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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Unicamp perde Daniel Hogan

Publicado em 03 maio 2010

Muito antes de os estudos sobre meio ambiente e sociedade serem colocados na agenda da comunidade científica brasileira, o demógrafo Daniel Joseph Hogan já incluía o tema entre aqueles que iriam dominar os debates no cenário do século 21. Ainda no início da década de 1980, ele começou a formar, na Unicamp, o time de pesquisadores precursores nessa área, num trabalho pioneiro que uniria as áreas de Ciências da Natureza, Ciências da Terra e Ciências Sociais. Por essa razão, sua morte, ocorrida no dia 27 de abril, em Campinas, deixou uma lacuna que só não é maior porque o pesquisador soube, como poucos, construir um legado intelectual que cai como uma luva nas atuais discussões sobre a relação do homem com a natureza.

O professor Hogan não era apenas um grande pesquisador, ele se firmou como uma verdadeira instituição das ciências sociais relacionadas ao meio ambiente, assevera a atual coordenadora do curso de doutorado do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), da Unicamp, Lúcia da Costa Ferreira. Não é exagero. A pesquisadora, que teve Hogan como orientador ainda nos tempos de iniciação científica, na década de 1970, nunca mais se distanciou do mestre, que também orientou seus trabalhos no mestrado e doutorado. Segundo ela, Hogan foi o personagem agregador que delineou essa nova área de pesquisa no Brasil.

Diplomático e discreto, Hogan conseguiu unir pesquisadores de áreas diferentes em torno de um mesmo tema. Entre eles, destacaram-se os professores Keith Brown e Hermógenes Leitão, ambos do Instituto de Biologia (IB), que se tornariam dois de seus parceiros mais fiéis. A partir daí, desenvolveu-se definitivamente uma visão multidisciplinar sobre o meio ambiente, analisa Lúcia. Um dos resultados mais importantes dessa nova visão foi a criação do Nepam, que se tornaria referência nacional nos estudos sobre sociedade e meio ambiente.

A pesquisadora do Nepam lembra que Hogan teve papel decisivo no processo de institucionalização do campo de conhecimento que trata das relações entre sociedade e ambiente. Os rearranjos científico, intelectual e institucional propostos não eram novos e de certa maneira espelhavam clivagens produzidas no período posterior à II Guerra Mundial em outras partes do mundo, em torno dos debates quanto aos estudos interdisciplinares.

Base empírica

O grupo que liderava os debates na Unicamp decidiu espelhar-se nos estudos por áreas ou regiões e, através de forte base empírica, agregar cientistas sociais e cientistas naturais que se debruçariam por regiões dotadas de suposta coerência cultural e histórica, com o objetivo de descrever-lhes sob um ponto de vista multidimensional. Como esses estudos eram, por definição, multidisciplinares, criou-se o Núcleo e a formação na graduação e pós-graduação continuava delimitada aos programas tradicionais onde foram criadas linhas de pesquisa transversais às especialidades de origem, de modo a tratar da questão ambiental.

Hogan também desempenhou papel de destaque como professor de demografia e pesquisador dos Núcleos de Estudos de População (Nepo), ligado ao IFCH. Um dos raros especialistas em ciências humanas voltados à avaliação dos impactos das alterações do clima, em novembro de 2009 Hogan apresentou, juntamente com a urbanista Andrea Young, as conclusões de um levantamento que havia coordenado, mostrando que um dos pontos da cidade do Rio de Janeiro mais sensíveis aos excessos do clima eram as proximidades da lagoa Rodrigo de Freitas e as Baías de Guanabara e de Sepetiba - de fato, essas áreas e as pessoas que viviam nelas estavam entre as mais atingidas pelas chuvas intensas do início deste ano no Rio. Já em São Paulo as áreas mais sensíveis são as próximas ao leito dos rios Tietê e Pinheiros, espaço de inundações constantes sob as chuvas de dezembro e janeiro.

No contexto desse trabalho, Hogan organizou, juntamente com o geógrafo Eduardo Marandola Júnior, o livro População e Mudança Climática: Dimensões Humanas nas Mudanças Ambientais Globais, que se insere no debate atual acerca da sociedade contemporânea, no qual riscos e vulnerabilidades darão os contornos das tendências e dos cenários para o século 21. Mudanças ambientais, mudanças climáticas, extremos atmosféricos, desastres hidrometeorológicos e emissão de gás carbônico são temas, entre outros, que se impõem à agenda global. Acrescida a estes desafios está a importância de se incorporar as dimensões humanas das mudanças ambientais. As pesquisas de ponta e as temáticas de vanguarda referentes à questão ambiental traduzem-se nos estudos desta coletânea, marcados pela interdisciplinaridade.

Tais estudos refletem a preocupação teórico-metodológica para a compreensão das relações entre mudanças climáticas e dinâmica populacional. Por outro lado, reforçam a importância das cidades no bojo das transformações sociais, indicando que são nelas onde os cenários mais otimistas se assentam. O livro é uma referência para diferentes áreas do conhecimento, bem como para o enfrentamento e preparação das novas situações a serem vivenciadas em termos das mudanças ambientais globais nas próximas décadas.

