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IDEC

Universalização desigual

Publicado em 28 abril 2006

Por Thiago Romero
Uma visão transversal da saúde no Estado de São Paulo veio a público na noite desta quinta-feira na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP). Um dos grupos de pesquisa da instituição apresentou, em forma de livro, os resultados de um projeto de pesquisa, feito a partir de dados coletados com 6.819 pessoas.
O mapeamento do estilo de vida, do uso dos serviços médicos e de como anda a saúde da população ocorreu em quatro regiões da Grande São Paulo, em Campinas e na cidade de Botucatu. As entrevistas ocorreram entre os anos de 2001 e 2002.
"Os dados mostram que o Sistema Único de Saúde (SUS) universalizou os serviços. Mas, em compensação, identificamos diferenças no acesso a exames mais complexos, como a mamografia e o papanicolau", disse Chester Luiz Galvão, atual diretor da FSP e um dos autores do livro à Agência FAPESP.
"Como requerem tecnologias mais avançadas, esses serviços acabam sendo oferecidos pelo sistema privado", explica o epidemiologista. A maior desiguladade detectada pela pesquisa, entretanto, está no setor odontológico. "Essa é uma área pouco coberta pelo estado", ressalta. As deficiências, aos olhos da população, também foram detectadas pelo estudo. Entre pessoas com mais de 60 anos, com escolaridade de até quatro anos, 17,3% avaliaram os serviços de saúde como ruim ou muito ruim.
A pesquisa mapeou, além das duas cidades interioranas, os distritos de saúde do Butantã, Taboão da Serra, Embu e Itapecerica da Serra, na região metropolitana da capital. Esse inquérito foi também realizado por equipes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
"Em relação ao estilo de vida, as diferenças são extremas no consumo de bebidas alcoólicas, cigarro e alimentos", disse Galvão. Os grupos considerados de baixa escolaridade e de classes socioeconômicas inferiores, mostra o inquérito de saúde, apresentam riscos bem maiores para esses fatores. "Essa população possui ainda maior prevalência para as doenças crônicas", acrescenta o pesquisador da USP.
O diretor da Faculdade de Saúde Pública afirma que, desde o início da pesquisa, já foram finalizados cinco trabalhos de pós-graduação, entre dissertações de mestrado e teses de doutorado, além de 20 ainda estarem em andamento. A intenção é que o conhecimento gerado durante esses trabalhos acadêmicos e os resultados da pesquisa que acaba de virar livro sejam utilizados para o planejamento dos serviços públicos de saúde.
"Geralmente os gestores trabalham apenas com a demanda, ou seja, com os dados de indivíduos que se beneficiam dos serviços. E agora temos um amplo conjunto de informações de base populacional, incluindo as pessoas que não têm o hábito de procurar os serviços de saúde", argumenta Galvão.
Parte dessa demanda reprimida, por exemplo, pode ser vista nas respostas dadas em relação aos exames feitos nos últimos anos. E aqui a questão da mamografia volta a aparecer de forma importante. Segundo os dados apresentados no livro, 31,76% das mulheres com mais de 39 anos de idade nunca fizeram um exame preventivo para o câncer de mama. Entre os homens da mesma faixa etária, 49,9% nunca fizeram um teste de próstata.
A pesquisa foi financiada pela FAPESP, por meio do Programa de Pesquisas em Políticas Públicas, em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. O livro, editado pela Imprensa Oficial do Estado, será distribuído gratuitamente a institutos de ensino e pesquisa da área de saúde.
Mais informações sobre o projeto que culminou no livro Saúde e Condição de Vida em São Paulo - Inquérito Multicêntrico de Saúde no Estado de São Paulo no site: www.fsp.usp.br/isa-sp ou pelo telefone (11) 3066-7108.