Notícia

Gazeta Mercantil

Unicamp quer manter excelência e ajustar finanças

Publicado em 22 abril 2002

Por Agnaldo Brito - de Campinas
Quando Carlos Henrique de Brito Cruz entrar hoje na Universidade Estadual de Campinas para seu primeiro dia de despachos como reitor, assumirá uma tarefa perseguida pelo antecessor manter a excelência acadêmica e dar consistência às finanças. Pois se do ponto de vida de ensino e pesquisa a Unicamp é referência, a autonomia administrativo-financeira conquistada em 1989 sofre abalos toda vez que o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) despenca. Nesta nova etapa, a meta será perseguir a sustentabilidade da instituição mediante a equalização dos custos fixos dentro da condição de receita variável. Por isso, a estratégia da nova direção tem ares de ortodoxia econômica: restringir os custos fixos; replanejar custos variáveis, como investimentos: e aumentar as receitas extra-orçamentárias. Tudo. aliás, conjugado à promessa de Brito Cruz de aumentar a produtividade acadêmica. Em resumo, mais cursos, mais alunos, mais pesquisa com o mesmo número de funcionários (7,7 mil) e de docentes. A equação exigirá, no mínimo, paciência e criatividade. A tendência de recuperação da economia brasileira não deixa de ser uma boa notícia para a universidade, mas questões estruturais terão de ser enfrentadas. Um dos maiores problemas da Unicamp é o custo das pensões de funcionários e professores aposentados. Cerca de 20% da folha salarial financiam aposentadorias. Outros 12% vão para o Instituto de Previdência (Ipesp). O novo reitor pretende adotar uma estratégia para dar uma solução ao assunto. A proposta é a criação de um fundo previdenciário que progressivamente assuma o pagamento das aposentadorias. A idéia é que parte dos 12% pagos ao Ipesp forme o fundo. O assunto depende de negociações com o governo do estado, pois uma solução deste tipo exige mudança da legislação. Em 1998, o custeio da folha da Unicamp chegou a 95% do valor repassado pelo estado. Brito Cruz pretende manter um comprometimento de no máximo 85%, índice considerado bom por ele e aceito internacionalmente. Em 2001, o índice foi ligeiramente maior, 87,5%, ao mesmo tempo em que a Unicamp conseguiu colocar a média salarial do professorado pouco acima do praticado em 1989, no início da autonomia. A previsão para este ano é de um comprometimento de 86,8%. segundo a prestação de contas do reitor anterior, Hermano Tavares. Para reduzir o impacto da folha no orçamento, o quadro de docentes da Unicamp foi reduzido de 2,5 mil para 2 mil profissionais por conta de aposentadorias e da restrição a novas contratações. Que efeitos uma nova redução do percentual teria sobre os salários dos professores, logo agora que eles conseguiram recuperar o patamar de 13 anos atrás? Basicamente, a universidade terá de contar com duas variáveis. A primeira, é o aumento da arrecadação de 1CMS. O efeito, neste caso, é direto, já que a Unicamp fica com 2,1% da reserva, prevista em lei, de 9.57% do ICMS destinada às três universidades estaduais — Unicamp, Unesp e USP. A outra, integra a terceira estratégia da nova direção: aumentar as receitas extra-orçamentárias. A captação de recursos deste tipo de 1997 a 2001 aumentou 28,5% — de R$ 170,2 milhões para R$ 218,8 milhões. Para melhorar a performance. Brito Cruz fala em ações "agressivas". A ação terá três tópicos. O primeiro, é transformar a Funcamp em agente pró-ativo. "Hoje, ela faz um trabalho apenas de gerência de contratos; agora, terá de ser mais atuante na captação de novos contratos", diz Brito Cruz. O segundo ponto é levar a Unicamp a valer-se dos benefícios da Lei Rouanet nos projetos culturais que desenvolve. Até hoje, nenhum trabalho na área cultural requereu enquadramento na lei. Para finalizar o plano de captação de recursos, a universidade vai brigar por uma fatia dos novos fundos setoriais. Neste caso, está agregada a idéia de desenvolver parcerias para pesquisa com o setor industrial. Não é apenas a Unicamp que demonstra grande interesse pelos fundos setoriais. Criados no ano passado, o mecanismo poderá se tornar em breve num dos principais fomentadores da pesquisa no País. Segundo o ministro de Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardemberg, que na terça-feira lançou em Santa Bárbara D'Oeste o primeiro projeto do Programa Institutos do Milênio, os 14 fundos setoriais ativados este ano gerarão R$ 700 milhões — R$ 1 bilhão em 2003. "Estamos num momento de oportunidades favoráveis à Unicamp". diz Brito Cruz. A universidade demonstra total afinidade com a nova política de ciência e tecnologia do governo federal — a integração do setor acadêmico com a indústria. O novo reitor chama a atenção apenas para um detalhe: o fato de que o setor industrial deve assumir o papel no desenvolvimento da pesquisa. "A contribuição da universidade é o estudante que ela forma e não os projetos que desenvolve: a universidade não irá substituir a indústria no desenvolvimento da tecnologia brasileira", diz o reitor. Para exemplificar, Brito Cruz lembra que durante toda a existência do Instituto de Física da Unicamp, 13 empresas foram criadas. "Juntas, faturam cerca de R$ 300 milhões por ano; se consideradas as empresas criadas por ex-alunos, a receita conjunta supera R$ 1 bilhão." Em outras palavras, a Unicamp não será um balcão em que a indústria compra solução pronta para colocar no mercado.