Notícia

Gazeta Mercantil

Universidade cria plástico ecológico

Publicado em 02 fevereiro 2000

Por Solange Poli* - de ltatiba
Uma equipe da área de Engenharia da Universidade São Francisco, no campus de Itatiba, a 90 km ao norte da Capital, desenvolve há cerca de três anos um projeto de pesquisa sobre plásticos biodegradáveis. O resultado mais recente é um produto com custo, resistência e acabamento semelhantes a plásticos de alta tecnologia, porém com um tempo de decomposição de apenas 64 dias. Na próxima quinzena, a equipe testará produtos para identificar aplicações mais convenientes para o mercado. De acordo com Derval dos Santos Rosa, doutor em Engenharia Química, o plástico desenvolvido passa atualmente pelo processo de patente. Uma das metas neste semestre é avaliar as possíveis parcerias com empresas da região. Segundo Rosa, que coordena a pesquisa, as matérias-primas utilizadas na produção do plástico são celulose, amido e acetato. Também integram o trabalho de pesquisa alunos dos cursos de Engenharia Mecânica e Civil. O novo produto foi obtido pela mesclagem de amostras de polímeros (estruturas químicas com alto peso molecular) biodegradáveis produzidos pela Copersucar e pela Union Carbide, com substâncias naturais de baixo custo. A modificação dos polímeros torna-os mais baratos em relação aos já existentes, com desempenho satisfatório. O componente biodegradável do plástico permite que, no contato com os microorganismos do solo, ocorra a degradação devido à ação de materiais orgânicos e inorgânicos. O tempo de decomposição dos plásticos convencionais, segundo Rosa, pode se estender de 70 a 100 anos, alguns até a 300 anos. No Laboratório de Polímeros Biodegradáveis da Universidade São Francisco foram necessários 64 dias para a deterioração completa do plástico, com a utilização de componentes ativos com pH diferentes. Nos próximos quatro meses serão identificadas as propriedades do novo polímero e suas aplicações, que vão desde embalagens até brinquedos e artigos domésticos. Segundo o coordenador da pesquisa, a previsão é de que ele seja aproveitado principalmente em embalagens, que correspondem a 40% dos 2,2 milhões de toneladas de plásticos produzidos anualmente no País, conforme levantamento feito pela faculdade. "Somente no Estado de São Paulo são jogadas no meio ambiente 900 mil toneladas ao ano de resíduos plásticos", afirma. O laboratório conta com uma máquina injetora, adquirida por meio de um convênio com uma empresa não citada pelo coordenador. A injeção de produtos acabados, como frascos, permitirá identificar as aplicações mais convenientes, que não alterem o tempo de vida do produto final. Os resultados da pesquisa foram obtidos em etapas, envolvendo desde levantamentos sobre as causas do processo de biodegradação até a definição das matérias-primas. Conforme Rosa, que não revela custos nem investimentos, os projetos de pesquisa são realizados graças ao incentivo da própria faculdade e aos convênios com empresas privadas. O assunto permite uma interação técnica entre professores brasileiros e estrangeiros, principalmente em eventos que reúnem pesquisadores e representantes da cadeia produtiva de plásticos. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), vinculado à Secretaria de Ciências e Tecnologia do governo do Estado, pesquisa os plásticos biodegradáveis desde 1992. * da GZM/Planalto Paulista PENAS COMO MATÉRIA-PRIMA Realmente interessado em plástico ecologicamente correto? Então esqueça sobre a manipulação do milho e de genes de bactérias e procure um processo realmente sustentável e uma fonte renovável de fibras. Assim pensa Walter Schmidt, que trabalha para o Serviço de Pesquisa Agrícola dos Estados Unidos. Sua proposta é usar as penas da humilde galinha. Ele já produziu diferentes tipos de plástico usando essas penas. A idéia não é tão absurda quanto parece. Penas são feitas de queratina, uma fibra de proteína que tem a mesma resistência que fibras sintéticas. Portanto, raciocina Schmidt. é possível substituí-las por essas fibras. E penas existem aos montes, são baratas e praticamente desperdiçadas em países onde frangos são produzidos em grande quantidade. Só que fazer plásticos de penas não é simples. Primeiro, as únicas penas úteis são aquelas que saem da haste central. Separar a haste da pena é difícil, mas Schmidt acredita que já encontrou a maneira de fazê-lo, com uso de pressão controlada. No entanto, depois do processo de separação, as penas úteis e a haste acabam misturadas, e as penas devem ser aspiradas. O problema é saber se na aspiração só as penas foram coletadas, já que o diâmetro dessas partículas é da ordem de 6 milionésimos de milímetro. Para fazer isso, dois instrumentos são utilizados: um calorímetro que mede as propriedades térmicas da mistura, e um espectrômetro que mede as propriedades químicas. Uma vez que o produto esteja razoavelmente purificado, ele pode ser prensado para produzir o material com propriedades plásticas. Mas nem isso é fácil. As penas queimam se aquecidas demais, portanto a temperatura e a pressão não podem passar de um certo limite. Schmidt afirma que várias empresas estão testando seu método para produtos como fraldas biodegradáveis. E em breve o produto pode estar no mercado. (The Economist)