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Ensino Superior

Unidas pela pesquisa

Publicado em 01 julho 2007

Por Patrícia Pereira

Universidades privadas criam rede para trocar informações, desenvolver projetos em conjunto e facilitar a captação de recursos

Fiéis ao velho ditado "a união faz a força", seis universidades particulares se uniram e formaram a Rede de Pesquisa do Estado de São Paulo (Repesp) para desenvolver projetos em conjunto e competir com as universidades públicas - que têm mais tradição na pesquisa e maior número de professores doutores - na busca por recursos oferecidos pelas agências de fomento, como Fapesp e CNPq. De forma geral, as universidades particulares têm ganhado espaço na produção científica do país, mas ainda enfrentam dificuldades para obter financiamento.

De acordo com Jair Militão, pró-reitor adjunto de pesquisa e pós-graduação da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e membro da Repesp, a iniciativa de se unir para estimular a pesquisa é pioneira entre as universidades particulares, mas a experiência é comum entre as universidades públicas. "O Projeto Genoma, por exemplo, reuniu uma grande rede mundial de pesquisa", diz Militão.

A Repesp surgiu no segundo semestre de 2006 e conta com pesquisadores da Unicid, UniVap, UnG, Unicsul, Unicastelo e Universidade São Marcos. Dois projetos de pesquisa feitos em conjunto já estão em implantação.

Os primeiros passos da rede foram promover encontros entre as universidades participantes. "Uma precisava conhecer a outra, saber em que linhas de pesquisa cada uma era forte, o que tinham em comum e os recursos disponíveis", explica Militão. Além disso, os pesquisadores precisavam se conhecer. "Só assim podem nascer projetos em conjunto", diz o pró-reitor.

A rede identificou três pólos significativos: saúde, educação e meio am­biente. A partir deles, irá criar grupos para reunir pesquisadores. "As universidades particulares não competem entre si, como as públicas. O campo é grande. Precisamos nos unir para não pulverizarmos os recursos. A verba sempre vem para cobrir os custos da pesquisa e não para a universidade. Sendo assim, não há problemas em se fazer um projeto em conjunto", explica Militão.

Segundo o pró-reitor adjunto da Unicid, os projetos interinstitucionais têm mais peso na hora de captar financiamento porque conseguem reunir maior número de professores doutores, o que aumenta as possibilidades de descobertas significativas.

Visão compartilhada por José Leonardo Simone, pró-reitor de pós-graduação e pesquisa da Unicastelo, universidade que também faz parte da Repesp. "Se tivermos um grupo de pesquisa com alta produção científica, menos difícil será para captar recursos", diz.

Representantes da Repesp: em pé de igualdade para competir com as públicas

Mas será que toda universidade quer ou deve investir em pesquisa? Não, explica Militão. Para ele, existem três tipos de universidades: as "de ensino", com muitos alunos e que privilegiam o ensino; as "de ponta de pesquisa", geralmente públicas e que têm proporcionalmente poucos alunos e muita pesquisa; e as universidades "com pesquisa", que conjugam ensino e pesquisa. As particulares que lutam por recursos para ampliar sua produção científica estão na terceira categoria, já que o financiamento não pode vir da mensalidade do aluno.

De acordo com Militão, se os projetos são bons, consegue-se financiamento, independentemente de ser oriundo de uma universidade pública ou particular. "Não há discriminação. O problema é que as particulares têm menos professores doutores e, por isso, uma capacidade menor de elaborar projetos", acredita.

Para Leonardo Simone, os docentes das universidades públicas têm mais tempo para desenvolver pesquisa e, em conseqüência disso, acabam tendo mais acesso às verbas. "O que os órgãos de fomento avaliam é a qualidade do projeto, a consistência. Quem faz a análise é altamente competente e imparcial", afirma.

Constatação que não é consenso. Para Luiz Henrique Amaral, pró-reitor de pós-graduação e pesquisa da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), embora as agências de fomento afirmem que não há discriminação na escolha dos projetos, há uma certa resistência por parte dos avaliadores. "Na Unicsul, quando começamos a fazer pesquisa, houve sim discriminação. Não pela agência de fomento, mas pelos membros dos comitês avaliadores. Hoje em dia, depois de nos consolidarmos nessa área, com sete programas de mestrado aprovados, a situação mudou. Nos últimos dois anos obtivemos cerca de R$ 2 milhões para a pesquisa. Mas instituições que não têm visibilidade maior enfrentam sim discriminação", afirma Amaral.

Marcos Tadeu Tavares Pacheco, diretor do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IP&D) e responsável pelos programas de pós-graduação stricto sensu da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), pensa parecido. "Quando a universidade particular, comunitária ou não, estabelece um bom nível de pesquisa e pós-graduação, não existe dificuldade específica. O grande problema que se coloca é que, para alcançar esse nível de excelência, a instituição de ensino superior tem que contar apenas com seus recursos, podendo ter apoio das agências somente quando alcança a qualidade universitária", explica Pacheco.

