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Jornal de Piracicaba online

Universidade, Ciência e Tecnologia (2)

Publicado em 04 abril 2006

Por Antônio Carlos Neder
Cada vez mais consciente de sua vulnerabilidade tecnológica, o setor de produção brasileiro já dá os primeiros passos na direção da autonomia.
O número de centros de pesquisas e desenvolvimentos industriais e agrícolas nos setores privados e estatais tem crescido em número e qualidade nos últimos anos, empregando cada vez mais cientistas e tecnólogos de alto nível. O avanço brasileiro nas áreas da indústria aeronáutica, de telecomunicações e da agricultura em geral só foi possível graças à existência de uma sólida estrutura de pesquisa e desenvolvimento na retaguarda, onde também se inclui a universidade.
O governo federal não tem dado mostras concretas de empenho atualmente, na promoção de desenvolvimento educacional e da pesquisa científica. A mudança constante de ministros e a não-conclusão de metas previamente estabelecidas são fatores negativos.
A falta de apoio educacional ao norte do país, a política negativa do ensino médio e o não-incentivo à criação dos cursos técnicos profissionalizantes, são pontos a serem revistos com urgência.
Por outro lado, o governo estadual tem dado demonstrações de apoio, embora tímido, na direção da eliminação das perdas sofridas pelo Sistema de Ciências e Tecnologias, com o secretário de Ciência e Tecnologia, João Carlos de Souza Meirelles, que tem se mostrado receptivo a esses problemas.
Assim a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo tem se despontado como exemplo dessa tentativa de evolução. Seu presidente, Carlos Vogt, muito tem feito nesse sentido, incentivando e divulgando os pesquisadores por meio do órgão oficial da FAPESP: a revista mensal Pesquisa. Voltando às universidades, resta ainda conseguir-se recuperação, mesmo que parcial, dos salários dos servidores e pesquisadores. Essas instituições, por sua vez, deveriam lutar mais por suas autonomias financeiras, criando mecanismos de receitas próprias, como cursos e atividades noturnas. Os cursos técnicos profissionalizantes deveriam ser privilegiados nesses horários ociosos da universidade.
As pesquisas científicas devem ser estimuladas e controladas em benefício da universidade tanto como detenção de patentes, com alguma vantagem financeira auferida pela indústria e pelo comércio, que se beneficiam desses resultados. Na Unicamp temos como organismo controlador a sua fundação —— Funcamp —— restando apenas fazer algumas modificações para atualizar o sistema.
As três funções básicas da universidade, nunca é demais repetir, são: formar pessoal, gerar conhecimento de qualidade e prestar serviço à comunidade. Em um país como o nosso, no entanto, com problemas sociais seríssimos a resolver, a universidade tem que se envolver necessariamente com o Brasil real, nas suas mais variadas facetas e prestar sua colaboração. Infelizmente, a estrutura da universidade atual é implantada em um contexto de crescimento rápido, impede experimentações avançadas de ensino, assume a pós-graduação, mas encara com desconfiança a interação mais íntima com as forças produtivas da sociedade. Modificações estruturais são necessárias para abrir a universidade ao país, mesmo em instituições jovens como a Unicamp, que tem se destacado pela flexibilidade na interação interna.
O processo de formação de competência nacional, científica ou tecnológica, envolve necessariamente a universidade, onde é educado o profissional de alto nível. Esta compreensão deve ser traduzida em apoio efetivo, seja financeiro, seja político, às atividades universitárias para eliminar distorções existentes. Com competência nacional e vontade política, temos condições de viabilizar o país.
Antônio Carlos Neder é ex-presidente da Funcamp e ex-coordenador geral das faculdades da Unicamp