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Correio Popular (Campinas, SP)

Unicamp testa vacina de DNA que previne e cura tuberculose

Publicado em 02 março 2007

Por Delma Medeiros, da Agência Anhanguera

Uma vacina, tendo por base o DNA do agente causador da infecção, abre uma nova perspectiva no combate à tuberculose, doença responsável pela morte de 3 milhões de pessoas por ano no mundo. Resultado de um trabalho conjunto de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de São Paulo (USP), a pesquisa tem por objetivo desenvolver, utilizando recursos da nanotecnologia, um sistema para veiculação e liberação controlada da vacina de DNA, ou gênica, no organismo humano. A principal vantagem do novo produto é que, além da ação preventiva similar à da vacina convencional (BCG), esta tem função também terapêutica.

"Nos testes pré-clínicos (com camundongos), a vacina se mostrou eficaz tanto na prevenção quanto na cura da doença", explica a professora Maria Helena Andrade Santana, do Departamento de Processos Biotecnológicos da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp.

A vacina vem sendo desenvolvida desde 1992 pelo Núcleo de Pesquisas em Tuberculose (NPT) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, coordenado pelo professor Célio Lopes Silva. Maria Helena explica que a vacina gênica é considerada mais eficaz e segura que a convencional. Enquanto a convencional é preparada a partir de uma parte atenuada do agente causador da doença, a gênica traz informação do DNA do microorganismo causador da doença. Nos dois casos, o objetivo é induzir o sistema imunológico a produzir defesas contra o bacilo da tuberculose, mais conhecido como bacilo de Koch, em referência ao pesquisador alemão Robert Koch, que o identificou pela primeira vez 1882.

"A vacina de DNA tem algumas vantagens em relação à convencional. Não acarreta reações adversas, pode ser ministrada em dose menor e única, e é administrada de forma não invasiva, pela via nasal", informa Maria Helena. Segundo ela, a informação genética presente na vacina atua diretamente no interior da célula, onde o bacilo fica alojado, induzindo a produção da proteína que estimula o sistema imunológico a combater a doença. "Nos ensaios pré-clínicos com camundongos, a vacina se mostrou eficaz tanto na prevenção quanto na cura da doença", reforça.

O próximo passo é iniciar os testes clínicos em seres humanos, processo que pode levar cerca de cinco anos. "Se os testes foram positivos, em cinco ou seis anos, o produto deve estar disponível no mercado, substituindo a vacina BCG no Brasil e em outros países", destaca Maria Helena. Ela acrescenta que a vacina é indicada prioritariamente para crianças de 0 a 4 anos e obrigatoriamente a menores de 1 anos.

Nanotecnologia

Apesar dos resultados animadores dos testes pré-clínicos, os pesquisadores da USP depararam com um problema para ministrar a vacina de DNA: como levar a vacina até o interior da célula sem que esta se degradasse no caminho. Maria Helena explica que administrado de forma livre, o DNA tente a se degradar dentro do organismo. Surgiu daí a parceria entre os pesquisadores da USP com os da Unicamp.

A equipe da professora Maria Helena se encarregou de criar um veículo específico para levar a vacina gênica íntegra até o interior da célula. Nesta tarefa, os pesquisadores utilizaram lipossomas (nanopartículas lipídicas), criando o biofármaco (combinação da vacina de DNA com o nanocápsula transportadora). "A vacina gênica exige um lipossoma específico, que permite a interação com a célula", diz Maria Helena. Como tem estrutura similar à membrana da célula, o lipossoma torna mais fácil a interação com o sistema imunológico, explica Lucimara Gaziola de La Torre, que, sob a coordenação de Maria Helena, desenvolveu o projeto por quatro anos, como tese de doutorado.

Os trabalhos contam com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Trezentos casos surgem anualmente em Campinas

A tuberculose é um flagelo milenar que atinge com maior freqüência as camadas mais pobres da população. As pessoas subnutridas são as mais suscetíveis. Atualmente, 2 bilhões de pessoas no mundo estão infectadas pelo bacilo de Koch, o equivalente a um terço da população mundial. Dessas, 8 milhões vão desenvolver a doença, sendo que 3 milhões morrerão. No Brasil, são registrados anualmente 130 mil novos casos. Em Campinas, cerca de 300 novos casos são notificados por ano. Conforme dados do Ministério da Saúde, o Brasil ocupa o 15º lugar entre as 22 nações responsáveis por 80% do total de casos de tuberculose no mundo.