Outro aspecto que dificulta a execução de pesquisa pelas universidades particulares é o fato de não poderem concorrer a determinadas verbas. "Exis­tem editais públicos referentes aos fundos setoriais em nível federal, com recursos para aquisição, implantação, manutenção e modernização da infra-estrutura de pesquisa, que não permitem a participação das instituições de ensino e pesquisa particulares", diz William Giozza, coordenador de Pesquisa e Extensão da Unifacs, de Salvador.

A dedicação exclusiva, comum a professores de universidades públicas, também torna a concorrência mais desleal, é o que afirma Fabíola Alves dos Reis, assessora de pesquisa e pós-graduação da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), de Governador Valadares. "Nossos projetos concorrem com os elaborados por professores que passam a maior parte do tempo dedicando-se apenas à pesquisa. Nas particulares, os professores dividem a carga horária entre dar aulas na graduação e na pós-graduação e orientar alunos, sobrando pouco tempo para elaborar projetos ou ter uma produção científica significativa", diz Fabíola.

Laboratório da Unicastelo: qualidade da pesquisa define recursos

Nem toda universidade particular, no entanto, ainda busca o seu espaço no mundo científico. Há instituições com a pesquisa muito consolidada e que brigam quase de igual para igual com as universidades públicas. É o caso da Pontifícia Universidade Católica (PUC). "A PUC-Rio diferencia-se da maioria das instituições de ensino e pesquisa particulares em virtude do pioneirismo nos programas de pós-graduação em diversas áreas da Engenharia e das Ciências Básicas, bem como do reconhecimento de sua qualidade, de acordo com avaliações da Capes aplicadas à quase totalidade de seus programas (nota 5 ou superiores). Dois de seus programas, inclusive, obtiveram avaliação máxima da Capes (7), no último triênio", explica José Eugenio Leal, vice-decano do Centro Técnico Científico (CTC) da PUC-Rio. Como resultado, o CTC tem recebido relevante apoio a projetos de pesquisas, por parte da Finep, Faperj, CNPq e MCT.

Ainda assim, pelo fato de ser parte integrante de uma universidade particular, sofre restrições a alguns tipos de financiamentos, exclusivos de universidades públicas, explica Leal. Uma saída, segundo ele, é obter verbas a partir de recursos oriundos de anuidades de alunos e de projetos patrocinados pela iniciativa privada.

Com a soma de todos os recursos, os dez programas de pós-graduação do CTC da PUC-Rio são responsáveis por um total de 589 projetos de pesquisa, grande parte deles com participação de alunos de pós-graduação e de graduação, segundo a instituição informou no relatório para a Capes, em 2006.

A exemplo da PUC, outras universidades particulares não têm poupado recursos para crescer e ganhar credibilidade nesse meio. Na Unicid, o professor que se dedica à pesquisa ocupa 90% de sua carga horária com essa atividade. Só 10% de seu tempo é voltado para ministrar aulas, afirma Militão. "A tradição nas particulares não é essa. Não chegamos a ter a dedicação exclusiva, como nas universidades públicas, mas temos dedicação prioritária", diz o pró-reitor adjunto.

Segundo Militão, nos últimos dois ou três anos a pesquisa cresceu de 60% a 70% na Unicid, que hoje conta com 142 projetos financiados, sendo 70% deles de mestrado, além de outras bolsas públicas e da própria universidade para alunos de iniciação científica. "Queremos desenvolver o gosto pela pesquisa já na graduação, formar alunos que saibam buscar informação desde cedo", diz Militão.

A Unicsul, que oferece sete programas de mestrado, possui mais de 1.120 linhas de pesquisas cadastradas no CNPq. "Algumas dessas consolidadas e outras em consolidação", diz Amaral. E a universidade tem conseguido visibilidade até no exterior. "Em 2006, o trabalho da professora Maria Teresa Botti sobre portadores de necessidades especiais foi reconhecido por uma revista científica inglesa como o melhor da área. Ela faz parte de um grupo que desenvolve técnicas de tratamento de reabilitação", diz Amaral.

Outra área em que a Unicsul tem investido é a Astronomia. Segundo Amaral, a universidade tem um grupo de astrônomos trabalhando na instituição com recursos da Fapesp e do CNPq. "Temos uma proposta de mestrado encaminhada à Capes, aguardando parecer. É um projeto arrojado que, se aprovado, vai permitir que a universidade participe das pesquisas mais avançadas. Já temos, inclusive, um professor-pesquisador realizando projeto de pós-doutoramento na Unicsul. Ele acabou o doutorado nos Estados Unidos e veio para cá. Também tivemos, recentemente, participação na reunião que discutiu sobre a classificação de Plutão como planeta ou não."

Na impossibilidade de financiar, com qualidade, a pesquisa em múltiplas áreas, a estratégia de algumas universidades particulares tem sido a de se destacar e se tornar referência em determinado campo de estudo. É o caso da Univap, que se concentrou em cinco centros de pesquisa e se tornou referência com a Engenharia Biomédica. "A Univap se destaca na área de Engenharia Biomédica. Possui dois mestrados nessa linha, um com conceito 4 e outro com conceito 5 da Capes, além de um doutorado aprovado com nota 5 em Engenharia Biomédica", diz Pacheco.

