debates os professores Olgária Matos, da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Luiz Antonio Constant Rodrigues da Cunha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Gerhard Malnic (USP), Naomar Monteiro de Almeida Filho, ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Hélio Nogueira da Cruz (USP) e Marco Aurélio Nogueira (Unesp). Abriram a sessão o reitor da Unesp, Herman Jacobus Cornelis Voorwald, e o secretário de Ensino Superior do Estado de São Paulo, Carlos Vogt.

Um dos objetivos do debate era expor o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da Unesp à comunidade científica nacional. O documento, que traça metas para um período de dez anos da universidade, foi apontado por Júlio Cezar Durigan, vice-reitor da Unesp, como uma forma de combater gestões personalistas e a falta de continuidade de projetos nas universidades. O vice-reitor da USP, Hélio Nogueira da Cruz, lamentou o fato da Universidade de São Paulo ainda não ter criado o seu PDI.

Interdisciplinaridade

O ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Naomar Monteiro de Almeida Filho apresentou o projeto "Universidade Nova", implantado naquela universidade, como resposta à crescente demanda pelo aumento de vagas no Ensino Superior público e também às críticas à falta de uma formação mais abrangente.

Em sua gestão, foram criados bacharelados interdisciplinares em quatro áreas: Artes, Humanidades, Saúde e Ciência e Tecnologia. Com eles, o aluno estuda uma lista mínima de disciplinas obrigatórias e preenche o resto do currículo com optativas. Ele defendeu que o modelo permite ocupar vagas ociosas em disciplinas de cursos já existentes, dá liberdade ao aluno para experimentar antes de definir sua carreira, reduz a evasão e cria formações multidisciplinares.

Luiz Antonio da Cunha, porém, criticou modelos de bacharelados mais rápidos e também o modelo de ciclos básicos - como o implantado na UFBA. Para o sociólogo da UFRJ, são maneiras de acelerar a formação e baratear custos, mas que nem sempre estão vinculadas à manutenção ou ao aumento da qualidade.

Financiamento público

De acordo com Gerhard Malnic, da USP, o dinheiro público destinado ao ensino superior no Brasil não só é muito menor do que se acredita, como também é bem inferior ao que é investido para esse fim em países desenvolvidos. Segundo o cientista, cerca de 30% da educação de terceiro grau é oferecida por intuições públicas, enquanto nos EUA o índice é de mais de 60%, na França esse número beira os 90% e no Reino Unido apenas a Universidade de Buckingham não é pública. O custo de cada aluno para os cofres do governo também é menor aqui: varia de 4,5 mil a 8 mil dólares, contra uma média de 12 mil dólares no Canadá e 11 mil nos EUA, por exemplo. "Muito se fala em participação do setor produtivo nas universidades, mas essa é uma forma de complementar o financiamento, e não de substituir a participação do Estado", diz Malnic.

Ensino a distância

A "universidade da próxima década" terá boa parte de sua função educacional cumprida a distância, segundo vários participantes presentes nos debates. O vice-reitor da Unesp acredita que o ensino a distância é capaz de atender mais pessoas e apresentar qualidade igual ou até superior à modalidade presencial. Ele também destacou a importância das tecnologias de informação e comunicação nas aulas presenciais e na gestão da universidade.

Pós-modernidade

Em contraponto ao otimismo de alguns colegas, Olgária Matos, professora de filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), falou sobre a transformação do ensino em mercadoria e o esvaziamento do discurso científico no futuro da universidade. "Na universidade dita moderna, anterior à atual [pós-moderna], não se fazia a pergunta "para que serve a cultura?", tão comum nos dias de hoje. A questão era: "de que a cultura pode nos liberar?"."

Para a professora, o excesso de pragmatismo da "universidade pós-moderna" a impede de se aprofundar. Sua natureza seria pautada sempre pela mudança incessante de métodos de estudo e pela dificuldade de diferenciar pesquisa e produção. Ela acredita que a aplicação dos mesmos critérios de avaliação de produtividade das áreas de Exatas e Biológicas à de Ciências Humanas é um reflexo desse comportamento. "Exigir que um teórico da minha área, por exemplo, publique dois artigos inéditos todo ano é ridículo. Será que alguém acredita que um pensador pode ter duas ou três idéias brilhantes ao ano?"

*Com informações da Agência Fapesp e da Unesp.