Notícia

O Dia (SP)

Universidade aguarda projeto de longo prazo

Publicado em 03 janeiro 2004

No mês de novembro, o Governo realizou em Brasília o "Seminário Internacional Universidade XXI" visando debater os novos caminhos da educação superior no Brasil. O tema é de suma importância, já que o gasto de 1% do PIB com educação superior não vêm atingindo os resultados desejados. Hoje, as universidades públicas oferecem só 16,7% das vagas no Vestibular, 50% do que representavam 12 anos atrás. O ministro da Educação, Cristovam Buarque, defende medidas que promovam a "refundação" da universidade brasileira. Entre elas estaria a seleção de estudantes dentro das escolas secundárias e o estímulo ao ensino à distância. Os itens são importantes, mas fazem parte de vários outros que têm de ser analisados. É preciso autonomia para gerar conhecimento Um dos pontos é relativo ao papel da universidade pública, que tem de ser o de gerar conhecimento e educar pessoas que possam desenvolver um trabalho em prol da nação no futuro; e, além disso, desenvolver pesquisa de ponta e servir como núcleo de apoio social. Universidades como a USP, por exemplo, são tidas como grandes fontes de pesquisa e tecnologia no País. Para o presidente da Fapesp e ex-reitor da Unicamp, Carlos Vogt, não haveria sequer outras instituições brasileiras com preparo adequado para cumprir as atividades que a universidade pública em geral realiza do ponto de vista da pesquisa e do ensino. O problema é que há muita heterogeneidade e, além de boa parte das universidades federais e estaduais terem atuação limitada devido à pouca autonomia, também falta discutir melhor os temas atuais, como a questão do ensino à distância ou a formação das cotas. Um projeto de autonomia financeira responsável prevê a autonomia vinculada à prestação de contas. Em São Paulo, USP, Unicamp e Unesp já têm autonomia e arrecadação vinculada ao ICMS; e os resultados só comprovam o benefício. Desde 1989, quando foi instituída a autonomia, a Unicamp, por exemplo, aumentou o número de vagas de 6 mil para 12 mil, criou 16 novos cursos noturnos e viu o percentual de professores com doutorado passar de 45% para 95%. Gastar mais ou melhor? Um dilema a ser resolvido Para a Andifes, associação dos dirigentes das universidades federais, o investimento atual do governo na universidade pública é insuficiente. A quantia que está em R$ 525 milhões atualmente teria de ser de ao menos R$ 1 bilhão anual, segundo os cálculos da associação. Mas há outra vertente, da qual faria parte, por exemplo, o economista Ricardo Paes de Barros, do Ipea. Ele acredita que o Brasil foca mal seu orçamento. A porcentagem mais pobre da população, por exemplo, ficaria com zero dos gastos públicos relacionados à educação universitária. - Grande parte das universidades brasileiras ainda funciona seguindo um modelo departamental, onde cada área do saber é centralizada e separada das demais. O problema deste modelo é a falta de unificação do conhecimento, que acaba prejudicando o andamento de pesquisas e diminuindo a qualidade de certos cursos. Um bom exemplo do uso eficiente de interdisciplinaridade acontece nos Estados Unidos. Na Universidade do Sul da Califórnia, a USC, um professor de jornalismo, por exemplo, pode lecionar na Escola de Relações Internacionais, e vice-versa. São criados cursos interdisciplinares que oferecem visão mais geral. Na Universidade de Notre Dame (EUA) no programa John W. Gallivan Program in Journalism, estudantes escolhem três dentre cinco disciplinas em áreas diversas, ministradas por professores de outros departamentos. Sem programas de pós-graduação, a Notre Dame oferece aos alunos um algo a mais no currículo.