É mais recente a participação de demógrafos, urbanistas, geógrafos e sociólogos em debates que envolvem as mudanças climáticas, trabalho desempenhado pelos estudiosos do clima e cientistas da atmosfera. Por acreditar na valiosa contribuição que as Ciências Humanas podem fornecer, Hogan e Marandola Jr. convidaram 16 pesquisadores para serem seus autores, com patrocínio do Fundo de População das Nações Unidas, em parceria com o Nepo. A obra pode ser adquirida na biblioteca do Nepo.

Megacidades

Homem cortês e pensativo, o pesquisador era um dos coordenadores do projeto Megacidades, um amplo estudo sobre o clima, solo, relevo e condições de vida de populações de cidades como São Paulo apoiado pelo Programa Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Sâo Paulo (Fapesp) de Mudanças Climáticas Globais. Um de seus propósitos era fazer com que as conclusões desse estudo chegassem a quem pudesse trabalhar para evitar tragédias causadas pelos temporais do início de cada ano.

O pesquisador chegou à Unicamp em 1972, depois de ter se graduado em Letras no Le Moyne College, em Syracuse, Estados Unidos, e feito o mestrado em sociologia do desenvolvimento e o mestrado em demografia, ambos na Universidade Cornell, também nos Estados Unidos. Na Unicamp, vinculou-se ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e foi pró-reitor de Pós-Graduação de 2002 a 2005. Com sua capacidade de articulação e diálogo, Hogan conseguiu criar uma ampla rede de pessoas dedicadas a pensar e trabalhar por um mundo mais sustentável, justo e humano, comentou a diretora do Nepo, Regina Maria Barbosa. O Brasil acaba de perder um estudioso e militante das questões ambientais e nós, do Nepo, um grande amigo, acrescentou.

Daniel foi um pesquisador original e imaginativo que, além da contribuição científica, foi determinante para várias iniciativas institucionais, disse o diretor Científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz. Segundo ele, sua participação foi determinante para trazer uma visão multidisciplinar com foco nas humanidades para programas como o Biota e o Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais. Seu modo tranquilo de debater, sempre com tom suave, palavras bem escolhidas e ideias fundamentais definiram o resultado de muitas discussões científicas e institucionais e estabelecem um modelo para a vida acadêmica. Sua ausência será muito sentida.

Discreto, dono de um discurso que aliava elegância e objetividade, Hogan era uma figura extremamente simpática. Por isso, sua morte provocou consternação na comunidade científica, não só pela perda do cientista exemplar, mas também do cidadão e amigo. Sem dúvida, é uma perda importante para a Unicamp, lamentou o reitor Fernando Costa. Segundo ele, o docente contribuiu de maneira significativa não apenas como pesquisador de destaque na área de Demografia, mas também como pró-reitor de Pós-Graduação da Unicamp. O professor Hogan, que era meu amigo pessoal, foi um exemplo de dedicação à ciência e à instituição, completou o reitor.

Trata-se de uma enorme perda tanto para a Unicamp como para o IFCH, disse o vice-reitor e coordenador geral da universidade, Edgard Salvadore De Decca. Para ele, Hogan teve uma atuação irrepreensível não só como pró-reitor mas também como representante docente. Ele sempre atuou em defesa da universidade e do IFCH, completou.

O secretário estadual de Ensino Superior, Carlos Vogt, que conhecia Hogan de longa data, lamentou não somente a perda do intelectual, mas também do amigo. Quando veio para a Unicamp no início dos anos 70, originário de Cornell, ele já era um pesquisador de destaque. Aqui, ajudou a consolidar o IFCH e instituiu a área de estudos demográficos relacionados com o meio ambiente. Sem dúvida, o professor Hogan contribuiu decisivamente para que o Brasil avançasse nesse campo da ciência. De minha parte, perco um amigo, cujo perfil sempre foi marcado pela cordialidade e pela busca contínua do entendimento, afirmou o secretário de Ensino Superior.

Diretora do IFCH, a professora Nadia Farage destacou que para além de um pesquisador importante na área de demografia, Hogan destacou-se ainda como professor no segmento da Sociologia, sendo responsável pela formação de várias gerações de profissionais. Também nesse aspecto ele deixou uma marca profunda no Instituto, disse.

Maria Coleta de Oliveira, chefe do Departamento de Demografia do IFCH, lembrou que Hogan foi um dos primeiros pesquisadores convidados pela professora Elza Berquó, fundadora do Núcleo de Estudos de População (Nepo), para integrar o órgão. Já como membro do grupo, o professor Hogan aceitou o desafio de abrir uma área de estudos associando demografia e ambiente em uma época em que praticamente ninguém falava sobre isso. Ele sempre foi um cientista e um ser humano cuidadoso e plural. A Unicamp e a ciência brasileira perdem muito com a morte dele, considerou.