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Correio Popular online

Unicamp testa uso de células-tronco

Publicado em 30 abril 2006

Por Delma Medeiros, Da Agência Anhangüera (delma@rac.com.br)
Estudo envolve a criação de novos vasos sangüíneos em áreas do organismo que foram afetadas pela perda de irrigação

Usar células-tronco de medula óssea no tratamento de insuficiência arterial periférica para provocar angiogenêse (criação de novos vasos). Este é o objetivo de um estudo que o Hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está em vias de iniciar. Sob a orientação da professora e hematologista Joyce Maria Annichino Bizzachi, o estudo pretende estimular a criação de novos vasos em áreas do corpo sem irrigação, através da injeção de células-tronco.
Joyce explica que a idéia é utilizar camundongos no estudo pré-clínico (envolvendo apenas animais). No caso, os pesquisadores vão induzir à isquemia (ausência de irrigação) pela obstrução de ligaduras das artérias nas patas, e depois injetar células-tronco na área lesionada para verificar se elas estimulam o aumento da vascularização.
"Existem trabalhos relatando melhoras da vascularização com o uso de células-tronco. Queremos ampliar as informações sobre a questão". Segundo a pesquisadora, um grupo do Instituto do Coração (Incor) de São Paulo já está testando o uso de células-tronco em pacientes enfartados, com resposta positiva.
O estudo, entretanto, é inconclusivo. Segundo a médica hematologista e responsável técnica pelo Banco de Sangue de Cordão Umbilical do Hemocentro, Ângela Cristina Malheiros Luzo, alguns experimentos com humanos mostraram uma melhora da capacidade cardíaca em pacientes submetidos a terapia com células-tronco. Mas, os testes em ratos não comprovaram a capacidade dessas células de se transformarem em fibra cardíaca. "Foi constatada a melhora, mas não se sabe exatamente o que deu certo", justifica.
Joyce diz que a meta do estudo é confirmar a formação de novos vasos pelo uso de células-tronco. "O objetivo é recuperar a irrigação de áreas necrosadas, evitando a amputação de membros", afirma. Ela cita que a amputação é hoje uma das únicas alternativas terapêuticas em situações de obstrução arterial crônica, como nos casos de trombose arterial nas pernas. Segundo a pesquisadora, a expectativa com a pesquisa, é aproveitar a capacidade das células-tronco de se transformarem em outros tecidos para gerar a regeneração de vasos e artérias.
Joyce explica que não há literatura do uso de célula-tronco com modelo animal que mimetize a doença periférica no idoso de maneira adequada. "No estudo, vamos optar por animais comparativamente mais velhos e com quadro de obstrução arterial periférica crônica, para se assemelhar o mais ossível com o humano idoso, o alvo da pesquisa". A médica lembra que a resposta dos idosos aos tratamentos é diferentedos jovens. "Os idosos têm uma resposta mais lenta e são os mais vulneráveis a este tipo de problema".
O início da pesquisa depende apenas de financiamento. O projeto foi encaminhado para a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e aguarda o aval do órgão para deslanchar. "Só dependemos do sinal verde da FAPESP para começar as pesquisas", diz Joyce. Segundo ela, dependendo dos resultados com os ratos, a idéia é passar diretamente para o uso em seres humanos, usando células-tronco do próprio paciente para reduzir as chances de complicações. O foco do estudo são os membros inferiores. "Para outros órgãos, como coração, por exemplo, já existem vários grupos pesquisando".

A frase
"Não há ainda tratamento com células-tronco. O que existe são experiências terapêuticas com injeção de células-tronco em humanos, mas nada conclusivo."
Mayana Zatz - Bióloga, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP)
Universidade tem 5 projetos sobre o tema
No ano passado, quando o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) abriu uma linha de financiamento exclusiva para pesquisas com células-tronco, a Unicamp organizou um grupo multidisciplinar e inscreveu cinco projetos. Desses, até o momento, foi aprovado o projeto orientado pelo professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, Ibsen Bellini Coimbra, sobre candrogenese (construção genética da cartilagem de articulações).O projeto, com prazo de dois anos para conclusão, foi aprovado em agosto do ano passado e efetivamente iniciado em janeiro deste ano, e busca identificar, em células-tronco de cordão umbilical, as específicas para a reconstrução da cartilagem.O estudo está em fase de experimento laboratorial de identificação das células-tronco que azem mais rapidamente aregeneração da cartilagem. Um segundo passo inclui testes pré-clínicos, com animais. A estimativa é que para tratamento de lesões na cartilagem a aplicação em humanos demore em torno de cinco anos. Já para casos de doenças genéticas ou artrose, a aplicação deve demorar ainda mais. Os outros projetos apresentados, inclusive o coordenado por Joyce Bizzacchi, ainda aguardam uma linha de financiamento para serem desenvolvidos.