E a pesquisa feita pelas particulares não está restrita a universidades do Sudeste. Na Unifacs, de Salvador, estão em andamento 182 projetos de mestrado e 15 de doutorado. Giozza explica que a pesquisa na Unifacs é realizada principalmente em duas grandes áreas do conhecimento assim denominadas: Ciências Sociais Aplicadas e Humanidades e Engenharias e Ciência da Computação. É na Unifacs, por exemplo, que está sendo desenvolvido um projeto que usa borracha de pneu para melhorar a qualidade do asfalto.

Unidas ou não, as universidades particulares têm encontrado caminhos para levar a pesquisa adiante.


Borracha de pneu melhora produção de asfalto

No Nordeste, quem decidiu usar a pesquisa para melhorar a qualidade do asfalto e ainda colaborar com o meio ambiente foi a Unifacs, de Salvador. A universidade segue o caminho aberto pela USP e pela Petrobras: usar borracha de pneu para dar à mistura asfáltica maior adesividade e aderência, maior resistência contra o envelhecimento e o aparecimento de deformações e menor emissão de ruído. "As pesquisas sobre asfalto modificado por borracha de pneus tiveram início em março de 1996, na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP). No entanto, a tecnologia do asfalto-borracha foi desenvolvida pela Petrobras Distribuidora e teve sua primeira aplicação em 2001. Atualmente está sendo usada em alguns Estados das regiões Sul e Sudeste, principalmente no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na Bahia, o projeto está em desenvolvimento na Unifacs desde março de 2003, sendo que o trecho experimental foi construído em dezembro de 2004", diz Sandra Oda, professora e pesquisadora do Departamento de Engenharia e Arquitetura da Unifacs e coordenadora do projeto de pesquisa com asfalto-borracha.

Sandra explica que a borracha proporciona um aumento da flexibilidade, tornando a mistura asfáltica mais resistente ao envelhecimento e ao aparecimento de deformações (trilhas de rodas). Quando comparado ao pavimento convencional, o pavimento com asfalto-borracha apresenta maior aderência, contribui na redução de ruído causado pelo tráfego de veículos e auxilia na drenagem em dias de chuva (anti-spray). "Pode-se dizer que uma pista com asfalto-borracha proporciona maior conforto, economia e segurança aos usuários. Além disso, deve-se considerar o ganho ambiental, pois o uso da borracha de pneus descartados contribui com a redução da quantidade de pneus dispostos de forma inadequada, como em quintais, jogados em rios, aterros sanitários e depósitos clandestinos", diz a professora da Unifacs.

A desvantagem do asfalto-borracha é que a adição de qualquer tipo de produto, resíduo ou aditivo irá aumentar o custo do ligante asfáltico e, conseqüentemente, da mistura asfáltica. No entanto, lembra Sandra, devido à maior resistência do ligante com borracha, a espessura total da camada de revestimento com asfalto-borracha é menor (4 cm) do que quando utilizado um revestimento sem borracha (6 cm), o que implica redução da quantidade de materiais necessários e menor custo.


Pomada feita de repolho

O uso regional inspirou uma pesquisa feita pela Univale e teve como resultado um produto que em breve estará nas prateleiras das farmácias: uma pomada cicatrizante feita com extrato de repolho. "Quase não se vê esse tipo de pesquisa no Brasil, de desenvolvimento de produtos fitoterápicos. O que se tem é muita pesquisa sobre o potencial de plantas, mas nenhum produto palpável", diz Marcelo Barreto da Silva, professor da Faculdade de Ciências Agrárias da Univale e coordenador do Bioplantas, grupo de pesquisa em plantas medicinais da universidade, que fica em Governador Valadares (MG). Ele foi o coordenador do projeto.

Uma farmácia de manipulação da cidade vendia uma pomada cicatrizante feita à base de repolho e tinha resultados interessantes, mas não havia nenhuma pesquisa científica que comprovasse sua eficácia. "O uso era feito por moradores da região, mesmo assim, os hospitais não aceitavam", diz o professor. A Univale decidiu fazer um projeto interdisciplinar, com farmacêutico, agrônomo, biólogo e químico, para investigar as propriedades da pomada.

Foram feitos todos os testes e a pesquisa - "Caracterização do Extrato de Repolho e seus Efeitos Nitrogênicos e Cicatrizantes" -, que durou quatro anos, está prestes a ser concluída. "Só falta o ensaio clínico com pessoas. Acho que em três meses ela já será encaminhada para registro e a pomada poderá ser vendida em larga escala", diz Silva.

No início, quem financiou a pesquisa foi a própria universidade. Mas, ainda no primeiro ano do projeto, a Univale conseguiu financiamento da Fapemig, que custeou 80% dos gastos, e da própria farmácia, que bancou os outros 20%.