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Unicamp: Pesquisadores alertam sobre atenção ao planejamento familiar durante pandemia

Publicado em 26 maio 2020

Projeções do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) indicam que mais de 47 milhões de mulheres em todo o mundo podem ter o acesso a métodos contraceptivos dificultado durante a pandemia de COVID-19 (doença causada pelo novo coronavírus), o que pode resultar em 7 milhões de gestações não planejadas nos próximos meses.

Em carta publicada no European Journal of Contraception and Reproductive Health Care, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) alertam que também no Brasil o impacto sobre a saúde das mulheres será imenso caso os serviços públicos de planejamento familiar – que garantem o acesso à contracepção para as dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS) – não sejam incluídos no rol de atividades essenciais.

“Ainda há pouca informação sobre os riscos de transmissão vertical do novo coronavírus [quando o feto é contaminado ainda no útero ou durante o parto] ou pelo leite materno. Também não se sabe se a infecção no início da gravidez pode causar algum tipo de problema para o bebê, como ocorre no caso do vírus zika. Muitas mulheres estão apavoradas com a ideia de engravidar e contrair a COVID-19 e elas devem ser atendidas”, afirma à Agência Fapesp o ginecologista Luis Bahamondes, professor do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM-Unicamp) e coautor do texto.

Como destacam os autores na carta, gestações não planejadas estão associadas a fatores como aborto inseguro, acompanhamento pré-natal inadequado e complicações na gravidez, que resultam no aumento das taxas de morbimortalidade materna e infantil. Por esses motivos, diz o texto, “métodos contraceptivos salvam vidas”.

Serviços

No Brasil, a estimativa é de que 52% das gestações não sejam planejadas e que, entre as adolescentes, o número chegue a 62%. Além disso, apenas 2% das brasileiras em idade fértil (15 a 49 anos) têm acesso a métodos contraceptivos de longa duração, como o DIU (dispositivo intrauterino com cobre ou liberador de hormônio) e implantes, considerados os mais eficazes na prevenção da gravidez. No SUS, somente está disponível o DIU com cobre e não em todas as unidades de saúde.

Segundo Bahamondes, aproximadamente 20 milhões de mulheres no Brasil dependem dos ambulatórios públicos de planejamento familiar para ter acesso a contraceptivos de longa duração e, desde o início da pandemia, a maior parte desses serviços ou está fechada ou funciona de forma restrita.

“Na rede privada, por outro lado, o atendimento aparentemente está normal. Esta é mais uma faceta da desigualdade social no país”, diz o pesquisador. Bahamondes é apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em Projeto Temático sobre o uso de contraceptivos.

Atendimento

Mesmo o acesso à pílula anticoncepcional pelo SUS ficou mais difícil durante a pandemia, conta o ginecologista, pois muitas Unidades Básicas de Saúde (UBS) que fazem a prescrição e a dispensação do fármaco estão limitando o atendimento a pessoas que apresentam febre, tosse ou outros sintomas da COVID-19.

Na avaliação do pesquisador, o acesso a métodos contraceptivos como pílula, injetáveis e anel vaginal poderia ser facilitado durante a pandemia pelo envio de receitas eletrônicas por e-mail ou aplicativos de bate-papo. As dúvidas poderiam ser esclarecidas pelo médico remotamente.

“Mesmo a colocação de DIU ou implante, que requer atendimento presencial, pode ser feito de forma segura com o uso de equipamentos de proteção individual e outras medidas de proteção. Uma possibilidade, por exemplo, seria transferir parte da sala de espera para uma área ao ar livre e colocar as cadeiras bem afastadas. Em alguns locais fora do Brasil, adotou-se um anteparo de acrílico entre o médico e a paciente”, conta o pesquisador.

Fonte: Governo do Estado de São Paulo