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Unicamp propõe mudanças no ensino musical a deficiente visual

Publicado em 25 fevereiro 2010

Interpretar notas na partitura é tarefa banal para o músico. Porém, quando o instrumentista é deficiente visual, essa atividade é complicada, sem contar outros obstáculos enfrentados na aprendizagem musical. Entender como alguém que não enxerga aprende a ler partituras pelo método braile e analisar o ensino de música e recursos disponíveis para essa pessoa é o tema da tese de doutorado "Do toque ao som: ensino da musicografia braille como um caminho para a educação musical inclusiva", de Fabiana Fator Gouvêa Bonilha, do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com orientação do professor Claudiney Rodrigues Carrasco, do Departamento de Música. A autora pesquisou com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Fabiana nasceu sem visão e baseou-se em sua própria vida para a tese. Bacharel em música, já havia feito outro trabalho semelhante em 2000, em seu mestrado. Na época, entrevistou estudantes de música com deficiências visuais e coletou suas percepções sobre o processo de aprendizagem. Fabiana entendeu que há pouco espaço de formação que atenda à necessidade da pessoa com problemas visuais, embora haja demanda. A inclusão musical desse público virou seu doutorado.

Fabiana analisou o processo percorrido por quem não enxerga, mas quer uma educação formal em música, a começar pelo desafio de encontrar ou transcrever partitura para o braile. "É fundamental que haja um bom transcritor, que seja especialista em música e em braile, que enxergue ou não", afirma Fabiana.

Uma das maiores contribuições do seu estudo é a apresentação de 50 partituras vertidas para o braile durante a pesquisa, material já disponível no Laboratório de Acessibilidade da Biblioteca Central César Lattes, da Unicamp. "A maioria das composições é brasileira, fato importante porque podemos fazer intercâmbio de partituras em braile com outros países", diz.

Muita abstração

A partitura transcrita, no entanto, é apenas o início de formação, pois o aprendizado para o deficiente visual vai mais além. O símbolo musical impresso é convencionalmente grafado em cinco linhas, chamadas pentagrama. A composição para piano, por exemplo, utiliza ao mesmo tempo dois pentagramas, um para cada mão, e um acima do outro para indicar a simultaneidade de algumas notas. Já a partitura braile contém apenas caracteres resultantes das combinações entre seis pontos salientes.

O músico interpreta a nota ao toque dos dedos e lê cada linha separadamente para deduzir a simultaneidade das mãos no piano, por exemplo. "É preciso muita abstração, sólida formação musical e boa memória, pois o instrumentista deve decorar a partitura antes de executá-la".

A pesquisa de Fabiana obteve levantamento qualitativo baseado no aprendizado de musicografia braile de dois deficientes visuais e a capacitação de um professor de música. Como pré-requisito, ela selecionou casos em que o envolvido tinha conhecimento musical prévio e o desafio, portanto, seria introduzi-lo ao sistema de notas em braile. Os alunos escolhidos eram aprendizes de violão e teclado, o que exigiu adaptações específicas, pois a partitura dos instrumentos é diferente.

Congênita ou não

Fabiana notou diferenças no aprendizado entre quem nasceu sem visão e quem adquiriu a deficiência ao longo da vida. Entre os primeiros, por exemplo, está a maior prevalência do chamado ouvido absoluto, a capacidade de identificar tons musicais em sons isolados. Isso ocorre porque a deficiência congênita impõe dependência dos sons desde muito cedo. Nesses casos, argumenta Fabiana, a estrutura neuronal é formada logo na primeira infância, o que enfatiza a audição e o tato também é mais desenvolvido. "O braile é o primeiro código de escrita, enquanto que na deficiência adquirida há processo de readaptação à realidade", comparou.

O orientador do trabalho, Claudiney Carrasco, considera a tese de Fabiana relevante em vários aspectos. "É a primeira contribuição de peso na pesquisa em musicografia braile no País e abre campo para que mais gente pesquise nessa área", afirmou. Para ele, o trabalho traz resultados práticos que auxiliam o professor de música a interagir com aluno deficiente visual.

É justamente a inclusão desse estudante no ensino de música a principal conclusão do trabalho de Fabiana. Para ela, não há necessidade de escola especializada, mas sim a adaptação do ensino ao estudante sem visão. Para isso, explica, é fundamental a participação de três personagens: professor preparado, aluno consciente e motivado e especialista transcritor de nota para o braile.

Da Agência Imprensa Oficial e da Agência Fapesp